“A reconciliação eterna, entre dois adversários eleitorais, deveria ser exatamente um castigo infinito.” O aforismo é do Conselheiro Aires, protagonista do último romance de Machado de Assis, o “Memorial de Aires” (1908). No livro, o personagem-título, um diplomata aposentado recém-tornado da Europa, registra em um diário episódios corriqueiros envolvendo seu círculo de amigos na sociedade carioca da época. Em meio à narrativa das memórias, ele lança uma série de reflexões políticas, filosóficas, existenciais.
Aires é “colega de profissão” de um diplomata de carreira que readquiriu protagonismo na política capixaba justamente a partir da reconciliação (não se sabe se eterna) com um antigo adversário: José Carlos da Fonseca Junior estava no limbo até meados de 2015, quando foi puxado de volta ao topo do poder no Estado pelo governador Paulo Hartung.
Entre 1999 e 2002, Zé Carlinhos, como é chamado, foi um dos maiores aliados de José Ignácio Ferreira, comandando a poderosa Secretaria da Fazenda durante o governo dele. Enquanto isso, Hartung, senador no mesmo quadriênio, fazia oposição a Ignácio. Muitos anos se passaram desde então, e as trajetórias de Hartung e Zé Carlinhos fizeram curvas opostas: a daquele, crescente, com três eleições acumuladas ao Anchieta; a do diplomata, decrescente, com polêmicas no Itamaraty e processos relativos à sua atuação na Secretaria da Fazenda e na Câmara Federal (Máfia dos Sanguessugas).
Por algum motivo, contudo, Hartung resgatou o antigo adversário, incorporando-o à sua equipe e concedendo-lhe poder considerável para atuar nos bastidores: primeiro, com a missão de buscar parcerias econômicas no exterior; desde 2016, como secretário-chefe da Casa Civil, o grande responsável pelas articulações com os deputados estaduais e outros agentes políticos. Muito inteligente (ninguém chega ao Itamaraty se não o for), Zé Carlinhos soube aproveitar a chance, enquanto se firmou como um dos principais dirigentes do PSD no Estado.
Agora, nas eleições de 2018, ele se prepara para tentar alcançar ainda mais poder, emplacando o próprio nome em alguma chapa majoritária. A dúvida é: em qual posição? A resposta passa por outra pergunta que antecede a primeira: até que ponto Zé Carlinhos está disposto a se expor ao eleitorado? Poder não necessariamente demanda destaque, nem visibilidade. Colegas de Zé Carlinhos no PSD falam em lançá-lo a vice-governador em uma chapa com o selo hartunguista, suplente de algum candidato a senador ou até a governador do Estado (se Hartung não tentar a reeleição).
Vice e suplente de senador fazem total sentido. Governador não faz sentido algum. Em primeiro lugar, após cerca de uma década na planície, Zé Carlinhos não tem recall político, logo não tem votos, logo não tem a menor condição de assumir candidatura que lhe exija protagonismo pessoal. Zé Carlinhos é muito conhecido no restritíssimo universo político, dos palácios e dos Poderes. Fora dali, os mais jovens não fazem a menor ideia de quem seja ele. Já os mais velhos devem associá-lo ao governo José Ignácio.
Por isso, se for sensato (e é), Zé Carlinhos não há de querer encarar uma campanha em que tenha que ocupar ele próprio a posição central na chapa. Ao contrário, deve evitar ao máximo qualquer exposição voluntária. Até por conta de seu passado polêmico, certamente quer seguir atuando naquilo em que se especializou: como um operador de bastidores. Para isso, o ideal é se acomodar como vice na chapa de alguém do governo ou, de preferência, como suplente de algum candidato a senador.
Nos dois casos, se eleito, poderá seguir agindo nos bastidores ao longo dos próximos anos na política local. Como suplente de senador, ainda tem o bônus da expectativa de poder, podendo herdar o mandato em caso de licença ou morte do titular nos próximos 8 anos, sem ter pedido nem sequer um voto para si mesmo.
Fala, Maquiavel!
Sobre a súbita aliança entre PH e Zé Carlinhos, outrora adversários: “Aqueles homens que no início de um principado eram tidos como inimigos, que se caracterizam pela necessidade de um apoio para se manterem, sempre, com grandíssima facilidade, o príncipe os poderá ganhar; e eles principalmente são forçados a servi-lo com fidelidade, até porque sabem que é necessário cancelar com novas ações aquela opinião sinistra que se tinha deles; e assim o príncipe encontrará sempre mais utilidade neles do que naqueles que, servindo-o com excesso de confiança, descuidam a coisa sua”.
Quem explica?
À frente do Ministério dos Direitos Humanos, temos uma desembargadora aposentada que ganha mais de R$ 30 mil, queria ganhar mais de R$ 60 mil e acha que sua situação é análoga à escravidão (um insulto à história dos negros no Brasil). Indicada para o Ministério do Trabalho, temos uma deputada condenada por violar direitos trabalhistas (uma ofensa a todos os trabalhadores do país).
Quem explica? – 2
Para completar, nomeado ministro das Cidades, temos um deputado que não acerta os nomes das cidades: na última quarta, ao anunciar recursos para o saneamento básico, Alexandre Baldy chamou a cidade da Serra de “Serrana” e Nova Venécia de Vila... o que mesmo?
Quem explica? – 3
O governo fiscalista de PH abre o ano “flexibilizando o decreto de controle de gastos de custeio” – em bom português, diminuindo o rigor no controle de gastos. Já o governo fiscalista de Temer abre o ano querendo quebrar a “regra de ouro”, prevista na Constituição, que serve para evitar que o governo aumente sua dívida para pagar despesas correntes.