Praça Oito: os critérios de CasagrandeCrédito: Amarildo
O governador eleito Renato Casagrande (PSB) já anunciou oito membros do 1º escalão da sua futura administração, além do diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves. Até o momento, entre os nove nomes indicados, nota-se a predominância de perfis mais técnicos que políticos.
Apenas quatro deles têm filiação a algum partido. Dois deles são do PSB e os outros dois, do PPS, o que reforça a ascendência dessas duas siglas sobre as demais na vitoriosa (e ampla) coligação eleitoral de Casagrande, que reuniu 18 partidos. Pela legenda do próprio governador eleito, foram escalados Tyago Hoffmann (Secretaria de Governo) e Rogelio Pegoretti (Fazenda). Já pela do prefeito de Vitória, Luciano Rezende, Casagrande designou Davi Diniz (Casa Civil) e Luiz Paulo Vellozo Lucas (Instituto Jones).
Há que se fazer algumas observações sobre essas “escolhas políticas”. Hoffmann e Diniz vão operar em áreas essencialmente de articulação política. Critério de escolha mais que normal, portanto. Já Luiz Paulo, a despeito do longo currículo pontuado por mandatos e eleições vencidas e perdidas, tem um pé bem fincado na academia e define a si mesmo como um “anfíbio” entre o técnico e o político.
O maior asterisco fica por conta de Pegoretti, pois se trata de um “cristão novo”. Como noticiamos aqui na última sexta-feira, desde o dia 6 de abril ele está filiado ao PSB de Casagrande, fato que foi omitido por ocasião do anúncio de seu nome. Na oportunidade, ele foi apresentado como um técnico puro-sangue. Mesmo tendo perfil predominantemente técnico e nenhuma militância partidária, a coisa muda de figura com a descoberta sobre a sua filiação: é um quadro técnico, ok, mas a serviço de um projeto político (o do partido do governador eleito).
E daqui para a frente?
Casagrande não rechaça sumariamente nomeações de caráter político. Na última terça-feira, ele explicou que, até o fim de novembro, deve acabar de nomear os membros do alto escalão de sua “cota pessoal” – escolhas exclusivamente dele, sem levar em conta composições partidárias. Essa “cota”, segundo ele mesmo, deve corresponder a pouco mais da metade do 1º escalão. No fim do mês, ele tirará uma semana de folga. Depois, em dezembro, dará início às rodadas de conversas com os dirigentes dos muitos partidos que apoiaram sua eleição.
Não reeleito na Câmara dos Deputados, Givaldo Vieira já foi sondado por Casagrande sobre possível participação no governo. Nada específico, só um primeiro contato. Hoje no PCdoB, Givaldo foi vice-governador de Casagrande no governo passado (2011-2014), à época filiado ao PT. Os dois são aliados de longa data. Givaldo é cotado para alguma posição ligada a políticas sociais.
O nome do deputado federal Marcus Vicente (PP), também não reeleito, é outro que tem sido ventilado como possível secretário estadual de Agricultura. Pode ser só balão de ensaio.
Tem que pensar bem
Um aliado de Casagrande, cacique de outro partido irmanado ao PSB, avalia que o governador eleito terá que pensar bem se vale a pena acomodar aliados derrotados nas urnas, por causa do recado que delas saiu, de rejeição a esse tipo de prática. Mesmo que o quadro tenha capacidade técnica, a opinião pública pode não aceitar bem a opção.
O mesmo raciocínio se aplica ao senador Ricardo Ferraço (PSDB), que não pegou nem pódio na corrida ao Senado no Espírito Santo após ter chegado lá, na eleição de 2010, como o candidato a qualquer cargo mais votado da História do Estado – título que é dele até hoje.
Casagrande já fez todos os acenos de que gostaria de tê-lo em sua equipe de governo. No caso de Ferraço, entretanto, a reflexão sobre o “recado das urnas” tem partido dele próprio. Com filho pequeno e cerca de 30 anos de mandatos quase ininterruptos, Ferraço está considerando tirar um período sabático, longe da política, atuando na iniciativa privada.
No Bope, ele foi o “01”
Com um currículo extenso e invejável, o próximo secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, foi o primeiro colocado da turma de 1989 do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, onde também foi instrutor, de 1989 a 1992. Ele ingressou na Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) em 1983, como cadete, e foi galgando todas as promoções, até chegar a tenente-coronel.
Na PMERJ, também
Em 1996, Sá também foi o primeiro colocado no Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais da PMERJ.
“Daqui para baixo”
Casagrande afirma com veemência que não existe a menor chance de ele criar qualquer nova secretaria ou estrutura no governo estadual, ao assumir. “Não vamos criar nada. Nossa estrutura será do que tem hoje para baixo. Vamos juntar órgãos, inclusive.”
Exceções à regra
O governo Casagrande possivelmente terá que criar a empresa estadual de gás, conforme projeto de lei que tramita atualmente na Assembleia Legislativa. E, se a atividade portuária for estadualizada – como deseja o governador eleito –, o Estado terá que criar uma companhia pública estadual de gestão de portos.
Formação profissional
Casagrande assumiu o compromisso de “ampliar muito a oferta de formação profissional para a juventude capixaba, como passaporte para o primeiro emprego”, em parceria entre a Secretaria de Educação e a de Ciência e Tecnologia. “Formação profissional não significa que ele arrumará um emprego. Mas, sem a formação, dificilmente ele arrumará.”
Riscando opções
Em agosto, Magno Malta disse à coluna que se via como ministro de Bolsonaro nas seguintes áreas: Defesa, Segurança ou Relações Exteriores. As três vagas já foram preenchidas no ministério do aliado.
Nathan Medeiros
Elencamos, na última quinta-feira, três nomes do PSB cogitados para a sucessão de Luciano Rezende (PPS) em 2020: Sergio Majeski, Sérgio de Sá e Davi Esmael. Correndo em uma quarta raia, há também Nathan Medeiros, vereador de Vitória. Embora longe de ser eleito, ele teve votação surpreendente para deputado federal: 17.963 votos – mais que os 17.617 votos alcançados por Lenise Loureiro (PPS), que fez campanha muito mais forte e contou com o apoio do prefeito.
Votação surpresa
Em Vitória, Nathan também superou a votação de Lenise: 10.497 sufrágios a 8.496. Só na Capital, o vereador de São Pedro foi o 3º mais bem votado, atrás apenas de Amaro Neto (26.950) e Felipe Rigoni (11.339), justamente os dois campeões de votos no Estado, nesta ordem.
Ele estaria eleito!
Nathan também ganhou pontos com Casagrande no quesito lealdade: ao aceitar ser candidato a deputado federal, ele foi para o sacrifício, abdicando de uma candidatura competitiva à Assembleia Legislativa. Na realidade, com os mesmos 17.963 que teve para federal, ele estaria eleito se tivesse concorrido a deputado estadual, como 3º mais votado da coligação PSB-DC. Teve mais votos que Bruno Lamas (PSB), que entrou com 16.979.
Do Val e Roberto Freire
Conforme já declarou à coluna, o senador eleito Marcos do Val (PPS) não tem a menor intenção de fazer parte, no Senado, de eventual bloco de oposição a Bolsonaro que conte com o PPS. O deputado federal Roberto Freire, presidente nacional do partido, não quis polemizar. Está mais preocupado, no momento, com a iminente fusão da sigla com a Rede.
Palavras do dirigente
“É uma posição dele que será respeitada e que ainda será discutida. Ele prefere manter a independência, como outros integrantes do PPS. E essa pode ser a posição vitoriosa no partido. Primeiro temos que ver como ficará a bancada. Na Câmara, já decidimos que o PPS ficará independente em relação ao próximo governo.”
Girls only
Parece até que foi critério de escolha, ou para juntar todos no mesmo anúncio: os quatro secretários anunciados por Casagrande na mesma tacada, na última terça-feira, são pais apenas de meninas: Roberto Sá (Segurança) tem duas. Rodrigo de Paula (PGE) tem duas. Vitor de Angelo (Educação) e Tyago Hoffmann (Governo) têm uma cada um. Se juntar todas dá um time de vôlei feminino.
Hilda, não acabas
Para fazer justiça, na verdade Casagrande já anunciou dez caras que estarão no seu governo. Aos 90 anos, Hilda Cabas recebeu dele e aceitou o convite para voltar a ser a cerimonialista do Palácio Anchieta.
Homenagem a Dona Hilda CabasCrédito: Thiago Guimarães
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.