*Vitor Martins Regis
A seleção francesa de futebol acaba de vencer a Copa do Mundo pela segunda vez. Se o triunfo de 2018 ocorreu na Rússia, a vitória inaugural aconteceu, vinte anos atrás, na própria França. Assim como em 1998, ao mesmo tempo que o capitão dos “Azuis” ergueu o troféu no domingo retrasado (15/7), uma questão voltou a emergir: qual a relação da vitória de uma equipe esportiva multicultural com o problema político da imigração na pátria francesa?
Dos vinte e três jogadores convocados para a competição deste ano, apenas seis deles têm, unicamente, a nacionalidade francesa. Os outros dezessete atletas, além de também serem franceses, dividem-se entre cidadãos congoleses, malineses, camaroneses, filipino, espanhol, senegalês, marroquino, argelino, angolano, guineano, togolês, mauritano e guadalupense. O sucesso futebolístico deste ano fez ressurgir o conceito “negro-branco-árabe”, ideia popularizada com a conquista da primeira estrela em 1998.
O termo “negro-branco-árabe” celebra as duas seleções da França campeãs em Copas do Mundo, ambas equipes com jogadores de futebol com ascendências étnicas e culturais múltiplas, como um índice de que a França se potencializa em função da valorização da sua mestiçagem. Todavia, a história entre o 1998 do franco-argelino Zidane e o 2018 do franco-camaronês Mbappé também expressa um viés de mito para o termo “negro-branco-árabe”.
O que se pode dizer é que, como um símbolo da comunidade nacional, o selecionado de futebol da França também atualiza as dificuldades de integração que os franceses negros e árabes enfrentam em seu cotidiano: efeitos do colonialismo que o nacionalismo francês evita problematizar. Se a seleção de futebol contou com atletas de etnias variadas, tanto em 1998 como em 2018, os técnicos, os presidentes da federação de futebol, os primeiros-ministros e os presidentes da nação, todos eles permaneceram brancos.
Na França, a situação dos imigrantes se deteriorou nos últimos vinte anos. Infelizmente, uma parte dos franceses nativos duvida que os cidadãos com ascendência africana, seja magrebina, seja subsaariana, possam se tornar “excelentes franceses”. Entre os principais problemas estruturais que continuam marcando, especialmente, a vida dos imigrantes no país, temos a segregação sócio-espacial e étnica, a retirada de serviços públicos, o fracasso escolar, a concentração da pobreza, o aumento do desemprego, o agravamento da criminalidade e os ataques jihadistas.
Para citar um exemplo, entre muitos que expressam as contradições políticas da França, inclusive no seio da sua seleção de futebol, Laurent Blanc, atleta nativo campeão na equipe multicultural de 1998, foi alçado ao cargo de técnico da equipe em 2011. Afora os maus resultados dentro de campo, a passagem de Blanc também ficou conhecida como segregatória: o líder descontinuou a alimentação que respeita os costumes dos jogadores muçulmanos; ele também foi gravado em reunião da federação francesa de futebol apoiando a limitação do número de jovens jogadores negros nos centros de formação do país.
*É doutor em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense e autor do livro “O Acontecimento: Democracia Corinthiana”