A volta para casa transformou-se em uma roleta-russa para os usuários do transporte coletivo na Grande Vitória, diante da rotina de assaltos a mão armada. No mais recente e triste episódio, os sonhos de casar com a namorada e tornar-se policial militar de Deivid Jercey ficaram pelo caminho. A morte do jovem de apenas 18 anos choca pela banalidade: foi atingido com um tiro no peito, sem chance de resgate, quando os bandidos reagiram ao movimento brusco de um passageiro, que se assustou com a ação criminosa. É preciso mais empenho das autoridades para que a violência não seja uma passageira constante dos coletivos.
Em fevereiro deste ano, o Sindirodoviários denunciou as “linhas do medo”, em que os assaltos eram até mais regulares do que o serviço oferecido. Eram sempre os mesmos criminosos, com a mesma dinâmica, nos mesmos horários e lugares. Os passageiros se viravam como podiam. Como os ladrões eram velhos conhecidos, muitas pessoas desciam dos ônibus quando percebiam que eles haviam embarcado no Terminal de Itacibá. Apesar de toda a obviedade, nada era feito para prevenir os roubos constantes.
Desde junho, a Polícia Civil conta com uma delegacia especializada em assaltos a coletivos, mas os resultados custam a aparecer, com consequências dramáticas como a registrada no último domingo. A notícia de que mais câmeras serão instaladas para monitorar as viagens é bem-vinda, mas insuficiente. Em primeiro lugar porque não contribuem em nada para a prevenção dos crimes. Em segundo porque nem sempre o videomonitoramento é garantia de elucidação.
O anúncio de mais câmeras veio após três arrastões aterrorizarem passageiros em um intervalo de apenas algumas horas, entre os dias 19 e 20 deste mês. Em um deles, em Vila Velha, um dos criminosos simplesmente quebrou o equipamento com o cabo da arma. Já outro episódio, em Vitória, sinaliza o desdém dos bandidos pelas autoridades: o crime ocorreu em frente ao Palácio Anchieta.
A resposta do Estado deve ser imediata e eficiente, mas não apenas por meio das forças de segurança e o necessário mapeamento das linhas de risco e operações preventivas. Sem estratégias eficazes de combate à violência urbana, de que roubos a ônibus são apenas uma das faces, apostar as fichas apenas na repressão seria como enxugar gelo. O percurso até o fim da insegurança nos coletivos pode ser longo, mas é essencial seguir o rumo certo para que nenhum passageiro tenha que pagar pela viagem com a própria vida.