Novas denúncias de expulsões de moradores do condomínio Ourimar, na Serra, estão sendo investigadas pela Polícia Civil. Esta é a segunda investigação aberta este ano para apurar este tipo de crime no conjunto residencial.
Previsto para ser uma moradia popular, Ourimar foi inaugurado em junho de 2016. O conjunto possui 608 apartamentos distribuídos em prédios de quatro andares e reúne cerca de 2 mil moradores.
Em 2017, foram registrados pela Polícia Civil 48 casos de moradores que tiveram que deixar suas casas devido às ameaças sofridas ou mesmo por terem os apartamentos tomados à força por traficantes que haviam feito do condomínio uma fortaleza para o crime.
Além de distante da área de comércio, o local é cercado por uma área de mangue próximo da ES 010 e da praia de Manguinhos.
Este ano, uma investigação da Delegacia de Jacaraípe já apurou seis denúncias de expulsões que levaram às prisões de nove criminosos – quatro deles adolescentes – pelos crimes de roubo, associação criminosa, porte ilegal de arma de fogo e esbulho (quando o imóvel é tomado por outra pessoa).
“A maior dificuldade é formalizar as denúncias, pois os moradores têm medo”, afirmou o delegado Rodrigo Rosa, titular da Delegacia de Polícia de Jacaraípe, que comandou a operação que prendeu os criminosos em junho deste ano.
CARTAS
Segundo a polícia, as formas para os criminosos tomarem os imóveis são as mais diversas, como deixar cartas embaixo da porta exigindo que o morador saia do apartamento ou até mesmo uma invasão com arma em punho.
Quando eram ameaçados, alguns moradores usavam caminhão de mudança para retirar os objetos de dentro de casa. Mas nem sempre conseguiam encontrar móveis e pertences pessoais no dia seguinte. “Tivemos registro de quem saiu para trabalhar ou passear e, ao retornar, encontrou o apartamento sem nada dentro”, disse o delegado.
Isso quando já não havia novos moradores colocados pelos traficantes.
Por ser um condomínio fechado, a situação se agrava pela proximidade entre as vítimas e os criminosos. Isso faz com que muitos moradores tenham medo de denunciar o que realmente passam dentro de Ourimar. “Nos casos que já apuramos, as expulsões dos apartamentos são uma espécie de punição dada aos moradores quando os traficantes acreditam que os vizinhos informaram alguma coisa à polícia”, explicou Rosa.
Após as prisões, o inquérito policial que investigava os casos foi concluído e encaminhado para a Justiça. Porém, recentemente, a Polícia Civil recebeu mais três novas denúncias de moradores que foram obrigados a deixar os lares em Ourimar este ano.
“Após as seis expulsões e as prisões que efetuamos, abrimos novas investigações. Não vamos desistir de dar dignidade para os moradores, vamos continuar com ênfase nesses casos para identificar cada indivíduo e encaminharmos à Justiça”, enfatizou Rosa.
POLICIAMENTO
Sobre o policiamento ostensivo, a Polícia Militar informou que a área do condomínio é prioridade, mas não mantém uma viatura fixa por se tratar de área particular.
A PM informou, por nota, que o comando 14ª Companhia Independente promove ações de segurança, com a participação de outras entidades governamentais, como patrulhamento preventivo e de inteligência que provocaram queda significativa nos índices criminais na região, em especial, no condomínio.
CÂMERAS VIRAM JOGO DE EMPURRA
Há duas câmeras de videomonitoramento instaladas em Ourimar desde o início do ano. Elas estão na via de acesso e na portaria principal e tem como objetivo tentar inibir os crimes e ajudar em investigações da polícia. Porém, hoje não se sabe sequer se estão funcionando. Questionado se o equipamento está ligado, o secretário de Defesa Social da Serra, Jailson Miranda, diz que o funcionamento das câmeras é responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública (Sesp). Já a Sesp, afirma que a manutenção deve ser da prefeitura. Mas nenhum dos dois órgãos respondeu se a tecnologia está funcionando.
"COLOCARAM OUTROS NO MEU APARTAMENTO"
Aos 49 anos, uma auxiliar de serviços gerais, que prefere não se identificar por medo, conta como foi expulsa do condomínio Ourimar na Serra, onde criminosos estão mandando moradores deixarem suas casas. A mulher, que paga R$ 600 de aluguel, diz que espera um dia ter um novo lar. “Colocaram outras pessoas no meu apartamento”, conta.
Como chegou a Ourimar?
Construí minha casa com trabalho, a chuva derrubou uma parede, caiu na minha filha e a Defesa Civil me tirou de lá e me colocou no aluguel social. Depois de oito anos, me entregaram o apartamento em Ourimar. Fiquei muito feliz. Depois veio a decepção, nos colocaram junto de traficantes.
Como era a rotina?
Depois de um mês, começou o tráfico de drogas. Via gente armada dia e noite, tinha que abaixar os vidros dos carros e se identificar para entrar. Éramos vigiados dia e noite. Queriam saber quem entrava na sua casa e o motivo. Quando aparecia a polícia, bandidos entravam em qualquer apartamento, você querendo ou não, para se esconderem.
Já presenciou assassinato no local?
Era muita violência, muito tiro, a gente ia dormir assustado. Já cheguei a acordar com tiros, olhar na janela e ver uma pessoa morta.
Como foi o dia que entraram na sua casa?
Um grupo armado entrou dizendo que eu tinha denunciado a droga deles para a polícia, que tínhamos dado prejuízo de R$ 40 mil. Começaram a levar várias coisas da minha casa, eu pedi permissão aos traficantes para dormir fora e fui para casa de uma amiga.
Como foi o dia seguinte?
Mandei o caminhão da mudança buscar meus móveis e não tinha mais nada. Tinham arrombado o apartamento e levado tudo: minha geladeira nova, guarda-roupas, televisão, botijas de gás, micro-ondas, joias, camas e tudo que puderam. Nunca mais pisei lá. Só ficaram minhas roupas no chão.
Eles já tinham feito isso antes?
Vi muita gente saindo de lá obrigado. Eles colocaram gente para morar no meu apartamento, gente deles, amigos e família. Já tinham expulsado o síndico e outras pessoas saíram corridas, algumas com os móveis outras sem nada na mão.
Como está sua situação de moradia agora?
Ninguém entra em contato comigo. É como se eu não existisse. Eu fui à prefeitura e disseram que iam me incluir no aluguel social, mas até agora nada.
Como você vive?
Pago aluguel de R$ 600, R$ 150 de conta luz e mais R$ 75 de água. Vivo de um salário mínimo. Uma vez ou outra uma das minhas filhas me ajudam, para ter o que comer. Eu vivo a base de remédio, não durmo direito. Eu esperei muito para ter onde morar, mas para lá não volto nunca mais.
DESAPROPRIAÇÃO DE IMÓVEIS ESTÁ SUSPENSA
Uma desapropriação de imóveis que estão ocupados de forma irregular está prevista para acontecer no próximo ano, segundo um processo que tramita na Justiça e foi interposta pela Caixa Econômica Federal.
A decisão de retirar os moradores irregulares já foi tomada, mas está suspensa até o dia 20 de dezembro. Enquanto isso, a ideia é que o local seja cuidado pela prefeitura. “Estamos dando prioridade na infraestrutura, nas ações de segurança da polícia e também na assistência social aos moradores. A sensação de segurança dentro de Ourimar é maior hoje”, afirmou o Coronel Jailson Miranda, secretário de Defesa Social da Serra.
“Providenciamos mais três câmeras para serem instaladas dentro do condomínio, além das duas da área externa já existentes”, disse citando os dois aparelhos que, entretanto, não sabe dizer se estão funcionando.
Porém, ainda há muito o que ser feito, segundo os moradores. “Não tem parquinho para as crianças e tem muita sujeira. Ficamos dias sem energia nos corredores. Não parece nem que tem gente morando aqui”, contou uma moradora.
A prefeitura disse que uma nova limpeza está programada para o local. Sobre as famílias expulsas, Jailson disse que estão recebendo assistência quando procuram a prefeitura. “Essas pessoas têm que se cadastrarem na secretaria para que sejam atendidas pelos programas de habitação. Os benefícios são liberados quando novas vagas são abertas.”