Nas relações internacionais, o exercício da liderança requer previsibilidade, que gera confiança e promove o ambiente adequado ao crescimento econômico, do qual o país líder será o principal beneficiário. A nova política comercial americana não promove essa liderança.
Primeiro, o presidente Trump anunciou tarifas sobre todas as importações de aço e alumínio, para forçar os principais parceiros a renegociar os preços em bases mais favoráveis aos EUA. Quando especialistas em comércio, inclusive do seu próprio governo americano, advertiram para o risco de uma guerra comercial global, Trump fez pouco. Segundo ele, as guerras comerciais seriam boas e fáceis de vencer.
Nos EUA, as sanções comerciais precisam ser amparadas por lei. A iniciativa de Trump foi baseada no capítulo da lei de comércio americana que dá ao presidente poderes para impor sanções, em caso de ameaça à segurança nacional. Como a China, entre outros, estaria subsidiando a produção de aço e alumínio, a produção americana seria desencorajada e os EUA ficariam vulneráveis, no caso de conflito militar.
Logo Canadá e México foram retirados da lista, pois não poderiam ser considerados ameaçadores. Em seguida, outros países foram convidados a negociar, mas caso a caso, e partindo do princípio de que os EUA terão de obter vantagens. Assim definidos, os termos da negociação são tão grosseiros que Phil Levy, assessor comercial do governo George W. Bush, qualificou-os de “esquema de extorsão”.
Seria cômico, se não fosse trágico ver o Brasil incluído na lista de países que sofrerão sobretaxas de 25% sobre as exportações de aço e de 10% sobre as de alumínio. É um óbvio exagero argumentar que as exportações brasileiras ameaçam a segurança dos EUA. Pelo contrário, nos últimos 10 anos os fluxos comerciais e de investimentos entre os dois países foram desfavoráveis para o Brasil. Somos o maior importador de carvão siderúrgico dos EUA e, de resto, os processos industriais são complementares: cerca de 80% das exportações brasileiras de aço são de produtos semiacabados, utilizados como insumo pela indústria siderúrgica americana.
A alternativa, portanto, será recorrer à justiça americana, à OMC e demais instâncias internacionais. É o que o Itamaraty vai fazer e, previsivelmente, vai ganhar. Muitos outros países farão o mesmo, com resultados semelhantes. Mas serão vitórias sofridas, depois de muita briga judicial, mal-estar político e perdas econômicas para todos. Não teremos a guerra comercial anunciada, mas tampouco haverá paz no comércio internacional, com as desconcertantes iniciativas de Trump.
* José Vicente Pimentel é embaixador aposentado