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Jace Theodoro

Muqui se aninhou dentro deste menino encantado

Sempre que lá estou, volto às curvas da infância na Cidade Menina, apelido que me alimenta a lembrança

Publicado em 23 de Novembro de 2018 às 09:50

Públicado em 

23 nov 2018 às 09:50
Jace Theodoro

Colunista

Jace Theodoro

Crédito: Amarildo
O menino caminha descalço pela chuva, desliza os pés miúdos na calçada porque há uma alegria no tombo. Dar com a bunda no chão é motivo de gargalhadas entre a gurizada. Eles gostam do malfeito e se provocam entre si pra ver quem se estabaca melhor no cimento aguado da chuva. A calçada vira extenso tobogã na horizontal. Crianças inventam modos muito próprios e inequívocos de felicidade.
Festa na rua e, nas beiradas do meio-fio, barquinhos de papel singram pelas águas da enxurrada. Os pescadores de delícias se refestelam no rio inventado à beira da calçada. As mães os convocam pro abrigo da casa. Alguns voltam com medo do chinelo materno, outros, como eu, vão atrás das mangas do quintal vizinho. Como a grama, a manga do vizinho, aprendi cedo, é sempre mais doce, amarela e sumarenta.
A memória afetiva da infância em Muqui evoca amarelo-manga-lambuzado, brancas nuvens, amor de amoras, os pés amassando o barro da lama. O menino aos domingos no Cine São Jorge embriagado pelo mistério das imagens dentro da tela podendo saltar pra plateia como a rosa púrpura do Woody Allen, filme que seria feito só na década seguinte. O menino que fui antecipava sonhos, os cultivava, florzinhas delicadas, antes das luzes da sala se acenderem. E voltei semana passada para o Fecin, Festival de Cinema do Interior, que há sete anos colore a cidade de imagens, sons e festa.
Sempre que lá estou, volto às curvas da infância na Cidade Menina, apelido que me alimenta a lembrança com as saias rodadas das gurias, os fios emaranhados dos cabelos na testa com suor em bicas. Quando entro na Igreja Matriz, ouço novamente a cantoria das folias de reis entoando “Bandeira do Divino”, do Ivan Lins, e escorrem as mesmas lágrimas da audição inicial, lá na minha primeira aurora.
Trago Muqui na memória da memória da memória. É fundo e longe, vai até os olhos rasgados do meu bisavô chinês, alcança as Muralhas e as cruza para o sem fim do sentimento. A cidade se aninhou dentro deste menino encantado e não se perdeu nos labirintos aonde andei. Sobrevive e me define, como na canção do Caetano, “em força, em graça, em luz”.
* O autor é jornalista e escritor

Jace Theodoro

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