Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Se Cuida
  • Tratamento avançado para AVC isquêmico é oferecido no SUS
Vitor Jubini
A vida após o AVC

Tratamento avançado para AVC isquêmico é oferecido no SUS

A Trombectomia Mecânica é o procedimento minimamente invasivo que pode desobstruir as artérias do cérebro em até 24 horas após o início dos sintomas

Guilherme Sillva

Editor do Se Cuida

Publicado em

24 out 2024 às 09:01
Bruno Loureiro
Bruno Loureiro Crédito: Vitor Jubini
Era terça-feira de carnaval quando Bruno Loureiro passou mal. Ele, que é agente da Guarda Municipal de Vitória, estava de plantão dando suporte a um bloco de folia que desfilava na cidade. Até que, de repente, parou de falar. "Por mais que tentasse, as palavras saíam todas emboladas. Não conseguia articular as palavras", lembra.
Era um AVC isquêmico, que foi  constatado no hospital. "Passei por uma trombectomia mecânica e fiquei 27 dias internado. Quando saí do hospital tive acompanhamento fonoaudiológico por conta de uma pequena ruptura na fala. Nas semanas seguintes, tudo voltou ao normal. Às vezes tenho que dar um tempo para lembrar algumas palavras, mas fiquei sem nenhuma sequela", conta ele, que usou a prática do jiu-jitsu no processo de recuperação.
A trombectomia mecânica (TM) é o procedimento minimamente invasivo e que, em caso de AVC isquêmico grave, pode desobstruir as artérias do cérebro em até 24 horas após o início dos sintomas. O procedimento consiste na desobstrução da artéria cerebral realizada por um cateter que leva um dispositivo endovascular, um stent ou um sistema de aspiração, para remover o coágulo do vaso sanguíneo do cérebro.
O AVC isquêmico é o tipo mais comum da doença e corresponde a cerca de 85% dos casos, segundo dados do Ministério da Saúde. A técnica aumenta em três vezes a chance de o paciente ter independência após o AVC, com sequelas reduzidas. 
O Hospital Estadual Central (HEC), no Espírito Santo, onde Bruno foi tratado, oferece a TM desde fevereiro de 2016, apesar de somente ter sido incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) em dezembro de 2023. Segundo informações do Ministério da Saúde, atualmente existem no país 13 hospitais habilitados para a realização e faturamento da TM no tratamento de AVC isquêmico agudo, no âmbito do SUS.
É considerado agudo todo AVC que tem menos de 24 horas de início dos sintomas. A fase aguda é crítica, pois é durante esse período que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem fazer toda a diferença no prognóstico do paciente. 
José Antônio Fiorot Junior, neurologista e coordenador da Unidade de AVC do HEC, explica que o neurointervencionista realiza um cateterismo cerebral, quase sempre através de uma punção na virilha do paciente e, através de cateteres específicos, é realizada a aspiração e/ou retirada do trombo com a utilização de um stent cerebral.
"É realizada para casos de AVC isquêmico (AVCi) que é admitido dentro de oito horas do início dos sintomas e que possui oclusão de uma artéria de grande calibre (cerca de 30% dos casos de AVCi). Em alguns casos selecionados pode ser realizada em até 24 horas do início dos sintomas, dependendo do resultado da tomografia de crânio na admissão do paciente". 
Fala AVC
Crédito:
No hospital público de referência do Espírito Santo, o mês de janeiro deste ano atingiu números recordes no tratamento do AVC isquêmico na fase aguda. Mais de 30 pacientes receberam trombólise venosa e 29  pacientes receberam a TM. 
De acordo com informações da Rede Brasil AVC, estudos mostraram que, com o procedimento da TM, a taxa de recanalização na oclusão de grandes vasos chega a 77%, mais eficiente que o tratamento convencional de trombólise endovenosa, com 30%. A trombólise endovenosa, tratamento medicamentoso com uso de trombolítico, deve ser aplicado em até 4h30 após os primeiros sintomas.
Outro benefício da TM é que ele traz melhora à qualidade de vida do paciente, aumentando a sua capacidade funcional (cognitiva e motora) e dando maior independência no pós-AVC.

OUTROS TRATAMENTOS DE AVC

O neurologista Guilherme Coutinho de Oliveira, do Hospital Santa Rita, diz que o tratamento de um AVC vai depender do tipo, da causa e da área do cérebro afetada. No geral, o tratamento para o AVC isquêmico pode incluir medicamentos para dissolver o coágulo ou procedimentos para retirar o coágulo. "Já para o hemorrágico pode envolver cirurgia para drenar o sangue acumulado".
O neurologista José Antonio Fiorot Junior, que também atende na Rede Meridional, explica que a trombólise venosa é a forma mais utilizada de tratamento de AVC isquêmico. "É indicada para casos de AVC isquêmico admitidos dentro das primeiras quatro horas e meia do início dos sintomas, seguindo os critérios de utilização padronizados internacionalmente. Em casos selecionados, ela pode ser utilizada em até 12 horas do início dos sintomas".
A trombólise venosa é realizada por meio da infusão de um medicamento (trombolítico) na veia do paciente. Este medicamento vai circular por todo corpo do paciente, atingindo a artéria que está obstruída e ajudando a dissolver o trombo/coágulo que está entupindo a artéria. José Antonio Fiorot Junior diz que a trombólise e a TM são formas mais avançadas de se tratar o AVC isquêmico agudo. "Possuem alto nível de evidência científica, com múltiplos estudos precisos, que comprovam a eficiência e a segurança desses métodos de tratamento". 
A cirurgiã vascular Moriane Lorenzoni diz que o tratamento do AVC hemorrágico precisa ser realizado o quanto antes para evitar sequelas graves. "E, geralmente, o mais indicado é a cirurgia neurológica para estancar o sangramento, dependendo do caso".
Guilherme Coutinho de Oliveira explica que novas formulações e combinações de medicamentos estão sendo estudadas para aumentar a eficácia e reduzir os riscos de hemorragia do tratamento trombolítico. 
Fala AVc
Crédito:
Tecnologia como o software Rapid, que representa um avanço significativo na medicina, especialmente no manejo de AVCs. É uma ferramenta de imagem e análise projetada para auxiliar na interpretação de exames de imagem, como tomografias computadorizadas e ressonâncias magnéticas, permitindo uma avaliação rápida e precisa das condições cerebrais.
"Auxilia a identificar rapidamente áreas afetadas pelo AVC, facilita a decisão sobre intervenções, como TM ou trombólise, e analisa o fluxo sanguíneo no cérebro, ajudando a determinar a extensão do dano e a área ainda viável. Isso nos traz rapidez e precisão e, em casos de AVC, cada minuto conta", diz o neurologista. 

ESTUDO DO ESPÍRITO SANTO ACOMPANHA PACIENTES NO PÓS-AVC

Um estudo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) acompanha pacientes no pós-AVC. Realizado pelas mestrandas Elizangela Kuster, Leticia Ventura e Thaciany Barbosa, do programa de pós-graduação em ciências fisiológicas, pacientes com diagnóstico recente de AVC do Hospital Estadual Central, em Vitória, são recrutados e acompanhados por ligação telefônica até seis meses após a ocorrência do evento.

"Eles são avaliados presencialmente ainda no ambiente hospitalar quanto às características pré-AVC (nível de atividade e participação, nível de mobilidade e também possíveis barreiras ambientais enfrentadas), e depois, através de ligações telefônicas, são avaliados em relação à dificuldade de comunicação, cognição, depressão, nível de independência funcional, suporte social e a confiança que tem para realizar atividades funcionais, além da participação social e acesso à reabilitação (motora, psicológica ou de fala)", diz Thaciany Barbosa.

O objetivo da pesquisa é investigar quais fatores mensurados precocemente pós-AVC são capazes de predizer a participação social e o acesso à reabilitação aos três e seis meses. O intuito é ajudar os pacientes a retomarem suas vidas, desempenharem seus papéis sociais e se envolverem em atividades significativas. "A literatura revela que 65% dos sobreviventes de AVC relatam restrições na participação em atividades sociais, recreativas e ocupacionais. E mesmo em casos de AVC leve, nos quais a função motora ou a capacidade de realizar atividades de vida diária estão minimamente comprometidas, os pacientes relatam não recuperar os níveis anteriores de participação. A participação social representa um dos principais objetivos da reabilitação após o AVC".

Thaciany explica que identificar preditores da participação social é fundamental para reconhecer pacientes que podem estar mais vulneráveis as restrições de participação após o AVC, permitindo intervenções mais eficazes e direcionadas. "Também estamos investigando se esses indivíduos estão tendo acesso aos serviços de reabilitação e possíveis preditores desse acesso, tendo em vista a importância desses serviços no processo de recuperação após a doença".

Segundo os resultados preliminares, medidas clínicas facilmente coletadas precocemente pós-AVC conseguem predizer a participação social três meses após o evento. Esses resultados serão validados por meio da continuidade de coleta de dados até a amostra pré-estabelecida e estendidos para um período de até seis meses - o estudo ainda não foi finalizado.

 "Além disso, apenas 42% dos pacientes que tinham necessidade de algum serviço de reabilitação tiveram acesso a algum serviço (motora, psicológica ou de fala) no primeiro mês após a ocorrência do AVC e a idade, autoeficácia, independência funcional e afasia predizem o acesso à reabilitação aos três meses desses indivíduos", diz a pesquisadora.

CONFIRA AMANHÃ

Amanhã, no último dia da série de reportagem A vida depois do AVC, vamos mostrar que mulheres possuem riscos únicos para a doença. E contar a importância do processo de reabilitação. Além de contar a história da pedagoga Luana Vazzoler, que teve que fazer a cirurgia para a retirada da calota craniana. 

A Gazeta integra o

Saiba mais
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados