Publicado em 20 de março de 2026 às 14:34
Os países nórdicos dominam há muito tempo o Relatório Mundial da Felicidade. Mas 2026 trouxe uma surpresa.>
Pela primeira vez em 14 anos de publicação, um país latino-americano chegou ao top 5. A Costa Rica manteve sua ascensão anual e pulou do 23° lugar, em 2023, para a quarta posição este ano.>
O ranking é elaborado anualmente pelo Instituto Gallup, pelo Centro de Pesquisa sobre Bem-Estar da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.>
Ele se baseia na avaliação média das condições de vida pelos próprios moradores de 140 países nos últimos três anos, ao lado de fatores como o PIB de cada país, serviços sociais, expectativa de vida, percepção de liberdade, generosidade e corrupção.>
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Pelo segundo ano consecutivo, nenhum dos principais países de fala inglesa chegou ao top 10. A Austrália veio em 15°, os Estados Unidos em 23°, o Canadá em 25° e o Reino Unido, em 29°.>
Entre os latino-americanos, atrás da Costa Rica, vieram o México (12°), Belize (27°), Uruguai (31°), Brasil (32°), El Salvador (37°), Panamá (39°), Guatemala (42°), Argentina (44°), Jamaica (49°) e o Chile (50°).>
Neste ano, cada um dos cinco melhores classificados apresenta aspectos específicos que contribuem para sua felicidade. Mas a liberdade de fazer escolhas de vida se destaca em todos eles.>
Conversamos com moradores de cada um desses países para entender o que contribui para sua sensação de felicidade no dia a dia e a longo prazo — e como os visitantes podem sentir o gostinho da "vida feliz" de cada local durante suas viagens.>
A Finlândia ocupou o primeiro lugar em nove dos últimos 10 anos.>
O país tem alta avaliação para serviços sociais e baixa percepção da corrupção. E os moradores costumam mencionar sua rede de assistência social (que inclui educação e assistência médica), que cria uma sensação de segurança e bem-estar.>
"Adoro o fato de que a Finlândia é um país seguro e posso confiar nas pessoas comuns por aqui", afirma Olli Salo, um dos fundadores da empresa Skimle, com sede na capital, Helsinque.>
"As crianças vão a pé para a escola a partir dos sete anos de idade, você não se sente ameaçado quando volta andando para casa e pode confiar que, se alguém fizer uma promessa, irá cumpri-la.">
Os impostos do país são altos, mas os seus moradores observam uma clara compensação.>
Solo compara com pagar uma assinatura por um software premium. Pode custar mais, mas a qualidade é melhor.>
"A maioria das coisas que realmente importam na vida, como saúde, educação e transporte, são serviços públicos", explica ele. "Por que não gastar um pouco e ter tudo isso com melhor qualidade?">
Ele também observa que os locais de trabalho finlandeses são mais colaborativos do que em outras partes do mundo, com menos hierarquia e menos "teatro corporativo".>
Para o atual prefeito de Helsinque, Daniel Sazonov, a felicidade também vem da proximidade com a natureza.>
"Conseguir sair de casa e, em poucos minutos, chegar ao mar, a um parque ou a uma floresta para andar à noite é algo especial", descreve ele.>
Os visitantes devem começar conhecendo a cultura da sauna finlandesa. Com cerca de três milhões de saunas para uma população de apenas 5,5 milhões de pessoas, as opções são muitas.>
"Sugiro experimentar as diferentes saunas de Helsinque e talvez até um mergulho no frio mar Báltico", recomenda Sazonov.>
Já a Biblioteca Central Oodi de Helsinque, aberta em 2018, é uma construção moderna surpreendente e um popular ponto de encontro para os moradores locais e os visitantes.>
Além da capital, Salo sugere ir para o norte no inverno, alugar uma cabine e esperar a Aurora Boreal. Mas ele aconselha não seguir um itinerário corrido.>
"Nunca entendi por que as pessoas reservam quatro atividades por dia e correm dos passeios de trenó para ver a Aurora Boreal", conta Salo. "Não é assim que os finlandeses fazem.">
Ultrapassando a Dinamarca pela primeira vez desde 2014, a ilha de apenas 400 mil habitantes ocupa o primeiro lugar em serviços sociais, a ponto de fazer os moradores locais sentirem que têm alguém com quem contar em tempos de dificuldade.>
A Islândia também ocupa o top 10 em PIB per capita, expectativa de vida saudável e generosidade. Por isso, ela é presença certa entre os primeiros lugares nas diversas avaliações.>
"Historicamente, o nosso isolamento transformou a sobrevivência em um esforço de todos", conta Ingibjörg Friðriksdóttir, moradora da capital Reykjavík e gerente de marketing digital do Hotel Rangá.>
"Por séculos, não havia ajuda de fora. Éramos apenas nós e precisávamos permanecer juntos", prossegue ela. "Este legado formou uma cultura na qual ajudar uns aos outros é simplesmente nossa segunda natureza.">
Os islandeses também têm forte capacidade de adaptação, decorrente da sobrevivência a severos e escuros invernos.>
"Aprendemos a apreciar os pequenos momentos: bom café, piscinas quentes e passar tempo com os amigos", conta Bryndís Björnsdóttir, diretora-gerente da lagoa Laugará́s, em Reykjavík.>
"Quando chega o verão, de repente temos luz do dia quase toda a noite e todos ficam mais felizes e cheios de energia.">
Não importa qual seja a estação do ano, os moradores locais recomendam aos visitantes sair ao ar livre, independentemente das condições.>
"O ar fresco, as paisagens ao ar livre e a sensação de liberdade são uma parte importante do que faz deste um ótimo país", afirma Björnsdóttir. Ela destaca que a comida também vale a pena ser apreciada, especialmente o peixe fresco.>
No Hotel Rangá, os hóspedes podem se inscrever no programa "Viva Como um Islandês".>
Ali, eles aprendem a dizer a frase Þetta reddast, que traduz uma das principais crenças islandesas, que contribui para a felicidade do país: não importa a situação, tudo dará certo.>
Sempre entre os primeiros colocados, a Dinamarca nunca caiu além do quarto lugar na história do relatório. E ocupa com frequência a primeira posição.>
Em terceiro lugar este ano, o país também aparece em terceiro na avaliação de serviços sociais e baixos níveis de corrupção, além de ocupar o sétimo lugar em PIB per capita. Mas a sensação de felicidade no país nem sempre é claramente visível.>
"Não é questão de colocar um grande sorriso e dar risada", afirma a jornalista Laura Hall, da capital Copenhague. Ela é a autora do livro The Year I Lay My Head in the Water ("O ano em que coloquei minha cabeça na água", em tradução livre), sobre nadar na Escandinávia.>
"É realmente questão de confiança na sociedade, confiança uns nos outros e a crença de que todos estão trabalhando juntos pelo bem comum.">
Hall cria duas filhas aqui e afirma que a sensação de segurança é constante.>
Ela também adora o limpo porto de Copenhague, um canal industrial dos anos 1990 transformado pela cidade em um local onde os moradores podem nadar o ano inteiro.>
Na cidade mais antiga do país, Ribe, a moradora Lise Frederiksen observa a felicidade enraizada na participação cívica.>
"Caminho todos os dias pelas ruas de pedregulhos, sou agradecida pela minha vida aqui", ela conta.>
Frederiksen valoriza o sistema educacional dinamarquês, que permite a crianças de qualquer situação financeira comparecer à mesma escola pública por 10 anos. E os pais devem organizar grupos de brincadeiras reunindo as famílias.>
"É muito importante que as crianças visitem as casa umas das outras, para observar que as pessoas podem viver de muitas formas diferentes", destaca ela.>
Para os visitantes, Frederiksen recomenda vir durante um dos muitos festivais de Ribe. Os temas variam das ostras e tulipas até heavy metal.>
Quem visitar o país no outono pode observar o período do "sol negro", quando milhões de estorninhos migram pela região, em densas formações que bloqueiam rapidamente o céu.>
Em Copenhague, os visitantes não precisam planejar um itinerário perfeito para entrar na vibe da felicidade.>
"Na maior parte do tempo, os visitantes vão embora com uma sensação de calma e paz", conta Frederiksen.>
"E também com um pouco de inveja ao ver pessoas andando de bicicleta e passando seus dias de forma relaxada. Realmente, a cultura não é de agitação por aqui.">
Ao subir para o quarto lugar na avaliação deste ano, a Costa Rica é o primeiro país latino-americano a atingir o top 5. Suas avaliações de liberdade e assistência social quase dobraram desde 2021.>
A Costa Rica não conta com avaliação tão alta do PIB ou apoio governamental quanto os países nórdicos, mas seus moradores relatam forte liberdade para fazer suas próprias escolhas de vida.>
Eles também mantêm avaliações de vida significativamente mais altas que o esperado com base na avaliação dos seus fatores, segundo o relatório.>
Questionado sobre o que faz da Costa Rica um lugar tão feliz, o morador local Adrian Hunt não hesita em responder.>
"Comunidade, comunidade, comunidade", afirma o nômade digital que mora em Las Catalinas, uma cidade sem carros no litoral de Guanacaste. "Ter pessoas que compartilham a mesma paixão de viver uma vida saudável, ao ar livre e ser vizinhos.">
A natureza também é uma fonte diária de felicidade.>
Hunt conta que acorda pela manhã para andar na praia e observar os macacos bugios se movimentarem de uma árvore para outra, enquanto os peixes perseguem uns aos outros na baía.>
"Acredito que a Costa Rica tenha a melhor qualidade de vida dentre todos os países da América Central", segundo ele. "Existe algo na energia das pessoas, locais e estrangeiros, que torna este país muito especial.">
Para ter uma ideia da felicidade reinante na Costa Rica, ele recomenda se sentar em um café e iniciar uma conversa, ou passear pelos quilômetros de trilhas do país.>
"Queremos que as pessoas observem como este lugar é realmente tranquilo e pacífico", conclui Hunt.>
Em quinto lugar este ano, a Suécia flutuou entre o quarto e o décimo ao longo da última década. Ela ocupa o sétimo lugar global em expectativa de vida saudável e o quinto em baixa percepção da corrupção.>
Sua presença nas primeiras posições reflete o que os moradores descrevem como equilíbrio entre a vida urbana progressista e o fácil acesso à natureza.>
"Uma das principais razões que levam a Suécia a ter altas avaliações de felicidade com tanta frequência é porque somos um país pequeno" explica o professor de bem-estar, prosperidade e felicidade Micael Dahlen, da Escola de Economia da capital sueca, Estocolmo.>
"As distâncias são curtas, entre as pessoas, entre as cidades e a natureza. Aprendemos a confiar e depender uns dos outros, compartilhar e valorizar o que temos, conviver com a natureza e receber bem novas ideias e pessoas.">
Um detalhe cultural captura o aspecto igualitário do país: o uso universal do pronome informal du ("você"), independentemente da posição.>
"Não importa quem você seja — um astro do pop, laureado com o Nobel, o primeiro-ministro do país ou um professor de felicidade como eu. Você é simplesmente 'você', du", explica Dahlen.>
Sua organização firmou recentemente parceria com o governo da capital, para lançar o Índice de Bem-Estar de Estocolmo, garantindo que o bem-estar seja avaliado e desenvolvido ao lado do crescimento econômico.>
"Adoro as pessoas e sua gentileza, a vida mais lenta, a beleza natural, as paisagens e a sensação de que tomei uma boa decisão para o meu futuro e para o futuro dos meus filhos", conta Karolina Pikus. Ela se mudou da Polônia para a Suécia, onde escreve o blog LikeSweden.com.>
Pikus mora atualmente em Gotemburgo, a segunda maior cidade do país. Ali, ela gosta principalmente de poder nadar no mar, visitar um lago e andar na floresta, tudo no mesmo dia, graças às boas conexões do transporte público.>
Os moradores locais recomendam visitar a Suécia no verão, especialmente os que vêm pela primeira vez.>
No meio do verão, os visitantes podem dançar canções tradicionais, comer jordgubbstårta (bolo de morango) e mergulhar nas longas noites da Escandinávia.>
Em Estocolmo, Dahlen sugere simplesmente caminhar.>
"Tudo em Estocolmo e nas outras cidades pode ser visitado a pé e você consegue esbarrar em qualquer pessoa", ela conta. E o arquipélago fica a pouca distância de barco e "realmente vale a pena visitar".>
Mas o ponto de entrada mais simples é fika, se sentar para tomar um café com pão doce de canela e acompanhar o ritmo das ruas.>
"Para mim, esta é uma das melhores formas de compreender a Suécia", segundo Pikus. "Reduzir a velocidade, respirar fundo e aproveitar o momento.">
1. Finlândia>
2. Islândia>
3. Dinamarca >
4. Costa Rica>
5. Suécia>
6. Noruega>
7. Holanda>
8. Israel>
9. Luxemburgo>
10. Suíça>
O Brasil ocupa a 32ª posição.>
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.>
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