É véspera de Natal. As lojas dos shoppings estão cheias de gente comprando as lembrancinhas com que se presentearão à noite. Mammas e nonas estão se assando nas cozinhas enquanto cozinham frangos, perus e pernis que serão devorados, hoje e amanhã, com panetones e rabanadas que nada combinam com nosso verão causticante. Tudo em nome de uma confraternização em torno do nascimento de Jesus, a maior festa cristã, cujo significado a maioria esquece.
A mensagem do Natal trazida por Cristo é revolucionária, em todas as épocas, pois Cristo veio para anunciar paz, justiça, harmonia, fraternidade e, sobretudo, o amor entre todos e tudo isso é uma utopia, pois nossa natureza humana é adversa a esses sentimentos.
Vejamos o caso “João de Deus”, um homem a quem muitos atribuíam poderes mediúnicos de cura, sendo procurado por milhares de pessoas e que, agora, se revela um monstro de perversidade, dominado pela luxúria, pela falta de sensibilidade e de respeito às mulheres que o buscavam fragilizadas.
O dicionário da Webster’s escolheu a palavra “justiça” como a palavra do ano de 2018 e, não por acaso, Xangô, o orixá associado à justiça, é o que rege o ano em que vivemos. Mais do que nunca, é preciso haver justiça na terra, já que esperar justiça divina é mito de conformidade administrado por crenças esotéricas aliadas ao poder. Quem faz o mal aqui, deve pagar aqui, é o que todos querem. Representado pelo fogo, Xangô queima o que não é correto, exerce seu poder de forma lenta, mas com sabedoria, pois a justiça não precisa de pressa para ser realizada. Por isso ele calcula de forma lógica e justa a imposição que causará sobre a vida de cada um. O juiz Sergio Moro foi a personificação de Xangô, entre nós. Como ministro da Justiça do novo governo, aguardemos sua ação sob a regência de Xangô, torcendo para que o marimbondo do poder não o pique e contamine sua visão de justiça. Afinal, é humano, e todos somos passíveis de corrupção.
Neste ano que se finda, foi reconfortante ver na cadeia tanta gente que se achava inalcançável pela justiça humana. Por isso, é inadmissível que, em função do Natal, o presidente da República conceda indultos a presos do colarinho branco, eufemismo para os corruptos, enfim condenados pela justiça. Paz e justiça na terra é o que desejo a todos os homens e mulheres de bem na noite de Natal. Que Jesus nasça no coração dos que têm sede e fome de justiça e que essa seja soberana até sobre os que falam “em nome de Jesus”, ou se dizem “de Deus”, mas praticam o mal. Paz e bem, nos ensinou Francisco de Assis. Paz, bem e justiça, acrescentamos ao dístico franciscano, hoje.