São elas, Piedade e Novo Império, as duas mais antigas escolas de samba capixabas, nascidas, respectivamente, em 1955 e 1956. E são, ainda hoje, praticamente umas meninas, passistas sexagenárias com gingado de estontear a plateia do Sambão do Povo. A prova do fôlego das duas gurias acontece como um baile pré-carnavalesco a céu aberto.
O primeiro chamado veio da Novo Império. O grito de “imperiano eu sou” veio lá do Alto de Caratoíra, em Vitória, e ecoou por toda a cidade. E fomos até o topo do morro com a disposição para brincar com asas nos pés como ensinou o volátil deus Hermes que, pra quem não sabe, desceu do Olimpo e acompanhou com voos rasantes o arrastão da Império.
Porque dos deuses é a festa da carne. Dioniso ou Baco com suas festas dionisíacas eram o exemplo máximo da exaltação ao prazer, assim como as Saturnálias que vieram em seguida e provocavam abertamente as convenções sociais. Era o liberou geral dos gregos e romanos, Momo nos seus delírios carnais.
Dali pro carnaval foi um rebolado dos mais sensuais. Deixemos os deuses festejando no Olimpo e voltemos a ouvir a voz do morro. Desta vez, o da Fonte Grande, no final da Rua Sete, onde se bebe água da fonte mais fresca do samba capixaba. A descida da Piedade foi naquela noite em que a cidade, como na canção do Chico, faz samba e amor até mais tarde.
A celebração do povo dispensa a bênção de divindades e se basta com o coração aos saltos quando se ouve a Orquestra Capixaba de Percussão da Novo Império e a bateria Ritmo Forte da Piedade. Eu vejo a alma de toda a gente em comunhão com as curvas derrapantes dos corpos dançando sobre o asfalto.
A lindeza que representa a manifestação cultural mais popular do nosso povo solta suas chispas pelo chão da cidade e comove, incendeia, leva às lágrimas. Mesmo entre gritos de guerra e o estrondo dos surdos, ali acontece, desde que o samba é samba, a festa da paz. Chegou o dia da bandeira branca, amor: é carnaval!
*O autor é cronista e jornalista