“Vai dar tudo certo”, cantou Rose de Freitas no início de agosto, nas convenções da Rede e do Podemos. Até agora, em sua campanha, quase nada está dando. Rose entrou na campanha como única candidata com alguma chance de, talvez, atrapalhar o passeio anunciado de Casagrande. Segundo a pesquisa Futura publicada nesta segunda-feira (24), agora ela corre o risco de perder o 2º lugar e chegar atrás do deputado Manato. Sua campanha está se desmanchando. Como explicar?
A campanha carece de foco, e a candidata não conseguiu encontrar um discurso claro, objetivo e consistente para explicar: afinal, por que quer ser governadora do Espírito Santo? A senadora parece em uma campanha para renovar o seu mandato no Senado. Seu discurso é baseado em um tripé. A primeira perna foca em uma questão de gênero que não reflete necessariamente um mérito: quer ser a primeira mulher a governar o Estado. Por que alguém votaria em uma mulher só por ela ser mulher?
A segunda perna é muito vaga, já que não vem acompanhada do “como”: quer “fazer mais” pelos capixabas. A terceira expõe uma contradição: quer usar a sua experiência de cerca de 30 anos no Congresso para trazer ainda mais recursos federais para o Estado, como governadora.
Rose de fato é reconhecida por sua capacidade de destravar recursos em Brasília. Ora, se ela se diz tão boa nisso, não será mais útil ao Estado permanecendo no Senado, especialmente considerando que ela tem mais quatro anos de mandato, que seu suplente é um empresário de São Paulo sem nenhuma relação com o Espírito Santo e que um governador tem mil outras preocupações simultâneas?
Para piorar, essa contradição é aprofundada pela propaganda eleitoral de Rose, que, diga-se passagem, está amadora demais, em mais um sintoma da improvisação da campanha. O texto dos programas reforça aquela sensação de que, como governadora, Rose seria uma excelente senadora. Ela frisa e repisa as obras executadas nos municípios graças a seu empenho e às verbas que viabilizou.
Dia desses, quase o tempo integral de um programa foi gasto com uma declaração de apoio do prefeito de Colatina, Sérgio Meneguelli. Mais uma vez, Rose aparece como a “senadora dos prefeitos” e continua levantando o seu recall de congressista. Rose está falando para o seu espelho e não conseguiu dar o necessário passo para o futuro. Como essa experiência lhe servirá como chefe do Executivo? E, acima de tudo, quais são as propostas objetivas para cada área?
A propaganda é um mar de evasivas, algo também observado em algumas entrevistas e até em seu programa de governo (um primeiro sinal do que viria): muito “buscaremos”, “procuraremos”, mas poucas metas e propostas objetivas.
Toda essa desordem se estende para o entorno de Rose e já se fizera sentir em um momento decisivo que, para muitos, decide metade da eleição: a fase final do fechamento das alianças. Nos últimos dois dias do prazo para registro das coligações, o QG de Rose (sua casa em Fradinhos) praticamente desmoronou. A chapa se dispersou por desentendimentos entre dirigentes que a rodeavam, como Gilson Daniel (Podemos) e Neucimar Fraga (PSD). O resultado foi a debandada, nas últimas horas, de siglas como o PRP e o PSD.
O clima na coligação ficou tão ruim que, discretamente, até alguns dos principais apoiadores de Rose, como os prefeitos da Serra e de Viana, Audifax Barcelos (Rede) e Gilson Daniel (Podemos), deram um passo atrás e não mergulharam de cabeça na campanha. Alguém viu?
Concluindo, a campanha de Rose está na rua, mas não está. Ela entrou na campanha, mas não entrou. E agora dá sinais de estar em busca de uma saída honrosa. Na Findes, na última quinta, ela própria deu fôlego (querendo ou não) a rumores sobre renúncia, pedindo aos empresários que a entendam e a respeitem “por qualquer coisa que venha a acontecer amanhã”.
Tempo havia
Rose foi a primeira a se dizer pré-candidata ao governo, mas, até o início da campanha, não tinha, por exemplo, um arquivo com imagens captadas de suas participações em eventos. Mesmo com a escassez de recursos, daria para fazer algo melhor. Com tempo de TV parecidos, as propagandas de Manato (PSL) e Jackeline Rocha (PT), por exemplo, estão tecnicamente superiores.
Que vice é esse?
A escolha do vice de Rose é outro “sintoma” da improvisação: nas horas finais do prazo (dia 6 de agosto), o ex-deputado estadual e ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Daílson Laranja (MDB) chegou a ser convidado, mas declinou. Nos últimos instantes, anunciou-se a maior surpresa desta eleição estadual: o médico Thanguy Frizo (Podemos), ortopedista experiente, mas desprovido de qualquer experiência política.
Aposta equivocada
Contra Rose, também pesou uma aposta que, no fim, também não deu certo: acreditando que Paulo Hartung tentaria a reeleição pelo MDB, ela migrou para o Podemos. Garantiu legenda, ok. Mas entrou em sigla com estrutura muito mais precária. E, no fim, assistiu à desistência de PH. Tivesse ela ficado no MDB...
No meio do caminho
Rose entrou na campanha em posição dúbia em relação ao principal adversário. Até março, ela e Casagrande estavam no mesmo projeto contra o polo de Hartung. Rose também estava preparada para enfrentar o governador. Com a não candidatura deste, a senadora ficou sem discurso e não tem batido em Casagrande. Até o critica aqui e ali, mas bem de leve.
Quem quer pegar?
A duas semanas para o 1º turno, a direção do marketing de Rose ainda estava em aberto, e a campanha ainda tenta encontrar o tom. Conversas iniciais com a marqueteira Jane Mary não evoluíram. Jaime Kislansky, de Salvador, chegou a dirigir alguns programas. Nesta reta final, quem assume é Zuza Nacif, de BH, que tentará mudar o tom. Meio tarde, não?
Agora tem a perder
Antes da campanha pensava-se: Rose não tem nada a perder. Agora, caso siga em queda, pode sair menor do que entrou.