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Wagner Xavier
"O movimento sindical precisa se atualizar com urgência"
Novo presidente do Sindicato dos Ferroviários admite que o mundo do trabalho mudou, rejeita negociar redução de salário e afirma que a greve foi um instrumento banalizado por algumas categorias profissionais

Leonel Ximenes

Colunista

Publicado em 03 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Publicado em

03 fev 2020 às 05:00
Nos próximos quatro anos, o maquinista de pátio da Vale Wagner Xavier vai comandar o Sindicato dos Ferroviários, um dos mais fortes e representativos do Estado. Bem articulado e antenado com a nova realidade do mundo sindical e do trabalho, ele critica a reforma trabalhista, mas, ao mesmo tempo, admite que uma parte das entidades dos trabalhadores acomodou-se com o imposto sindical, já extinto, e promete não dar espaço para manifestações de caráter político-partidário na direção do Sindfer. Mas avisa: vai ter luta. "Temos que ter coragem para defender os nossos direitos e os dos nossos colegas de trabalho".

O que os ferroviários devem esperar de diferente a partir da sua posse na presidência do Sindfer? Será um sindicato mais voltado para as lutas políticas ou para as conquistas materiais da categoria?

Não podemos pensar o corporativo alheio à conjuntura política. São duas situações interrelacionadas. Desde novembro de 2017, com a vigência da reforma trabalhista, o governo federal tem desferido ataques pesados contra o movimento sindical e o direito dos trabalhadores. Flexibilizando esses direitos, precarizando o trabalho, estimulando a informalidade em detrimento do emprego formal. O governo atual apresentou no ano passado uma minirreforma trabalhista que consegue ser ainda pior que sua fonte inspiradora, a reforma do Temer. Todas essas intervenções impactam fortemente na relação de trabalho dos empregados da Vale. A empresa se utiliza da flexibilização para tentar impor perdas aos ferroviários. Não vivemos em Marte. Vivemos no planeta Terra e, mais do que isso, em um país em que as classes empresarial e industrial ditam as normas e regras. Não se pode entender a luta corporativa, por mais e melhores salários e condições de trabalho, dissociada da luta política. O que é diferente de aparelhar o sindicato com esse ou aquele partido político. Nossa gestão não dará espaço para esse tipo de alinhamento. Mas não abrirá mão de transpor o muro do corporativismo para integrá-lo às lutas gerais dos trabalhadores e da sociedade.

O Sindfer é filiado à CUT. Qual o papel que a central sindical ligada ao PT terá na sua gestão?

Não cabe a mim questionar, seja condenando ou justificando, a ligação orgânica da CUT com o PT. Particularmente não acho saudável. Centrais e sindicatos têm que ser autônomos e independentes. Como aliás prevê as linhas gerais de fundação da própria CUT. No que toca ao Sindfer, a CUT – tanto em âmbito estadual quanto nacional – tem nos dado o suporte necessário para fortalecer a luta em defesa dos empregados da Vale. E ponto. A nova direção do Sindfer não dará espaços para manifestações de caráter político-partidário. O diretor que quiser expressar sua opinião político-partidária, que o faça fora do ambiente sindical. 

O movimento sindical vem perdendo força nos últimos anos. É consequência da extinção do imposto sindical ou do fim dos governos do PT?

Uma parcela expressiva do movimento sindical se acomodou com a fonte de arrecadação fácil proveniente do imposto sindical. Isso é fato. Aos poucos, sindicatos que não têm um perfil atuante e combativo foram se deixando levar pelo dinheiro fácil e desconectando da categoria, perdendo a referência da base, do chão da fábrica. Ao contrário de sindicatos compromissados com a luta dos trabalhadores. Para esses, o fim da obrigatoriedade do imposto sindical não impactou tão fortemente. Eles têm uma base de associados sólida que garante que seu sindicato torne-se autossustentável. Isso é o correto. Aqui, no Sindfer, iniciaremos já nas próximas semanas uma megacampanha de sindicalização justamente para aumentar a receita da entidade. Agora, uma coisa é certa: não tem mágica. O trabalhador só se sindicaliza se o sindicato  apresentar resultados em termos salariais e de condições de trabalho e serviços. E isso teremos de sobra para apresentar-lhes.

A base da sua categoria tem trabalhadores alinhados à esquerda, mas tem uma presença forte também de apoiadores de Bolsonaro. Como conciliar forças tão antagônicas no sindicato?

Não importa se o trabalhador seja de esquerda ou direita. Bolsonarista, lulista ou cirista. Católico, ateu ou evangélico. Isso não está em discussão. “O que a vida quer da gente é coragem”, disse Guimarães Rosa. Coragem para defender nossos direitos e os de nossos colegas de trabalho. Coragem para defender os trabalhadores da ativa e aposentados. Foi com coragem que os trabalhadores franceses, sobretudo os ferroviários de lá, permanecem há mais de 40 dias nas ruas de Paris, em greve geral para derrubar a reforma da Previdência de Macron. Os protestos já deram resultado. Na semana passada, o governo recuou no aumento da idade mínima para 64 anos para se ter acesso à aposentadoria integral. Nos últimos anos, desde a infame reforma trabalhista de Temer, os trabalhadores brasileiros vêm perdendo direitos atrás de direito. Temos que mirar no exemplo dos franceses, se unir ao sindicato e defender nossos direitos. Porque essa é uma luta comum que une a todos. Independentemente de ideologia, cor, credo ou orientação sexual. Ir à luta por nossos direitos é o que mais importante podemos fazer por um Brasil melhor para nós, nossos filhos e netos. Precisamos de coragem!

O que o movimento sindical precisa fazer diante das novas tecnologias e da transformação das relações de trabalho? Não está na hora de o sindicalismo passar por uma atualização?

O mundo do trabalho mudou. A relação capital e trabalho mudou. As tecnologias e formas de gestão mudaram. No setor industrial o país caminha em passos acelerados para o conceito de indústria 4.0. Um exemplo é a mina de Brucutu, em Minas Gerais, da Vale. Lá, todo o processo de exploração e transporte do minério de ferro já é operado virtualmente, através de joystick. A lavra da mina é explorada remotamente, assim como os caminhões monumentais. O sindicato que fechar os olhos a esse mundo em mudança vertiginosa, perderá o bonde da história e não terá mais vez no protagonismo da relação capital e trabalho. O movimento sindical precisa mergulhar nesse mundo novo, nossos dirigentes precisam ser capacitados e qualificados para entender os novos processos de produção, até para que possam interferir na defesa dos trabalhadores. É urgente que o movimento sindical se atualize.

A greve ainda é um instrumento poderoso na mão dos trabalhadores?

A greve é um direito constitucional, inalienável. Um direito sagrado dos trabalhadores. Nos últimos anos, esse instrumento foi banalizado por algumas categorias profissionais, tanto do setor público quanto do privado. E já não tem mais o impacto das greves do sindicalismo das décadas de 80 e 90, sobretudo as deflagradas pelos Sindicatos dos Metalúrgicos do ABC, Bancários e Petroleiros, para citar as mais icônicas. Entendo que o movimento sindical tem avançado cada vez mais para esgotar todas as alternativas possíveis de negociação. Defendemos um tipo de sindicalismo combativo, de luta, mas propositivo. Que apresente propostas e tente convencer os patrões que empresa e trabalhadores só têm a ganhar com a adoção dessas propostas. Nossa lógica sindical não se assenta mais no ganha-perde, mas no ganha-ganha. Mas jamais iremos descartar a greve como uma forma extrema de reivindicação, frustradas todas as possibilidades negociais.

O sr. admitiria negociar uma eventual redução de salário da sua categoria em nome da manutenção de postos de trabalho?

Fora de cogitação. Direito não se perde; se conquista. Já não basta o infame ano de 2015, quando os trabalhadores da Vale sofreram um de seus mais duros golpes: a empresa impôs zero de reajuste nos salários e na PLR. Salário e postos de trabalho são sagrados. O dirigente sindical que se dispõe a colocar esses dois itens na mesa de negociação com os patrões está traindo os trabalhadores que representa. E olha que não são poucos, no país.

O sr. é admirador de algum líder político brasileiro? É filiado a alguma legenda partidária ou tem simpatia por alguma?

A posição de um presidente de sindicato deve ser como a de um comentarista esportivo: acima de preferências pessoais. Tenho minhas convicções sobre determinado político, torço por ele, mas me abstenho de expressar nomes. O mesmo raciocínio estendo a partidos políticos.

Como será a relação do Sindfer com a Vale na sua gestão? Pretende rediscutir novas bases para a participação dos trabalhadores nos resultados financeiros da empresa?

Desde a última segunda-feira temos realizado assembleias ao longo da linha Vitória a Minas e no Complexo de Tubarão para avaliar a proposta de PLR negociada pela Vale. Uma proposta que avançou, em relação às intenções iniciais colocadas na mesa pelos representantes da empresa. Após forte pressão da nova diretoria, conseguimos manter o teto de sete salários bem como o gatilho de 50%. Além disso, garantimos isonomia de pagamento dos valores de PLR para os trabalhadores dos sistemas Sul e Norte, que a Vale pretendia diferenciado. Por fim, garantimos ao sindicato acompanhar os desdobramentos de metas pretendidas pela empresa. Todos esses critérios valerão para a PLR a ser paga em 2021, referente ao exercício financeiro e de produção deste ano. Para 2022, aprofundaremos, junto à assessoria do Dieese, uma série de aspectos que ficaram de fora, a serem reivindicados à empresa.

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