
Mauro Leite Teixeira*
Ensina Leon Tolstói: “Conte sua aldeia e estará falando do mundo”. Vitória não é propriamente uma aldeia, mas quero falar dela que me acolheu quando aqui cheguei, há mais de 50 anos. Morei em vários locais no centro urbanizado da cidade. Admirava, no seu entorno, as montanhas parcialmente cobertas pela exuberante floresta. Casebres subiam o morro disputando espaço com as árvores. A vida naquelas moradias era-me desconhecida.
Naquela época, vigorava uma visão romântica da vida nas favelas registrada nos versos do cancioneiro popular: “O morro não tem vez / E o que ele fez já foi demais / Mas olhem bem vocês / Quando derem vez ao morro / Toda a cidade vai cantar” (Jobim e Vinicius). ”Lá no morro / Barracão é bangalô / Lá não existe / Felicidade de arranha-céu / Pois quem mora lá no morro / Já vive pertinho do céu” (Herivelto Martins).
Recentemente, ao trabalhar nas obras nos morros da Capital, tive a oportunidade de descobrir outra realidade diferente daquela urbanizada do centro. Outra cidade repleta de carências. A cidade dos excluídos. Um privilégio obter este conhecimento holístico da Capital. Passei, então, a refletir sobre a origem dessa discrepância. Não surgiu por acaso, mas sim resultado de um processo histórico, desde as Capitanias Hereditárias.
A Lei das Terras, de 1850, aprovada por um parlamento dominado por latifundiários, definiu que todos teriam direito à propriedade, desde que possuíssem numerários para adquirir as terras devolutas do governo. Poucos, muito poucos, tiveram essa condição. A libertação dos escravos, sem direito sequer ao casebre onde moravam e ao que plantara, aumentou a exclusão. Restou-lhes a opção de viver pendurados nos morros e nas periferias. Da terra brotam as desigualdades.
O desenvolvimento do consumismo, estimulado pelos meios de comunicação, contribuiu para o aumento dos conflitos. Jovens das periferias recebem apelos para possuir aquilo que eles não têm a menor condição de adquirir. Desenvolve-se, assim, uma visão fragmentada da realidade. Os morros distantes não são mais azuis, e sim uma ameaça, como se a favela fosse um gueto repleto de marginais. Aquela visão idílica dos morros se mostra, agora, mais realista nos versos do sambista Wilson das Neves: “O dia em que o morro descer e não for carnaval / ninguém vai ficar pra assistir ao desfile final / na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu / vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil / (é a guerra civil)”.
Urge perseguir a paz social.
*O autor é engenheiro e mestrando de Sociologia Política da UVV