Inteligência há. Por mais abandonado que esteja, cada exemplar do povo brasileiro sabe, pensa e imagina o que está acontecendo - está sim senhora! - neste país que Pedro Álvares Cabral invadiu sem cerimônia. A coisa foi tratada como se fosse “descobrimento”, mesmo que os canhões estivessem à vista e apontados para um povo mais do que civilizado, os índios.
Matar e levar as riquezas para Portugal. Daí em diante outras barbáries viriam. O mundo sempre soube muito bem a quem pertence este rincão e a farsa toma lugar da verdade. Mesmo os mais miseráveis e indefesos sabem quais são seus direitos e o que é justo. E se defendem como podem. Mas não são proprietários sequer das covas.
Isto é, o pensamento vai até a palavra e esta deveria gerar organização. Sair do pensar para o fazer. Onde estão as organizações que estavam bem aqui? A maioria aderiu ao dinheiro e à safadeza, como Zé Dirceu. Onde foram parar as discussões promovidas pela União Nacional de Estudantes que gerava na população um importante grau de consciência, que já existia no pensamento.
A maioria dos diretórios e grêmios estudantis está mais preocupado com as benesses esfareladas nas suas “boquinhas” do que em um projeto político, qualquer que seja
Lev Vygotsky – não, rapaziada alienada desta nação! Não se trata do goleiro da seleção bielorussa – escreveu certa vez: “Esqueci a palavra que queria dizer, e a palavra sem corpo regressa ao palácio das sombras”. As atuais passeatas e suas 300 tendências carecem antes de tudo de uma bússola. Possuem sim uma incomensurável habilidade de encher o saco uns dos outros, e piorar o trânsito.
A maioria dos diretórios e grêmios estudantis está mais preocupado com as benesses esfareladas nas suas “boquinhas” do que em um projeto político, qualquer que seja. E os temas filosóficos que dão rumo à humanidade deveriam ultrapassar as discussões sem sentido.
Citei acima Vygotsky. Nasceu em 1896. Aprendeu alemão com Cecília Moseevna, sua mãe, teve um orientador socrático, estudou Medicina e Direito. Aos 19 anos, escreveu um ensaio sobre “Hamlet”. Depois seria graduado em línguas e Literatura Russa. Ministrou cursos de Psicologia e Lógica, História da Arte e Ética. Nesse tempo, leu Spinoza, Hegel, Marx, Freud, Pavlov. Participou em 1924, em Leningrado, de seminários, onde apresentou o “Método de Investigação Reflexológica e Psicológica”. Participou da reconstrução da Universidade de Moscou.
Ou seja, era um nerd, o cara. Poderia ter ido à Woodstock.
*O autor é médico psiquiatra, psicanalista e jornalista