Devemos torcer para a Argentina sair desse tormentoso momento econômico. Não é bom para o Brasil nem para o Espírito Santo. O Mercosul geme.
É o mercado que mais compra manufaturados brasileiros (sobretudo veículos). Considerando o total das nossas vendas (incluído commodities), é o terceiro maior parceiro, atrás só da China e dos EUA. Para os embarques pelo litoral capixaba, é o quarto no ranking dos grandes destinos.
O PIB argentino saboreou alta anualizada de 3,9% no quarto trimestre de 2017, e bisaria o feito em 2018. Tudo ia bem. As exportações brasileiras para os hermanos saltaram 31% no ano passado, atingindo US$ 17,6 bilhões, e a balança foi positiva para o Brasil em US$ 8,1 bilhões. A saída de produtos do Espírito Santo para lá triplicou: US$ 376,3 milhões em 2017, 152% a mais do que em 2016, segundo dados da Secec. Em 2018, de janeiro a abril, as vendas verde e amarelas para eles cresceram 15% e somaram US$ 6 bilhões, dos quais US$ 139 milhões pelos portos capixabas.
Mas, a festa acabou. O PIB, que subiria até 2,7% em 2018 na terra de Macri, deve ficar em 2,1% – com sorte. A demanda interna declinou. A forte desvalorização cambial (quase 25% neste ano) encareceu as importações e turbinou a inflação, que roda na casa de 24% no ano, achatando o poder de compra.
Lá, muitos preços, de imóveis a guloseimas, andam no passo do dólar. O país é muito dolarizado, e o peso vai afundando (sem trocadilho). Os juros a 40% ao ano, a maior taxa do mundo, para tentar segurar o câmbio, inibem ainda mais o consumo. O PIB também é afetado pelo corte de 30 bilhões de pesos nos gastos em infraestrutura. O vizinho sofre com a escassez de dólares atraídos pela elevação de juros nos EUA.
Os alicerces da economia brasileira são superiores aos da Argentina, em termos de reserva, contas externas, política fiscal e inflação. Mas, temos fragilidades nas contas públicas, e a tempestade lá deve nos servir de alerta.
A poucos meses da eleição, ainda não se tem posição clara dos potenciais candidatos sobre reforma da Previdência, teto de gastos, regra de ouro (empréstimos da União não podem ser maiores do que investimentos) e outros pontos cruciais para o equilíbrio fiscal. Vamos cobrar.
*O autor é jornalista