Candidato da situação à presidência da OAB-ES para o próximo triênio, o advogado Ricardo Brum é, de fato, o homem dos números, como o denominamos aqui no último dia 7. Até entre os colegas ele é conhecido assim: para embasar cada argumento, lança mão de algum dado. Na entrevista dada à coluna não foi diferente. Citou números orçamentários, percentuais de investimentos. Faltou, contudo, dar o número mais importante dessa eleição: nove. Precisamente, nove anos. Esse é o tempo em que a entidade de representação dos advogados no Espírito Santo está sob a gestão do criminalista Homero Mafra.
Há a candidatura de Brum, apoiada por Homero, e as dos oposicionistas José Carlos Rizk e Elisângela Melo. Mas o fato mais importante da eleição é que, pela primeira vez desde 2009, Homero não é candidato à presidência. Só que, mesmo tendo voltado a ser coadjuvante (é candidato ao Conselho Federal na chapa de Brum), ele mantém-se como protagonista do processo. Está em toda parte. Nas críticas de Rizk e de Elisângela – que fazem questão de se referirem à Chapa 1, a da situação, como “a chapa de Homero”. E está (mas não está) na campanha de Brum, que não faz tanta questão assim de pôr o aliado em destaque.
A posição do candidato da situação é a mais curiosa de todas, justamente por sua ambiguidade: ele não chega a renegar o apoio de Homero nem a influência do atual presidente no nascimento de sua candidatura, mas tampouco abraça completamente esse apoio. Ao mesmo tempo em que assume ter origem no mesmo grupo político, Brum nega que seja “o candidato de Homero”, busca minimizar o peso dele em sua campanha e se esforça para demarcar as diferenças entre os dois, ao invés de acentuar as afinidades.
“Ele é mais Cuba. Eu sou mais Estados Unidos”, resume Brum para a coluna, procurando se dissociar de Homero na questão do perfil: o seu seria muito mais o de um gestor focado em metas e resultados. “Tenho com Homero uma relação extremamente afetuosa. Ele me ensinou muito, justamente por conta do olhar diferente que nós temos. Homero não se sentaria na frente de ninguém e projetaria a Ordem falando de gestão, de números, de projetos, de centro de inteligência, de estudar o orçamento do tribunal. A visão de mundo que eu tenho é muito diferente. Venho de um mundo em que a gestão produz resultados. E Homero vem de um mundo em que a sensibilidade dita os rumos.”
Esse choque de perfis, relata Brum, manifestou-se em algumas discussões a portas fechadas entre ele e Homero ao longo das duas últimas gestões – nas quais o candidato foi, respectivamente, presidente da Comissão de Orçamento e secretário-geral.
“Nesses últimos anos, todas as mudanças que fiz, inclusive demissões, foram negociadas com ele. E nem sempre negociadas de uma maneira... Você tem um processo de construção em que se fecha em algum lugar e... [faz sons de “pau quebrando”]. Mas a gente combinou. E as nossas diferenças você não expõe a público. Você constrói em cima delas.”
Brum também relativiza que Homero seja seu cabo eleitoral mais importante: sim, sim... mas entre os criminalistas. Entre outras categorias de advogados, ele diz ter outros aliados mais influentes. “O conceito de cabo eleitoral é um conceito que não costumo usar muito.”
CENA POLÍTICA
Para preencher o cargo de procurador-geral do Estado, parece que o critério é se chamar Rodrigo. Na gestão anterior de Renato Casagrande, Rodrigo Judice ocupou o cargo. Na maior parte da atual, de Paulo Hartung, o PGE foi Rodrigo Rabello. Agora a “dinastia dos Rodrigos” está mantida, com a escolha do procurador Rodrigo de Paula, por Casagrande, para ocupar o cargo em sua próxima administração.
ABRAÇO A DISTÂNCIA
É como se fosse um abraço envergonhado, daqueles sem calor humano, sem encostar as barrigas e só com um tapinha nos ombros. A questão é saber por quê. Talvez porque a chapa de Brum esteja atenta aos reflexos das eleições gerais, em que a ordem foi “não reeleger ninguém”. Talvez porque, após nove anos, Homero pague pelo inevitável desgaste de quem passou tanto tempo no poder e Brum saiba que, para levar a melhor, precisa ser o candidato da continuidade e da inovação ao mesmo tempo. Isto é, deve ser o candidato de Homero sem ser “o candidato de Homero”.
MAS SEM BEIJO DE JUDAS
“Homero está há nove anos na presidência da Ordem”, sublinha Brum. “Muitos que são oposição me disseram assim: ‘Brum, a gente fica com você, desde que você rife Homero e ele não esteja na chapa’. E, desde o primeiro momento, eu decidi não dizer para o Homero que não o quero como parceiro, como conselheiro federal, como alguém que tenha ainda a agregar na Ordem.”
MAIS ATUAL QUE NUNCA
“Digo que essa decisão foi acertada porque se tem uma coisa que Homero faz bem são os enfrentamentos que defendam as garantias individuais e os direitos humanos. Ele é um garantista por natureza. Ele tem essa paixão. E, dentro de uma realidade que podemos eventualmente enfrentar, onde vemos o governador do Rio estimulando que snipers simplesmente atirem para matar, acho que uma pessoa como o Homero é extremamente relevante para fazer um contraponto. Na hora em que ele vai para o Conselho Federal, ele exerce um papel extremamente relevante de estimular que a OAB exerça o seu papel histórico de modo muito presente.”