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Paulo Bonates

TERÇA Na folia, nos fantasiamos de nós mesmos

É difícil hoje aparecerem fantasias de palhaço. Isso não é mais fantasia, é uma denúncia obrigatória

Publicado em 26 de Novembro de 2018 às 22:25

Públicado em 

26 nov 2018 às 22:25
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Máscara de Carnaval Crédito: Annca/Pixabay/Divulgação
Quando o povo da Escola de Samba entra na avenida fantasiado de reis, piratas, jardineiras, podem crer, é tudo verdade. Não existe fake na passarela. Nem pierrô alegre ou desprovido de paixão.
As porções masculina e feminina pertencentes ao mesmo tempo à natureza do ser abrem alas e passam. Isso não tem nada a ver com sexo. É a própria natureza dando os ares da graça. É difícil hoje em dia aparecerem fantasias de palhaço. Isso não é mais fantasia, é uma denúncia obrigatória.
Carnaval desses, um grupo de amigos brincava de submissão da mulher ao monstro homem. Um ia tocando as quatro “submissas” com fitas amarradas no pescoço. Quem expôs suficientemente melhor os desejos reprimidos? Foi para isso que Deus criou a perversão, afinal, criou todas as coisas. Ou foi o outro? Vade retro satã. Limita-te a sua própria fantasia, abraçado com o Drácula, por exemplo.
Sabe o que paira no mais secreto interior de uma Colombina? Outra colombina, é claro, de preferência sadomasoquista, de fazer Pierrô chorar. Tenho um fraterno amigo que se fantasia de suspensório durante o ano inteiro, exceto no carnaval.
Uma vez caí nos braços de uma deusa índia, o nome não digo. Não sei se por descuido ou fantasia, a música que embalava a liberdade de repressão, ainda que tardia, dizia assim: ”Vou vestir uma fantasia de diabo, só falta o rabo, só falta o rabo”. Um apelo lúdico desses não ficaria sem resposta: “Vou botar o anúncio no jornal, precisa-se de um rabo pra brincar o carnaval”.
Todas as hipocrisias constantes dessa excursão rumo ao purgatório eram destronadas pela essência de um eu real, que durante a tríade de momo ousava ser o que é, ou gostaria, ou não gostaria de ser. Diga aí, todos nos fantasiamos, no fundo, no fundo, de nós mesmos.
Meus queridos irmãos, era assim que, por vias aparentemente paradoxais, libertavam-se os espíritos vadios. Na Quarta-feira de Cinzas tudo volta ao anormal. Voltamos a repetir, a fazer por fazer, a votar por votar, amar por amar e assistir à novela das nove.
Noel Rosa cantou a cumplicidade da sua mulher no tempo da Galeria Cruzeiro, no Largo da Carioca, no Rio, que tocava quatro noites seguidas. Entrada grátis, saída nem sempre. Manda lá: “Encontrei meu ‘pedaço’ na avenida, de camisa amarela, cantando a Florisbela. Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia, exibiu-me um sorriso de ironia e desapareceu na Galeria (...), voltou às sete horas da manhã, mas da quarta-feira, cantando a ‘Jardineira’. Gosto dele assim, termina a brincadeira e ele é pra mim, meu Senhor do Bonfim”.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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