Especialistas em RH costumam ser unânimes ao dizer que as características comportamentais de um profissional são tão ou até mais importantes do que características técnicas desenvolvidas ao longo da carreira. Quando um candidato participa de uma entrevista de emprego, por exemplo, a empresa avalia pontos como trabalho em equipe, capacidade de solucionar problemas, modo de se comunicar e a forma com que a pessoa lida com colegas, clientes e fornecedores.
Vamos imaginar agora que o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e membros do seu time, como Paulo Guedes, Onyx Lorenzoni e Augusto Heleno, estivessem passando por um processo seletivo. O que os headhunters teriam a dizer sobre eles? Será que esses candidatos demonstrariam equilíbrio emocional? Reuniriam as habilidades comportamentais citadas anteriormente? Seriam aprovados pelos recrutadores?
Bom, se considerarmos algumas das recentes falas e ações da equipe do capitão, certamente eles encontrariam alguma resistência dos especialistas ou mesmo seriam eliminados do processo de seleção por não se enquadrarem no perfil esperado de profissional exemplar.
Aqui vou citar alguns dos recentes acontecimentos envolvendo o novo governo. O já anunciado ministro da Economia Paulo Guedes em uma de suas primeiras falas após a vitória de Bolsonaro foi grosseiro com uma repórter que o perguntou sobre o Mercosul. O novo líder do país vem ameaçando veículos de comunicação, como a Folha de S.Paulo, com corte de verbas públicas por não concordar com a linha editorial do jornal. Onyx Lorenzoni, o escolhido para chefiar a Casa Civil, criticou a reforma da Previdência de Temer, que vem sendo defendida pelo próprio guru Paulo Guedes. E o general Heleno, que ficará com o Ministério da Defesa, declarou que militar deve ter tratamento exclusivo em uma eventual mudança das regras previdenciárias, contrariando o discurso do “mito” de combater privilégios.
Resumindo: sob o olhar da área de recursos humanos os pré-requisitos não são preenchidos pelo time, que ainda não fala a mesma língua, apresenta problemas comportamentais e esbarra na falta de experiência em cargos públicos do executivo. Entretanto, como Jair Bolsonaro foi contratado pelas urnas, ao ser o presidente escolhido por 57,7 milhões de brasileiros, não há o que se falar em eliminação, mas em como os representantes do governo serão capazes de evoluir e entregar o melhor à sociedade ao longo dos próximos quatro anos.
O próprio mercado, que durante a campanha apostou suas fichas no deputado como o candidato que seria capaz de melhorar a economia brasileira, realizando reformas para o país controlar o déficit de R$ 139 bilhões previstos para 2019, avalia que Bolsonaro e seus apoiadores precisam melhorar em alguns pontos, como em relação ao tom e às divergências presentes em declarações.
Não é que a lua-de-mel entre os investidores e o capitão tenham chegado ao fim. O mercado continua dando o voto de confiança para o político do PSL. Tanto é que a Bolsa de Valores de São Paulo encerrou o pregão de terça-feira (30) com ganho de 3,69%, aos 86.885 pontos, maior nível desde 12 de março. Mas ainda assim os analistas afirmam que estão de olho em todos os passos do novo chefe do executivo, desde a transição, escolha da equipe, medidas prioritárias e até o jeito de se comunicar.
“O olhar do mercado vai depender muito de como Bolsonaro e sua equipe vão se comportar. Não dá para continuarem batendo cabeça. Se os porta-vozes adotarem um estilo de comunicação parecido com o de Bolsonaro será muito ruim. Esse estilo de fala já é complicado para o presidente, para a equipe então não é legal mesmo. O mercado teme essa questão”, alerta o economista-chefe da corretora Spinelli, André Perfeito.
Outra preocupação é que a falta de alinhamento entre as partes faça com que Bolsonaro perca o foco em realizar o ajuste fiscal, por meio da reforma da Previdência, como primeira medida de sua gestão. Há um receio de que o capitão gaste o seu capital político nos primeiros meses de mandato para mexer nas regras de uma das suas principais bandeiras: a segurança. “Esse é um risco que vai existir. Mas o governo deve entender que se não tiver melhora da economia, o país não vai avançar em nada”, pondera o estrategista-chefe da XP Celson Plácido, ao citar que o prazo de validade que o mercado dá para Bolsonaro apontar as diretrizes da sua administração é de 6 a 8 meses, a contar desde já.
Marlo Barcelos, da Uniletra, e José Márcio Barros, da Valor Investimentos, afirmam que está na hora de Bolsonaro mostrar a que veio. Eles reforçam que a sinalização de como o presidente vai conduzir a economia tem que ser imediata, canalizada e livre de gafes e de pronunciamentos desencontrados. “A essa altura do campeonato boas intenções já não são suficientes”, diz Barros.
Com o tempo, não só o mercado pode cobrar a conta como a sociedade pode reavaliar se a contratação dessa equipe realmente está valendo a pena.
Alfinetada econômica
Um analista econômico, que prefere não ser citado, comenta que se tem um ponto que o mercado não tem visto com bons olhos é a aproximação de Magno Malta com o presidente eleito. Há um receio de que o senador venha ocupar alguma pasta importante na gestão de Jair Bolsonaro. “Além de Magno Malta não ser técnico em nenhuma área, ele tem uma aceitação ruim no meio. Um dos motivos para isso é o fato de ter apoiado tudo quanto é perfil de político possível. Esteve ao lado de Lula, Dilma, Temer, para citar alguns. Ele é figurinha fácil. E isso te garanto que o mercado não quer.”