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Vitor Vogas

O conflito no discurso de Casagrande

Confira a coluna Praça Oito desta quinta-feira (20)

Publicado em 20 de Dezembro de 2018 às 07:27

Públicado em 

20 dez 2018 às 07:27
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Crédito: Amarildo
O discurso do governador eleito, Renato Casagrande (PSB), revela certo conflito. Nele coexistem “o velho ainda não totalmente superado” e “o novo ainda não inteiramente estabelecido”. Isso em relação ao atual governador Paulo Hartung (sem partido). Esse paradoxo se expressou novamente na entrevista e no pronunciamento do governador eleito ontem no TRE, durante o ato de diplomação dele próprio e de todos os eleitos pelos capixabas, para todos os cargos em disputa, no pleito de outubro.
Trata-se de um conflito entre a disposição manifestada (e reiterada por Casagrande ontem) em deixar a rixa com Hartung para trás, de um lado, e a determinação de seguir alimentando a briga política e esticando a corda, do outro. Ora ele parece verdadeiramente resolvido a enterrar o passado. Ora parece determinado a desenterrá-lo. Aqui dá sinais de querer mesmo distensionar a corda; logo ali demonstra que a corda, no fundo, continua retesada.
Ontem, em seu pronunciamento, Casagrande falou em não ficar alimentando picuinha, em não perder nem um segundo sequer alimentando brigas, em não ficar olhando pelo retrovisor. Nessa mesma direção ele já apontara outras vezes, inclusive usando essas mesmas expressões ou outras com o mesmo sentido. Em todas essas ocasiões, Casagrande salientou sua resolução de não perseguir nenhum adversário político.
Por outro lado, o discurso do governador eleito é cheio de adversativas e concessivas: “muito embora”, “se bem que”, “apesar de” etc. E é nesses momentos, introduzidos por essas conjunções, que surgem as alfinetadas em Hartung – dando a ver uma ferida que não está completamente superada, como Casagrande gostaria de nos fazer crer.
No seu pronunciamento ontem, ele voltou a enaltecer a boa situação fiscal em que recebe o governo, sobretudo se comparada à de muitos outros Estados. Ato contínuo, veio a concessiva: “(...) embora modulada por grande déficit social”. Para bom entendedor, Casagrande quis dizer que Hartung teve êxito em manter o caixa estadual equilibrado, mas que tal equilíbrio não foi acompanhado por investimentos sociais – ou melhor, teria sido alcançado justamente às custas do social.
Pouco antes, na entrevista à imprensa, Casagrande voltou a se queixar dos convênios que Hartung queria liberar em cota única para os municípios, nesta reta final de mandato, diminuindo assim as reservas deixados nos cofres do Tesouro Estadual para a próxima administração.
Ao mesmo tempo, como já dissera à coluna no início da transição, deixou claro que, da parte dele, não faz a menor questão nem vê a menor necessidade de se sentar com Hartung em torno da mesma mesa para falar do que quer que seja. Segundo ele, o contato institucional (não político) já foi estabelecido desde o início da transição, mas pelas respectivas equipes de transição, e é assim que deve ser. A declaração de Casagrande foi a primeira dele sobre o tema após Hartung ter se colocado à disposição para conversar com ele, se procurado, em entrevista publicada por A GAZETA no último domingo.
Há oito anos, em dezembro de 2010, Casagrande viveu pela primeira vez a situação “refilmada” ontem: foi diplomado governador do Estado. Perguntamos a ele o que é diferente agora. Ele respondeu que muita coisa, inclusive ele mesmo. Repetindo Raul (e Lula), afirmou que somos uma “metamorfose ambulante”. Claro está porém que, quando se trata de Hartung, as coisas não estão tão diferentes assim. Seguem na mesma desde 2014.
Ops!
Na coluna de ontem, citamos a Fetaes (Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado do Espírito Santo) como uma das 12 entidades que participaram, na semana passada, da votação para a escolha do novo presidente do Conselho Deliberativo Estadual do Sebrae-ES. Na verdade, trata-se da Faes (Federação da Agricultura do Estado do Espírito Santo).
Ops! (2)
No último dia 13, na primeira parte de nossa “trilogia” sobre os “ecos do AI-5”, publicamos duas datas imprecisas: o AI-2 não é de 1966, mas do fim de 1965; já o AI-5 determinou o fechamento do Congresso, que assim ficou por quase um ano (até outubro de 1969) e não “por mais de um ano”.
Casagrande desmente
Na última terça-feira, publiquei no Gazeta Online que o médico Márcio Almeida, diretor-presidente da Unimed, apresentou-se a Casagrande como opção para comandar a Secretaria de Estado da Saúde. O governador eleito entrou em contato com a coluna para informar que ele e Almeida têm conversado sobre a saúde estadual, mas, na realidade, em nenhum momento se falou sobre o cargo de secretário. “Ele só se colocou à disposição para ajudar o meu governo.”
Pra frente
Em mais de uma ocasião, Casagrande falou em só olhar para a frente. Foi assim em sua primeira entrevista após a vitória eleitoral, na noite de 7 de outubro. Assim também no fim de novembro, durante o 13º Encontro de Lideranças promovido pela Rede Gazeta. Do mesmo modo, na véspera da diplomação, discursando para o movimento Espírito Santo em Ação.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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