Publicado em 11 de novembro de 2025 às 14:58
Na semana passada, o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) foi escolhido para ser o relator do projeto de lei antifacção, apresentado pelo governo após a megaoperação que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro.>
A expectativa é que o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado — que tem como base o PL Antifacção — seja votado ainda nesta terça-feira (11/11) pela Câmara dos Deputados.>
Para assumir a posição de relator, Derrite foi exonerado do cargo de secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, onde trabalhava ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).>
Já à frente da Projeto de Lei 5582/25, o parlamentar propôs mudanças significativas no texto enviado pelo governo ao Congresso, provocando críticas da base governista e das próprias forças de segurança.>
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Uma das principais alterações propostas no primeiro parecer divulgado por Derrite tinha relação com a atuação da Polícia Federal (PF) em investigações. No texto, o deputado condicionava as investigações conjuntas da corporação com forças estaduais sobre crimes relacionados a facções criminosas a um pedido formal do governador.>
Após manifestação de preocupação da própria PF, que afirmou que a exigência poderia restringir o alcance das operações, o relator reverteu o ponto mais controverso de sua proposta original.>
No novo texto, Derrite propõe "garantir que a Polícia Federal participe das investigações de organizações criminosas, paramilitares ou milícias civis".>
Pela nova redação, a PF atuará "em caráter cooperativo com a polícia estadual respectiva, sempre que os fatos investigados envolverem matérias de sua competência constitucional ou legal". >
Segundo o relator, a mudança "promove a integração cooperativa interinstitucional que se espera em crimes desta complexidade".>
Antes mesmo da publicação de seu parecer sobre o projeto antifacções, a própria indicação de Derrite para o posto de relator já havia sido alvo de críticas. O deputado foi escolhido para a posição pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), de quem é próximo.>
A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criticou a decisão. Ela disse que o governo enviou o projeto na expectativa de um debate consequente sobre o combate ao crime organizado. "A opção pelo Secretário de Segurança do governador Tarcisio de Freitas contamina o debate com os objetivos eleitoreiros de seu campo politico", declarou.>
Já o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), classificou a escolha de Motta como um "desrespeito" ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Colocar nas mãos do secretário de segurança do governador Tarcísio beira uma provocação", escreveu no X.>
Tarcísio é um dos nomes mais cotados para disputar a Presidência contra Lula em 2026. O governador, porém, tem dito que vai concorrer à reeleição em São Paulo no próximo ano.>
Derrite é secretário em São Paulo desde o início do governo Tarcísio, em 2023. Antes disso, foi eleito deputado em 2018 e reeleito em 2022. Na Câmara, já foi referido como Capitão Derrite, por sua posição como capitão da Polícia Militar.>
Apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o parlamentar sempre defendeu uma política linha-dura para combater a criminalidade. Por isso mesmo, a escolha por seu nome para integrar o governo Tarcísio foi vista como um dos maiores acenos do governador de São Paulo ao bolsonarismo até aquele momento.>
Derrite tem no currículo formação em Ciências Sociais e Segurança Pública na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, bacharelado em Direito na Universidade Cruzeiro do Sul e pós-graduação em Ciências Jurídicas na mesma instituição.>
Em sua carreira como policial, atuou entre 2010 e 2013 como tenente nas Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), unidade de elite da PM de São Paulo conhecida por atuar em situações de alta periculosidade e por realizar patrulhamento ostensivo em áreas urbanas - e alvo de críticas por muitas situações de confronto.>
Durante sua passagem pela Secretária de Segurança Pública paulista, foi criticado por episódios de violência e brutalidade envolvendo a polícia no combate à criminalidade.>
Um exemplo são as operações deflagradas pela PM na Baixada Santista em 2023 e 2024. Juntas, a duas ações deixaram um saldo de 84 pessoas mortas na região.>
Um relatório sobre uma dessas, intitulada Operação Escudo, apontou o abuso de força policial. Segundo o documento, elaborado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF), em parceria com a Defensoria Pública de São Paulo, a ação foi caracterizada como vingança contra jovens negros e pobres da Baixada Santista.>
Em outubro deste ano, durante uma apresentação no Congresso de Operações Policiais, Guilherme Derrite afirmou que as denúncias contra os policiais militares que atuaram nas operações Escudo e Verão são mentirosas.>
Derrite criticou as posturas de entidades da sociedade civil que trabalham com a defesa de direitos humanos e também da imprensa profissional.>
"'Eles [policiais] prometeram matar 30', é uma das coisas que foram noticiadas na época. Se existisse mesmo penalização por crime de fake news tinha muita gente que ia ser presa", disse o então secretário.>
O número de roubos registrados no estado de São Paulo de janeiro a agosto de 2025 teve queda de 14,7%, segundo estatísticas divulgadas pela SSP (Secretaria de Segurança Pública paulista).>
Diversos casos envolvendo a própria atuação de Derrite como policial também foram levantados pela imprensa.>
Em seu currículo nas forças de segurança, o deputado traz uma passagem turbulenta pela Rota, entre 2010 e 2015, quando deixou o comando de um pelotão marcado pela alta letalidade. É dessa época um áudio vazado nas redes sociais no qual diz ser "vergonhoso" para um policial "não matar nem três pessoas em cinco anos".>
Posteriormente, Derrite disse que errou ao fazer a afirmação e ressaltou que não pensa dessa forma.>
"Equivocadamente, eu falei isso em um áudio, quando alguns policiais foram transferidos da Rota, principalmente porque alguns amigos foram transferidos. Tomado por uma emoção momentânea, acabei mandando áudio criticando o comando da PM da época, anos atrás, pela transferência de bons policiais", disse em entrevista à Folha de S.Paulo em janeiro de 2023.>
"Na época, me retratei, dizendo que foi um equívoco, que eu tava errado, que não era isso que eu pensava, só que isso não vem à toa. Aí, em 2023, quase dez anos depois, querem associar dizendo: 'o secretário da Segurança Pública pensa dessa maneira'. Não penso", declarou. "Muito pelo contrário, se eu pudesse passar todo o período da gestão sem nenhum confronto, para mim seria o cenário ideal. Por quê? Porque uma das vítimas sempre é o policial.">
Como deputado, Guilherme Derrite foi vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara e autor das mudanças aprovadas ao Projeto de Lei 6579/13, que acabou com as saídas temporárias de presos no Brasil, as chamadas "saidinhas".>
A proposta foi aprovada pela Congresso em 2024, após deputados e senadores derrubarem o veto parcial do presidente Lula ao projeto, em um movimento que foi considerado uma derrota para o governo federal.>
Até então, a legislação previa a saída temporária para condenados no regime semiaberto. Eles poderiam deixar a prisão cinco vezes ao ano para visitar a família em feriados, estudar fora ou participar de atividades de ressocialização.>
Mas com a promulgação da nova lei e das mudanças propostas por Derrite, saídas temporárias para visita à família e participação em atividades sociais foram barradas. Somente detentos que cursam supletivo profissionalizante, ensino médio ou superior têm a saída autorizada.>
O caso agora é analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que votou para que a Corte defina se o fim da "saidinha" também deve ser aplicado a condenados antes da aprovação da lei pelo Congresso.>
Na época da aprovação do projeto na Câmara, Derrite classificou a medida como o primeiro grande passo para o combate à impunidade no Brasil. "Isso não vai resolver o problema da segurança pública completamente, mas é o primeiro passo", disse.>
Guilherme Derrite está agora em foco por conta do PL 5582/25, principal aposta do governo para tentar sufocar o crime organizado. O texto foi acelerado após a megaoperação contra integrantes da facção Comando Vermelho (CV) em 28 de outubro.>
A proposta surgiu a pedido do Ministério da Justiça e Segurança Pública a um grupo de trabalho, foi depois enxugado pelo ministro Ricardo Lewandowski e enviado ao Congresso pelo presidente Lula.>
O projeto original do governo modificava a Lei das Organizações Criminosas, elevando as penas de 3 a 8 anos para 5 a 10 anos. A proposta também criava a figura de "organização criminosa qualificada", com pena máxima de 15 anos no caso se domínio territorial baseado em violência, coação ou ameaça.>
Mas desde que foi definido como relator, Derrite já apresentou dois pareceres para a proposta do Executivo.>
Além das mudanças sobre a atuação da PF nas investigações envolvendo organizações criminosas, o texto alternativo do deputado também faz mudanças na Lei Antiterrorismo.>
Em seu parecer, Derrite incluiu na legislação 11 condutas atribuídas a organizações criminosas, milícias e grupos paramilitares, sujeitando esses crimes às mesmas penas aplicadas a atos terroristas.>
O relatório cita oito agravantes e aumenta a pena de metade a dois terços quando o crime for praticado pelo chefe da organização criminosa, ainda que ele não seja o autor do ato.>
E apesar de ter feito alterações no texto para abarcar as críticas em relação às competências da PF, a mais versão do relatório do deputado mantém a estratégia de fazer mudanças na Lei Antiterrorismo.>
Dessa forma, embora não classifique as organizações criminosas como terroristas, o relatório do deputado considera que atos das facções têm efeitos equivalentes aos de terrorismo porque geram "caos" na sociedade.>
O deputado ainda citou "fragilidades" no texto enviado pelo governo. Uma delas, segundo ele, está na diminuição de pena para integrantes de facções que sejam réus primários.>
Membros do governo criticaram a proposta, afirmando principalmente que ela abriria as portas para intervenções externas no Brasil. Alguns países, como os Estados Unidos, têm leis que preveem ações contra grupos terroristas estrangeiros.>
Derrite rebateu as críticas. Ele disse que a preocupação de integrantes do governo federal com o tema é "válida" e que acredita que "quem tem que resolver nossos problemas somos nós".>
"O Estado é capaz de oferecer uma solução robusta que seja capaz de punir qualquer criminoso", disse em entrevista à Globo News na segunda-feira (10).>
"Primeiro, precisa ler o relatório e realmente entender o que está no substitutivo. Acho que tem muita ideologia política e pouco conhecimento sobre o que realmente está no relatório", afirmou.>
O deputado disse ainda que "o relatório não é uma coluna de concreto" e pode ser alterado até o dia da votação.>
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