Publicado em 30 de março de 2026 às 10:33
Casas de tijolos de vários andares, ruas uniformes e um sistema de drenagem avançado, com vasos sanitários com descarga. Parece familiar?>
Isso pode parecer uma cidade moderna, mas a descrição é de centros urbanos da antiga civilização do Vale do Indo, que existiu há milhares de anos.>
Acredita-se que essa civilização era altamente sofisticada e existiu ao mesmo tempo que o antigo Egito e a Mesopotâmia, mas, ainda assim, sabemos relativamente pouco sobre ela.>
Esse mistério, segundo especialistas, se deve em parte à sua escrita ainda não decifrada, além do fato de que sua sociedade pode ter sido mais igualitária do que outras da época.>
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A fase mais desenvolvida da civilização do Vale do Indo existiu entre 2600 a.C. e 1900 a.C., embora o seu desenvolvimento tenha começado muito antes, por volta de 4000 a.C., segundo o pesquisador Sangaralingam Ramesh, da Universidade de Oxford e da University College London (UCL), no Reino Unido.>
Ela se concentrava ao longo do rio Indo, no que hoje corresponde ao Paquistão e à Índia. Era formada por comunidades agrícolas em vilarejos, além de mais de 1.400 cidades e povoados, sendo os maiores Harappa e Mohenjo-daro.>
Era maior do que o Antigo Egito e a Mesopotâmia, com cerca de 1 milhão de habitantes distribuídos em 80 mil assentamentos, segundo Ramesh.>
E são considerados extraordinárias por vários motivos.>
O Vale do Indo foi uma das primeiras civilizações a construir moradias de tijolo, inclusive com tamanhos padronizados, segundo Ramesh.>
"As cidades eram organizadas em ângulos retos, com ruas uniformes e perpendiculares", afirma. "Havia também poços, as casas tinham latrinas… um sistema de esgoto 2.000 anos antes dos romanos.">
Esse sistema de esgoto, combinado com a presença de áreas de banhos escavados, indica que a civilização tinha consciência sobre doenças e "valorizava a limpeza", diz Ramesh.>
A densidade das áreas urbanas também permitia a organização de cadeias de abastecimento, o que, por sua vez, favorecia o comércio.>
"Eles comerciavam com a antiga Mesopotâmia, especialmente em matérias-primas como madeira, contas, cobre, ouro e também tecidos de algodão", explica Ramesh.>
Ramesh afirma que a organização das áreas urbanas também revela outro aspecto.>
"Isso é evidência de que havia uma autoridade cívica bem estruturada… responsável por manter a infraestrutura das cidades e dos assentamentos", diz o pesquisador. >
"Era uma forma de governança mais sofisticada, mais coletiva do que centralizada, sem evidências de palácios ou de uma nobreza.">
Segundo Ramesh, isso diferencia a civilização do Vale do Indo de outras sociedades comparáveis.>
"A evidência arqueológica aponta para uma forma de governança menos centrada em governantes ostentosos do que no Egito ou na Mesopotâmia, onde faraós e instituições palacianas e templárias são inconfundíveis", afirma.>
"Nessas regiões, a autoridade era centralizada e altamente visível por meio de construções monumentais, textos burocráticos e demonstrações de poder real.">
Há evidências de que existia alguma hierarquia social no Vale do Indo, mas ela é menos evidente do que em outras sociedades da época.>
"A estratificação social é mais fácil de identificar no Egito e na Mesopotâmia… no Vale do Indo, há variações no tamanho das casas, mas, em geral, são mais sutis", diz Ramesh.>
E, embora arqueólogos tenham encontrado alguns esqueletos com sinais de trauma, alguns pesquisadores consideram que a sociedade era mais pacífica do que outras.>
"Há pouca iconografia inequívoca de guerra, relativamente poucos contextos de elite ricos em armas, e algumas amostras de esqueletos mostram taxas menores de trauma craniano do que em partes do antigo Oriente Próximo", afirma o pesquisador.>
Mas ele ressalta que isso não significa que não houvesse violência; a falta de evidências pode ser resultado de viés de preservação — que se dá porque certos itens (como conchas duras ou ossos) têm maior probabilidade de serem preservados do que outros (como tecidos moles).>
"Se uma sociedade não registra a guerra em monumentos duráveis ou textos, ou se esses materiais não sobrevivem, observadores posteriores podem acabar com um 'sinal' mais silencioso de conflito, mesmo que a violência tenha existido", diz Ramesh.>
Mas ainda há muito que não sabemos sobre a civilização do Vale do Indo.>
Ramesh afirma que isso se deve, em parte, ao fato de grande parte dos sítios ainda não ter sido escavada.>
"Ainda estão sendo encontrados locais no oeste da Índia, e a civilização também se estendia até o Afeganistão, onde, devido à situação atual, pouca escavação pode ser realizada", diz o pesquisador.>
Isso também pode estar relacionado aos materiais e métodos de construção utilizados.>
"O Egito e a Mesopotâmia deixaram monumentos duráveis em pedra… o Vale do Indo construiu principalmente com tijolos de barro e tijolos cozidos", afirma Ramesh.>
"Sem grandes templos de pedra, palácios ou túmulos reais… o Estado do Vale do Indo é mais difícil de reconstruir.">
Mas há outro fator: ao contrário da escrita cuneiforme — um dos primeiros sistemas de escrita da antiga Mesopotâmia —, ainda não conseguimos decifrar a escrita do Vale do Indo.>
Ela foi encontrada em relevos de sinetes ou selos em sítios do Vale do Indo e é "a escrita mais decifrada que não foi decifrada", brinca a pesquisadora Nisha Yadav, do Tata Institute of Fundamental Research, em Mumbai, na Índia.>
"A cada 10 dias, mais ou menos, recebo um e-mail dizendo: 'Ok, eu decifrei a escrita do Indo'", afirmou.>
Mas, até agora, nenhuma interpretação obteve consenso científico.>
Yadav diz que decifrar a escrita é difícil porque ela é muito breve, geralmente com apenas cinco a 14 símbolos por selo, e, até hoje, não foi encontrado um equivalente à Pedra de Roseta. A Pedra de Roseta traz um decreto inscrito em três sistemas de escrita — hieróglifo egípcio, demótico egípcio e grego clássico —, o que foi crucial para decifrar os hieróglifos.>
Mas sua própria pesquisa, que utiliza modelagem computacional para identificar padrões nos símbolos, encontrou evidências de sintaxe — regras que organizam a estrutura das frases — e uma "lógica subjacente" na escrita.>
"Se conseguíssemos lê-la… seria como uma única chave abrindo portas", disse. "E, por trás de cada porta, viria uma avalanche de conhecimento, que nos revelaria aspectos muito importantes da civilização.">
Segundo Yadav, a escrita pode oferecer pistas sobre as crenças e a visão de mundo dessa sociedade, além de lançar mais luz sobre seu comércio e o papel dos selos.>
Uma das principais teorias para o declínio da civilização do Vale do Indo é a mudança ambiental.>
"Os sítios começaram a ser abandonados por volta de 1900 a.C., e arqueólogos e especialistas em clima atribuem isso a uma alteração nas monções", diz Ramesh.>
Ele afirma que escavações em Mohenjo-daro também encontraram evidências de que a população tentava mitigar o impacto de inundações.>
Ramesh acredita que compreender esse processo pode trazer implicações para as sociedades atuais, já que, se as geleiras do Himalaia derreterem mais rapidamente hoje, a história pode se repetir.>
Segundo ele, o estilo de governança da civilização do Vale do Indo — baseado em consenso e que permitia um pensamento mais voltado ao longo prazo — não foi suficiente para salvá-los, mas pode ser para as sociedades modernas.>
"Eles não tinham a tecnologia para entender exatamente o que estava acontecendo", afirmou.>
"Mas nós temos essa capacidade tecnológica — de usar a tecnologia de forma mais consciente — para garantir que nossa civilização se sustente.">
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