> >
Quem detém o poder no Irã após a morte do aiatolá Ali Khamenei — e como será escolhido seu sucessor?

Quem detém o poder no Irã após a morte do aiatolá Ali Khamenei — e como será escolhido seu sucessor?

Nomes de figuras-chave na estrutura de poder começam a ser levantados, mas, após os intensos bombardeios, ainda não se sabe ao certo quem está vivo e quem está morto.

Publicado em 1 de março de 2026 às 12:11

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Getty Images

O aiatolá Ali Khamenei foi morto no primeiro dia de intensos ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã, anunciou o presidente americano Donald Trump no sábado (28/2), após décadas de tentativas diplomáticas fracassadas para resolver a disputa sobre o programa nuclear iraniano.

A morte do governante de 86 anos, que detinha o poder há quase quatro décadas, foi posteriormente confirmada pela televisão estatal iraniana.

Este é um momento histórico para a nação islâmica. O governo decretou 40 dias de luto nacional e sete feriados.

Como chefe de Estado e comandante-em-chefe das Forças Armadas, que incluem a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) — uma espécie de Exército paralelo criado para defender o sistema islâmico do país —, a posição de Khamenei lhe conferia imenso poder.

Seu poder também derivava, em grande parte, do império financeiro paraestatal conhecido como Setad, sob o controle direto de Khamenei, explica a Reuters.

A organização, avaliada em dezenas de bilhões de dólares, cresceu enormemente durante o governo do líder supremo, investindo bilhões na Guarda Revolucionária.

Khamenei não era exatamente um ditador; ele estava situado em meio a uma complexa rede de centros de poder concorrentes, mas podia vetar qualquer questão de política pública e selecionar pessoalmente os candidatos a cargos públicos.

Imagem BBC Brasil
O presidente iraniano Masoud Pezeshkian liderará o período de transição Crédito: Getty Images

"De acordo com a Constituição, o presidente, o chefe do Judiciário e um clérigo de alto escalão do poderoso Conselho dos Guardiães assumirão o cargo interinamente enquanto a Assembleia de Peritos elege seu sucessor", explica Lyse Doucet, correspondente-chefe da BBC.

O Conselho dos Guardiões tem como função principal garantir que as leis aprovadas pelo Parlamento estejam em concordância com a Constituição e com a lei islâmica. Já a Assembleia de Peritos tem o poder de nomear e supervisionar o líder supremo.

Desde 1979, o Irã, um país com mais de 90 milhões de habitantes, é uma teocracia, um sistema em que religião e política se entrelaçam. A autoridade máxima não é o presidente, mas o líder supremo, o aiatolá.

Rosa Meneses, analista e pesquisadora especializada no Oriente Médio do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos (CEARC), explicou à BBC Mundo os procedimentos estabelecidos para a sucessão na República Islâmica: "A Assembleia de Peritos, um órgão composto por 88 membros, todos clérigos, é responsável por avaliar os candidatos e selecionar o próximo líder supremo da República Islâmica."

"Foi isso que aconteceu quando o aiatolá Ruhollah Khomeini morreu em 1989. Então, o escolhido foi Ali Khamenei, que já faleceu."

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Getty Images

Os preparativos para este momento decisivo se intensificaram meses antes, especialmente com o aumento das tensões com os Estados Unidos e Israel, deixando claro que o clérigo linha-dura era um alvo.

De fato, os clérigos e comandantes mais poderosos do Irã vinham se preparando para isso, particularmente durante a guerra de 12 dias contra Israel em junho de 2025.

Naquela ocasião, somente na primeira noite, durante a onda inicial de ataques, Israel conseguiu matar nove cientistas nucleares e vários chefes de segurança.

E nos dias seguintes, mais cientistas de alto escalão e pelo menos 30 comandantes proeminentes foram mortos.

Imagem BBC Brasil
null Crédito: BBC

Incerteza após os ataques

Na época, foi noticiado que Khamenei, que foi transportado para seu bunker especial durante os ataques do ano passado, estava elaborando listas de oficiais de segurança que poderiam assumir seu lugar imediatamente para evitar qualquer vácuo de poder.

"Khamenei teve tempo para perceber que precisava deixar sua linha de sucessão definida, e parece que o fez, pois veio à tona que ele designou até quatro linhas de sucessão para os cargos de mais alto escalão", explica Meneses.

No entanto, convocar rapidamente todos os membros da Assembleia de Peritos enquanto o Irã está sob ataque dos Estados Unidos e de Israel pode se provar difícil por razões de segurança.

"Teremos que ver quem a Assembleia de Peritos nomeará. No momento, não sabemos quem são os candidatos, nem sabemos a situação dos membros da Assembleia ou dos candidatos após esses bombardeios, ou qual será a situação deles nos próximos dias", acrescenta o especialista.

Em outras palavras, se estão vivos ou mortos.

A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que responderia à morte do líder supremo com a operação mais destrutiva de sua história.

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Getty Images

Por enquanto, segundo a agência de notícias iraniana ISNA, Alireza Arafi, do Conselho dos Guardiães, foi nomeado líder supremo interino.

Arafi foi escolhido para o Conselho de Liderança do Irã, que ficará encarregado de desempenhar as funções do líder supremo até que um novo líder seja eleito.

Arafi fará parte do conselho temporário ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei.

O segundo filho de Khamenei

Uma figura que tem sido muito citada é Mushtaba, o segundo filho de Khamenei.

"Ele tem considerável influência política e também está ligado ao Conselho da Guarda Revolucionária. Mas é verdade que, no Irã, uma sucessão de pai para filho não seria bem recebida pelo clero xiita", afirma a especialista do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos.

O nome de Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica, o ex-aiatolá, também foi mencionado.

"Ele tem a mesma legitimidade que seu avô; duas gerações já se passaram. Portanto, não seria vista como uma república hereditária. Além disso, ele concorreu às eleições, embora tenha sido desqualificado, o que lhe confere uma certa aura de dissidente, de alguém que não faz parte do círculo íntimo de Khamenei", diz Meneses.

"Isso é algo que poderia ser visto com bons olhos por quem está de fora", acrescenta ela.

Imagem BBC Brasil
O veterano político iraniano Ali Larijani ressurgiu no ano passado como uma das figuras mais poderosas na hierarquia do país Crédito: Reuters

Outra figura proeminente dentro do regime é Ali Larijani, o atual secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional.

Segundo a Reuters, Larijani administra uma ampla gama de assuntos, desde negociações nucleares até as relações regionais de Teerã e a violenta repressão de protestos internos.

Vindo de uma das principais famílias clericais do país, ele supervisionou os esforços do Irã para chegar a um acordo nuclear com os Estados Unidos apenas um mês depois de Washington tê-lo sancionado em janeiro por supostamente dirigir a brutal repressão aos protestos antigovernamentais.

"Ele sempre foi muito próximo de Khamenei e é um linha-dura, então poderia ser um dos nomes sendo considerados. Reitero, tudo isso é especulação. No momento, não sabemos qual é o estado da estrutura do regime para tomar esse tipo de decisão", acrescenta a especialista do CEARC.

A cúpula de poder

Mas em outros círculos de poder, em outras instituições iranianas, membros da Guarda Revolucionária ou ex-membros que se tornaram políticos exercem considerável influência.

Portanto, diz Meneses, outra possibilidade, especialmente considerando a guinada de Khamenei em direção a uma república mais militarizada nos últimos anos, poderia ser uma figura desconhecida desse círculo.

Para Ángel Saz, diretor do EsadeGeo (Centro Esade para Economia Global e Geopolítica), a situação atual do Irã é altamente incerta no médio prazo.

"O objetivo é derrubar o regime, mas sem um sucessor claro. Não parece haver uma figura como Delcy Rodríguez na Venezuela, e a oposição está muito fragmentada", disse Saz à BBC Mundo.

Resta saber como um regime se organizará nos próximos dias sob intenso bombardeio dos Estados Unidos e de Israel.

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais