
Fernando Caio Galdi*
Algumas argumentações comumente utilizadas contra as privatizações são influenciadas por um viés ideológico presente em seus interlocutores, tirando a credibilidade de uma discussão séria e produtiva sobre o assunto. Frases de efeito como “privatização é um projeto neoliberal entreguista” são comuns em alguns meios e fogem da avaliação das reais consequências que privatizações já implementadas trouxeram para a sociedade.
Evidente que podem existir falhas em alguns processos executados no Brasil e um debate aprofundado sobre aprendizado obtido e os trade-offs da privatização é necessário, especialmente em algumas situações particulares. Contudo, negar os benefícios decorrentes do histórico recente de privatizações no cenário nacional que são sentidos “na pele” pela população e estão bem documentados em pesquisas acadêmicas é desvirtuar a realidade.
Muitos são os exemplos de empresas que passaram pelo processo de privatização e saíram mais fortes, competitivas, com melhores produtos, serviços e maior capacidade de geração de emprego e renda do que tinham antes. Entre elas, podem ser lembradas a Vale, a Embraer, a Telebras, a Usiminas, a CSN, entre muitas outras.
Pesquisas científicas apontam para esta direção. Anuatti-Neto et al. (2005) fizeram uma análise de 102 empresas brasileiras do setor produtivo que passaram pelo processo de privatização e avaliaram um conjunto de 15 indicadores de desempenho. Os resultados encontrados pelos autores apontam para um aumento na eficiência operacional e na lucratividade, bem como um aumento da liquidez corrente e redução do endividamento de longo prazo das empresas privatizadas.
Outros trabalhos avaliaram os efeitos da privatização de empresas de serviços básicos. Um importante trabalho é o de Galiani et al. (2005), que documentaram a queda da mortalidade infantil em 8% após a privatização dos serviços de água na Argentina na década de 1990. Deve-se salientar, contudo, o relevante papel do governo em estabelecer um marco regulatório adequado para que os processos de privatização sejam virtuosos.
Portanto, podemos observar que muitas evidências apontam de maneira favorável às privatizações, enquanto, normalmente os argumentos contrários são baseados em sentimentos ideológicos.
Somando-se estes efeitos positivos documentados a um ambiente de aumento de complexidade na gestão e déficits crescentes do governo federal, temos um ambiente propício para debates sérios, especialmente no caso de sugestões de privatizações de empresas públicas que estão desequilibradas financeiramente e que estão defasadas tecnologicamente.
*O autor é doutor em Ciências Contábeis, professor da Fucape e comentarista da CBN Vitória