
Vania Caus*
Nesta sexta e sábado, a tradicional paisagem do Centro Histórico de Vitória está mais uma vez colorida por milhares de pessoas que anseiam música, arte e diversão. Em sua terceira edição, o Viradão Vitória 2018 está reunindo produtores da cultura capixaba em 30 horas de evento, espalhados por 20 pontos do coração da ilha.
Uma vez ponto de encontro de amigos e amores, o Centro da Cidade traz heranças de uma cultura genuinamente capixaba, berço do desenvolvimento econômico e também artístico da cidade. Os já conhecidos cenários aos redores do Teatro Carlos Gomes, Glória, Palácio Anchieta, Galeria Tamanini, parques e escadarias do bairro contam histórias de gerações por meio de suas consagradas construções históricas, que infelizmente se deterioram aos poucos diante dos nossos olhos.
A cultura capixaba, por exemplo, é um tema oportuno de se discutir. Mesmo que nos últimos anos tenha ganhado cada vez mais espaço e força, neste feriado também subirá aos palcos a denuncia da falta de incentivos locais
A preservação do patrimônio material é uma importante pauta. O restauro não é uma simples reforma, e mesmo reconhecido na comunidade artística, ele também é mais do que uma técnica: é uma prática de resgate da história de um povo, sua cultura e tradição.
Por assim dizer, a Virada Cultural também tem esse caráter interventivo. Ruas interditadas, trânsito desviado e mobilização policial são alguns dos efeitos dessas ocupações. Por isso, para além do seu dever cultural, as intervenções urbanas também cumprem importante papel político, ocupando espaços públicos para levantar debates pertinentes para os que ali habitam.
A cultura capixaba, por exemplo, é um tema oportuno de se discutir. Mesmo que nos últimos anos tenha ganhado cada vez mais espaço e força, neste feriado também subirá aos palcos a denuncia da falta de incentivos locais, como os varguardistas editais da Lei Rubem Braga que ficaram três anos na geladeira.
Em dezembro de 2017, o Conselho Municipal de Cultura, do qual eu faço parte, se reuniu e deliberou um percentual indicativo de 1% a 3% da receita de IPTU e ISS a ser destinado à Lei Rubem Braga. Mas a proposta está parada no jurídico da prefeitura.
É por esse principal motivo que a arte precisa extrapolar as portas e janelas dos museus e galerias e se tonar um movimento. É necessário ir para as ruas, ir para aonde o povo está. Assim, além de tornar a cidade mais bonita e colorida, estas intervenções cumprem seu importante papel de denúncia e valorização dos patrimônios materiais e imateriais da cultura local. Com isso, a preservação dos bens simbólicos que compõem uma cidade também condiz com a proteção do povo que a produz, sua tradição e cultura.
Comemorando 467 anos de Vitória em 2 dias, 30h, 88 atrações e 20 pontos de cultura, o Viradão é um presente para todos nós que investimos tempo, dinheiro e amor na cultura capixaba.
*A autora é artista plástica e membro do Conselho Municipal de Cultura