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50 anos

Rugidos do trovão de Maio de 68 continuam ecoando

O que Maio de 68 como signo nos interroga nos tempos atuais? Maio de 68 é o condensado da possibilidade de mudar, da possibilidade de agir aqui e agora

Publicado em 22 de Maio de 2018 às 16:07

Públicado em 

22 mai 2018 às 16:07

Colunista

Greve de trabalhadores na França, no dia 13 de maio de 1968, que balançou o governo do então presidente do país, Charles De Gaulle Crédito: Arquivo/CEDOC AG - GZ
 *Cláudio Luiz Zanotelli 
Maio de 68 não começou em maio necessariamente, assim no Brasil, em 28 março de 1968, um protesto de secundaristas no Rio de Janeiro termina com o assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto pela Polícia Militar, gerando uma comoção e uma grande manifestação. A morte do jovem de 17 anos se transforma em um dos grandes atos políticos contra a ditadura militar. Ainda no Brasil, em 26 de junho de 1968, uma grande manifestação de estudantes, de artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso e de diversos outros setores da sociedade toma as ruas do centro do Rio de Janeiro contra o regime militar. Em abril de 1968, ocorreu a primeira grande greve no Brasil desde que os militares tomaram o poder quatro anos antes em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte.
Na França, em março de 1968, os estudantes da Universidade de Nanterre reivindicam que não aja mais separação na residência universitária entre mulheres e homens e se opõem à guerra no Vietnã. Em seguida, o Maio de 68 francês será a maior greve geral da história do país, absolutamente tudo parou, inclusive o próprio poder que se encontrou vago com o desaparecimento do presidente da França por 24 horas. Na Tchecoslováquia emerge a primavera de Praga que contesta os regimes opressivos do Leste Europeu, no Estados Unidos da América do Norte a contestação à guerra do Vietnã, as lutas contra o racismo e contra a política imperialista americana explodem. No México, dez dias antes dos Jogos Olímpicos, um protesto de estudantes no centro da capital do país foi brutalmente reprimido pelo Exército. Em inúmeros países, greves, revoltas, rebeliões contra o estado de coisas nas relações de trabalho nas usinas e fora delas, contra a fome, contra a opressão política, contra as injustiças e a falta de liberdade reverberam disseminando as “primaveras”.
Mas maio foi também o momento da explosão da arte, da música, do cinema, da criação, dos movimentos libertários, da contestação da sociedade de consumo. Momento de invenção, de irrupção do imponderável que fez estremecer os poderes, as oligarquias, os patrões e que levou à irrupção de um pensamento outro, de uma possibilidade de existir de outra maneira.
O que Maio de 68 como signo nos interroga nos tempos atuais? Maio de 68 é o condensado da possibilidade de mudar, da possibilidade de agir aqui e agora; Maio é resistência às opressões e às regressões sociais, ao medo, à intimidação e às ameaças sobre as conquistas sociais, bem como ao Estado de exceção. E esse estado de coisas é o que se vive no Brasil atual com os ataques do poderes constituídos às liberdades públicas, ataques contra os direitos sociais, contra os movimentos sociais.
Difunde-se o ódio na defesa dos interesses das classes dominantes, oprimem-se as classes dominadas e se instaura um regime de o(de)pressão social com os assassinatos políticos como aquele de Marielle Franco no dia 14 de março de 2018. Mas, como em Maio de 1968, sob o silêncio aparente e ensurdecedor, ecoam os rugidos do trovão aos quais se refere Bob Dylan em sua canção “A Hard Rain's A-Gonna Fall”, raios se fazem cada vez mais frequentes que poderão provocar as faíscas que incendiarão as pradarias do deserto do “real” fabricado pelas práticas e discursos dominantes.
*O autor é professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo. Editor da Revista Geografares
**Começa hoje (22/05) o "Colóquio Reverberações de Maio de 1968 na França e no Brasil" na Ufes e vai até dia 25/05 no Cine Metrópolis (inscrições e informações em [email protected])

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