Rômulo Augusto Penina*
Em 1983, poucas pessoas ouviam falar em Aids, que viria a ser considerada “o mal do século”. Surge o cientista francês Luc Montagnier, professor do Instituto Pasteur de Paris, onde sua equipe se dedicava à pesquisa do vírus causador da doença. Uma entrevista sobre o tema, realizada com o pesquisador, encontra-se na antologia da revista Veja. Foi realizada por Cristiane L. Medeiros em 13 de junho de 1990 com o título “Vamos vencer a Aids”.
Seu trabalho abriu as portas do desenvolvimento de testes sanguíneos e outros avanços, mais recentemente dando origem a uma vacina. Ele alertou para o fato de que a Aids, ao contrário do que se propagava, não era uma nova peste e que seus efeitos poderiam ser controlados por medicamentos como, na época, o AZT, que já se revelavam capazes de prolongar sensivelmente a vida dos pacientes oferecendo-lhes um considerável conforto físico.
Sobre a relação com um parceiro contaminado, Montagnier afirmou na época: “Uma pessoa em boas condições de saúde, que se alimenta bem e desenvolve um bom sistema imunológico, pode impedir o vírus de se instalar em seu organismo. Quando se observam os grupos de risco, constata-se que eles estão mais sujeitos ao vírus porque apresentam grandes deficiências imunológicas”, dizia o texto da revista de quase 30 anos atrás.
O professor Montagnier concluiu: “Quando se realiza um trabalho como esse, é sempre difícil avaliar seu alcance, sua importância de imediato. É preciso tempo, deve-se evitar dar falsas esperanças aos doentes anunciando uma descoberta sensacional até que ela seja 100% comprovada”.
Esse registro importante da história da doença que tanto marcou os anos 80 figurou nas páginas amarelas da revista Veja, por anos considerada a mais prestigiosa seção da imprensa brasileira. E Luc Montagnier, ao lado de Françoise Barre-Sinoussi, foi agraciado com o Nobel de Medicina, em 2008, pela descoberta do vírus HIV. “Não há dúvida sobre quem fez as descobertas fundamentais”, disse Maria Masucci, integrante do comitê do mais conhecido prêmio científico do mundo.
*O autor é ex-reitor da Ufes