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  • Vítimas da violência contam como transformaram a dor em fé e esperança

Beatriz Caliman

Repórter

Gazeta Online, Elis Carvalho

Repórter de Cotidiano

Publicado em 24 de Dezembro de 2018 às 13:22

Publicado em

24 dez 2018 às 13:22
A aposentada Maria Helena, 69 anos, teve o marido morto por um tiro durante um culto em casa Crédito: Marcelo Prest
Perder um filho de forma cruel e ganhar forças ao apadrinhar uma criança. Ver o marido ser vítima de bala perdida durante um culto e conseguir seguir em frente com a ajuda da fé. Ter a perna amputada após um grave acidente e agradecer pela oportunidade de reaprender a andar com a ajuda de uma prótese.
Para alguns capixabas, o ano de 2018 foi marcado pela dor, mas também pela renovação da fé e da esperança. Seja pela violência nas ruas, seja nas estradas, elas tiveram que aprender a conviver com a perda e a seguir em frente.
Entre as pessoas que enfrentaram o trauma da violência está a aposentada Maria Helena Santos, 69. Ela é viúva de Nelson Antônio Ghisolfi, 66, morto por uma bala perdida enquanto participava de um culto dentro de casa, em Morro Novo, Cariacica-Sede, no dia 27 de junho.
Maria segurava a mão de Nelson quando ele morreu. “Ele só me olhava sem dizer nada. Não queria acreditar naquilo”, relata. Após a tragédia, foi na fé que encontrou apoio e forças para superar os momentos de dor e solidão.
“Meu marido era muito religioso. Já eu, passei a frequentar mais a igreja após a morte dele. Sempre peço à Deus, em orações, para diminuir um pouco a dor da falta. A fé foi uma forma de conseguir forças e seguir em frente”, disse.
ENCONTRO
Um dos casos que mais chocaram o Espírito Santo neste ano foi o assassinato dos irmãos Kauã Salles Butkovsky, 6 anos, e Joaquim Salles Alves, 3 anos. As crianças foram estupradas e queimadas dentro de casa. O pastor George Alves, pai de Joaquim e padrasto de Kauã, está preso acusado dos crimes. A esposa dele, a pastora Juliana Salles, mãe dos meninos, também está no presídio e é acusada no processo juntamente com o marido.
Passei a frequentar mais a igreja após a morte dele. A fé foi uma forma de conseguir forças e seguir em frente
Maria Helena Santos, aposentada
O comerciante Rainy Butkovsky, 31 anos, pai de Kauã, viveu meses de muita dor. Mas nos últimos dois meses voltou a sorrir ao conhecer Julio, 12 anos, que vive em um abrigo na Serra. O nome da criança é fictício para preservar sua identidade, respeitando o que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente
“Cheguei ao abrigo no Dia das Crianças. Estava muito abalado e com aqueles meninos eu consegui me sentir melhor por alguns instantes. Retornei semanalmente e pedi para apadrinhar o Julio no Natal. Queria dar um presente a ele, coisa que não posso mais fazer pelo meu filho. Esse contato fez tão bem para nós dois que quero continuar indo na instituição”, diz Rainy.
SUPERAÇÃO
Para a presidente da Comissão de saúde do Conselho Regional de Psicologia (CRP), Keli Lopes Santos, casos como o de Rainy mostram que dedicar-se a ajudar outras pessoas após uma perda pode funcionar como uma forma de reparar o dano e fazer com que o ato de viver em sociedade aconteça de forma mais saudável, com base no afeto.
“São inúmeras as possibilidades de lidar com a dor de uma perda e cada pessoa pode criar sua saída para sentir-se melhor e mais confortável. Ela pode, por exemplo, ressignificar a dor, redirecionando o afeto que tinha em uma pessoa que faleceu para alguém que esteja por perto. É um movimento de vida”, conta.
A psicóloga completa que é importante respeitar o tempo da dor, deixando que cada um encontre a sua própria saída. “A pessoa que passa por um trauma não tem o poder de mudar o fato. A perda é irreparável. Mas ela pode, sim, melhorar outros aspectos da vida dela e, ao mesmo tempo, contribuir com a sociedade”.
Já a psicóloga e terapeuta Cassia Rodrigues alerta que embora existem válvulas de escape para a dor, é importante vivenciar as etapas do luto.
“Toda perda deve ser muito bem trabalhada para que ela não volte depois como doença. Nem todo mundo é resiliente e isso não é fraqueza. O luto deve ser vivido em todas as etapas: negação, raiva, barganha, tristeza e finalmente o início da aceitação”, explica Rodrigues.
META É SER EXEMPLO DE SUPERAÇÃO
O dia 9 de abril de 2018 não é apenas a data em que o mecânico industrial Luciano Moura de Holanda, 39, sofreu um grave acidente que o fez amputar a perna esquerda. Mas também um segundo aniversário. Agora, ele reaprende a andar com uma prótese e, no lugar de tristeza, agarrou-se à felicidade por estar vivo.
Luciano estava a caminho do trabalho, de moto, quando foi surpreendido por uma forte chuva. Na tentativa de se proteger, ele decidiu abrigar-se debaixo de uma marquise, no Centro de Vitória. Foi pouco mais de um minuto até ele ser atingindo por uma BMW desgovernada.
O mecânico Luciano Moura de Holanda perdeu a perna em acidente de trânsito no Centro de Vitória Crédito: Carlos Alberto Silva
“O carro rodou e veio com tudo para cima de mim, bateu na moto, me arremessou e esmagou minha perna contra uma porta de aço. Fiquei consciente o tempo todo. A dor que senti era insuportável”, recorda. Luciano foi levado ao hospital, recebeu uma anestesia e quando acordou, já estava amputado.
“Quando acordei e vi que estava vivo, pensei ‘o que vier é lucro’. Levantei o lençol para olhar a perna e quando vi, pensei ‘é, foi embora’. É um baque. Mas minha prioridade era a vida. Busquei força na fé, na família e nos amigos”, relata.
É um baque, mas minha prioridade era a vida. Busquei força na fé, na família e nos amigos. Cada passo que eu dou é uma vitória.
Luciano Moura, mecânico industrial
Após seis meses de recuperação, ele comemora a conquista de voltar a andar. “Consegui a prótese e estou feliz da vida. Cada passo que eu dou é uma vitoria, um sentimento de liberdade. Tinha receio de como a sociedade ia me aceitar como deficiente. Mas hoje me divirto com as perguntas curiosas das crianças (risos). Tenho planos de voltar a trabalhar, fazer uma faculdade e dar palestras sobre superação para ajudar pessoas que passaram pela mesma situação”, planeja.
APÓS TRAGÉDIA, UMA NOVA CHANCE DE OFERECER AMOR
Rainy Butkovsky, o pai de Kauã Crédito: Marcelo Prest
A história dos irmãos Kauã Salles Butkovsky, 6 anos, e Joaquim Salles Alves, 3, chocou o Espírito Santo. As crianças foram estupradas e queimadas dentro de casa, em Linhares, no dia 21 de abril. Oito meses após perder o filho, o comerciante Rainy Butkovsky, 31, pai de Kauã, sofre com a falta do menino. Mas os dias ficaram menos difíceis depois que ele passou a ser voluntário em um instituto que cuida de crianças vítimas de maus tratos e risco social, na Serra.
Rainy Butkovski, pai de Kauã Crédito: Carlos Alberto Silva
A gestora de Recursos Humanos Dalete Curcio lembra do dia que Rainy chegou no Instituto Vida.
“Ele chegou no dia 12 de outubro. Estava chorando e disse que precisava fazer algo pelas crianças. Foi triste. Eu não o conhecia. O deixei entrar e ele me contou quem era. Falei que ali ele seria acolhido por voluntários e pelas crianças. Acredito que ele sentiu saudades do filho. Depois desse dia ele começou a ir todos os fins de semana e pelo menos uma vez na semana ao Instituto”, relembra.
Nesse tempo, Rainy conheceu Julio* (nome fictício), de 12 anos. E viu um novo sentido para a vida.
“A fé e minha família me deram força, mas meu coração estava muito machucado. Eu queria dar um presente para meu filho e não podia. Conheci o Júlio, que me lembra muito o Kauã. Ele também gosta de arrumar a casa, igual meu filho. Na instituição eu recebi conforto daquelas crianças e hoje já sei o nome de todas. Quero continuar fazendo por eles o que gostaria de fazer para meu filho”, desabafou.
Conheci o Julio, que me lembra muito o Kauã. Quero continuar fazendo por essas crianças o que gostaria de fazer para o meu filho.
Rainy Butkovsky, comerciante
PLANOS DE DAR À NETA A VIDA QUE A FILHA NÃO PÔDE TER
Entre as vítimas de feminicídio em 2018, o caso de Andrielly Mendonça Pereira dos Santos, de 20 anos, comoveu os capixabas.
A jovem foi cruelmente assassinada pelo namorado Rubens Almeida Dias Júnior, que usou um fio para enforcá-la, no dia 4 de março, no bairro Planalto, em Vila Velha. A vítima deixou uma filha de apenas 3 anos. E, nove meses depois, é a alegria da criança que dá forças para que a família de Andrielly consiga seguir em frente.
Andrielly Mendonça, assassinada em Vila Velha. O namorado dela, Rubens de Almeida Júnior, é o principal suspeito do crime Crédito: Arquivo Pessoal / Carlos Alberto Silva
O encarregado de operação Anderson Pereira dos Santos, 41 anos, pai de Andrielly, conta que a neta ficou morando com ele após a morte da jovem.
“Ela ainda pergunta pela mãe quase todos os dias. Ela não esqueceu. Mas a gente muda de assunto, foca em outras coisas. A bebê foi meu alicerce. Ela é meu tudo e me faz lembrar muito da minha filha quando tinha a idade dela. Não que ela ocupe o lugar da mãe, mas é o que nos dá forças para seguir porque ela é muito alegre e carinhosa”, conta Anderson. Agora, a família está focada em dar à criança oportunidades que Andrielly não teve. Anderson conta que no último dia 24, a criança foi para Portugal com a avó materna.
A ida para a Europa é uma tentativa de fazer com que a garota possa viver em um lugar com menos violência e mais chances de ter um futuro melhor.
“É uma forma de tentar recomeçar fora do país. Dar uma nova oportunidade a ela. Vai ser difícil ficar longe, mas eu tenho que pensar nela. Agora estou me jogando de cabeça no trabalho, que também me ajuda a esquecer as coisas ruins”, contou.
Encarregado de operação Anderson Pereira dos Santos, pai de Andrielly Crédito: Bernardo Coutinho
APOIO ESPECIAL PARA SEGUIR EM FRENTE
”Força, mãe. Já aconteceu. O pai tá ao lado do Senhor. Lá não tem violência e ninguém vai dar tiro nele. Ele está olhando por nós e não quer ver a gente triste”. São com os conselhos da filha mais velha que a dona de casa Lisamara Prates, 31 anos, consegue viver após perder o marido, morto durante uma tentativa de assalto.
Lisamara Prates, 31 anos, perdeu o marido, morto durante uma tentativa de assalto Crédito: Arquivo pessoal
O metalúrgico Thiago Alves, 28, foi assassinado em um ponto de ônibus, na manhã de 4 de maio, em Jacaraípe, na Serra. Ele foi abordado por dois assaltantes, mas um policial viu a cena e trocou tiro com os criminosos. Thiago ficou no meio do fogo cruzado e acabou atingido na cabeça. Desde então, a vida da família mudou completamente. Para Lisamara, que ficou 12 anos casada com Thiago, se não fosse o carinho das duas filhas seria muito mais difícil seguir em frente.
Minha filha é forte, madura, e me dá apoio. Ela diz que já aconteceu, que não tem como mudar. Que devemos seguir. E está certa.
Lisamara Prates
“Lembro como se fosse hoje da última vez que nos vimos. Ele saindo, perguntando se a bebê estava bem, me mandando um beijo. Minutos depois meu pai chegou e disse que eu deveria ser forte. Jamais imaginei que era com o meu marido, ele tinha acabado e sair. Eu faço de tudo para tentar distrair a cabeça. Brinco com as crianças, faço bolos. Mas não é fácil”, confessa. E, segundo ela, seria muito mais difícil sem o apoio das filhas.
“As meninas me deram força. Minha filha de 10 anos, a Ayka, lembra do pai a todo momento com muito carinho. Ela é forte, madura, e muitas vezes é ela que me dá apoio. Ela diz que já aconteceu, que não tem como mudar. Que devemos seguir. E ela está certa. A perda dói, mas nossa união é o que importa agora”.
OTIMISMO E FÉ EM NOVA ROTINA
O dia 22 de novembro era para ser mais um dia de aula para os universitários que saíram de Muniz Freire e seguiam para faculdades de Alegre, na Região do Caparaó. Porém, o ônibus em que estavam tombou, feriu 28 pessoas e duas alunas morreram. Sara Lima dos Santos, 18 anos, estudante do 4° período do curso de psicologia, perdeu um dos braços. A tragédia ainda é lembrada com riqueza de detalhes. Sara viajava na primeira fila de cadeiras.
Sara Lima dos Santos Crédito: Beatriz Caliman
Os alunos sabiam que o ônibus já havia apresentado defeitos. No dia do acidente, alguns chegaram a questionar a falta de freios. “Eu estava com fone de ouvido, só ouvi quando um colega gritou para o motorista quando ele foi para a contramão. Na última curva, o ônibus tombou”, relembra. O ônibus deslizou por vários metros na pista. Sara teve o braço amputado no momento da batida. Apesar da gravidade, ela permaneceu todo o tempo lúcida e saiu andando do coletivo.
“Falei que se não fosse Deus não teria vivido. Não é normal uma pessoa levantar do ônibus tranquila, com o braço jorrando sangue. Deus estava comigo todo o momento. Enquanto o ônibus chiava, pensava inconscientemente ‘eu amo Jesus’, disse. Com planos de continuar os estudos no próximo ano, Sara avalia se pretende retomar a rotina de viajar para outra cidade todos os dias.
“Por mim, até entraria em um ônibus, preciso vencer esse medo, mas minha família ficou muito abalada. Penso em morar em Alegre”. Após o acidente, a vida de Sara mudou completamente. E a fé em Deus a faz enfrentar os momentos difíceis e dar novo significado à vida.
“Eu era mais tímida, introvertida. Agora falo muito, quero conversar com todos. Acho que agora a ficha está caindo e estou tendo noção do que vai ser daqui para frente. Estou me adaptando bem e fazendo muitas coisas já com a mão esquerda. A gente passa a ver o mundo de outra forma. Isso está sendo muito bom para mim”, avalia Sara.
ANÁLISE
"Respeito ao tempo de cada um"
“Há várias possibilidades para lidar com a dor, é importante trabalhar para reparar a perda com alguma escuta qualificada que vai ajudar na elaboração do sofrimento de forma mais saudável. Uma perda irreparável gera risco a saúde mental. Infelizmente a nossa sociedade banaliza a violência e a dor. Por isso, amigos e familiares são importantes e não podem minimizar isso. É importante respeitar o tempo de cada um. Cada pessoa deve encontrar sua própria saída, dentro do que faz sentido para ela. Muitas escolhem contribuir de alguma forma com a sociedade e, assim, conseguem a reconstrução”

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