Quando o árbitro apitou o final da partida no Estádio de Atlanta, no dia 15 de junho, todos os olhares se voltaram para um único jogador: o goleiro Vozinha, da seleção de Cabo Verde.
Seu rosto estava coberto de lágrimas, devido à magnitude da conquista: em uma partida que ficará para a história, sua seleção, estreante em Mundiais, empatou em 0x0 com a atual campeã da Europa, a Espanha.
As tribunas deliraram com a comemoração dos torcedores cabo-verdianos. Eles apoiaram sua seleção por 90 minutos que pareceram uma eternidade. E, agora, eles comemoravam se abraçando, dançando e saboreando o resultado.
No campo de jogo, os atletas corriam uns em direção aos outros, com um entusiasmo contagiante. Os próprios espectadores de outros países foram tomados pela emoção e muitos deles também comemoraram ao lado de Cabo Verde.
Mas o herói nacional foi o veterano goleiro Josimar José Évora Dias, o Vozinha. Eleito o melhor jogador da partida, ele foi o protagonista do espetáculo.
No jogo da sua vida, ele conseguiu manter o heroico placar de 0x0 frente à Espanha, uma das seleções favoritas para a conquista da Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 2026.
"Chorei porque fui criado pelos meus avós", declarou Vozinha, de 40 anos. "Infelizmente, eles não estavam aqui, pois morreram há alguns anos. Eles eram tudo para mim, tudo na minha vida."
"Chorei também pela minha mãe. Ela não conseguiu vir por causa do visto. Devido ao dinheiro que precisávamos pagar para o trâmite, não conseguimos a tempo. Eu gostaria que ela estivesse aqui", lamentou o goleiro.
Ana Cândida Évora, a mãe do goleiro Vozinha, estará presente no estádio em Miami, nos Estados Unidos, para ver o filho jogar neste domingo (21/6) contra o Uruguai.
Ela confirmou a viagem aos repórteres da BBC em São Vicente (Cabo Verde). "Estou muito feliz", disse ela.
"Está acontecendo muito rápido, mas estou muito feliz, assim mesmo. Vou ver meu filho jogar na Copa do Mundo, se Deus quiser."
"Estarei lá para torcer por ele, vou levar força e coragem. Vou dar um abraço nele depois do jogo."
Um funcionário do Departamento de Estado americano confirmou posteriormente que "nossa equipe de vistos na Praia [capital de Cabo Verde] está em contato direto com ela, fornecendo os serviços necessários".
Cabo Verde é um dos cinco países participantes da Copa do Mundo cujos torcedores precisam pagar uma caução de até US$ 15 mil (cerca de R$ 77,5 mil) para obter o visto de entrada, por exigência do governo americano. Mas os portadores de ingressos para os jogos foram excluídos desta regra em maio passado.
Para Vozinha, a principal arma de Cabo Verde é a união.
"Não importa se o jogador chegou hoje, ou se joga há 10 ou 15 anos, a forma como tratamos nossa família é a nossa maior fortaleza", declarou ele.
"Todos pensaram que nós viríamos aqui para passear no Mundial. Mas não. Sempre respeitamos as equipes porque é a nossa primeira vez, mas estamos aqui para competir e lutar pelo nosso país."
'Era o melhor, mas era baixinho'
Para Vozinha, isso é um sonho de toda a vida que se tornou realidade.
O goleiro cabo-verdiano passou a carreira buscando o objetivo de jogar na Copa do Mundo. E, quando a oportunidade finalmente chegou, o feito foi histórico.
Com 40 anos e 12 dias de idade, ele se tornou o jogador mais velho de uma seleção estreante em Copas do Mundo, ultrapassando o recorde estabelecido poucos dias antes por Eloy Room, de Curaçao.
O único jogador mais velho que Vozinha a estrear em uma Copa do Mundo foi outro goleiro, o egípcio Essam El Hadary. É uma marca incrível para uma carreira definida pela perseverança.
"Comecei a jogar como profissional aos 25 anos, em 2012", conta Vozinha. "Foi um pouco tarde para alguém como eu."
"Eu pensei em deixar a seleção, mas decidi continuar porque tinha este sonho", prossegue o goleiro.
"O desempenho é para todos. Sou o homem do jogo, mas este prêmio é para todos os meus colegas, pois, sem eles, nada é possível. Agora, é continuar a trabalhar por Cabo Verde e para o povo."
País de língua oficial portuguesa, Cabo Verde fica a cerca de 600 km da costa oeste da África. É um belo arquipélago, mas isolado, especialmente para quem almeja ser jogador de futebol profissional.
"Eu era um dos melhores goleiros da ilha, mas era baixinho", recordou Vozinha, em entrevista à BBC. "Mesmo jogando bem, não me selecionavam devido à minha altura."
Como muitos jogadores antes dele, Vozinha se mudou para Portugal em busca de uma oportunidade. Cabo Verde foi colônia portuguesa até 1975.
Sua decisão foi o início de uma carreira profissional que o levou a Angola, Eslováquia, Moldova e Chipre.
Atualmente, Vozinha joga no Chaves, da segunda divisão portuguesa. Seu passe vale US$ 60 mil (cerca de R$ 310 mil).
O próprio nome do goleiro traz um trecho da história do futebol. Afinal, ele nasceu durante a Copa do Mundo de 1986, no México.
Seu pai queria batizá-lo como Valdano, em homenagem ao grande Jorge Valdano, do Real Madri e campeão do mundo pela Argentina naquele ano. Mas as autoridades cabo-verdianas não permitiram.
Por isso, ele recebeu o nome de Josimar, o lateral-direito do Botafogo que disputou a Copa de 1986 pela seleção brasileira.
Quatro décadas se passaram e, em outro Mundial, Vozinha fez história por seus próprios méritos.
'Absolutamente brilhante'
Incentivado por milhares de torcedores cabo-verdianos, Vozinha permaneceu firme frente ao implacável ataque espanhol. Foram sete defesas cruciais ao longo do jogo.
O único goleiro com mais de 40 anos que praticou mais defesas em uma partida de Copa do Mundo foi o norte-irlandês Pat Jennings. Ele completou 41 anos no mesmo dia da partida da Irlanda do Norte contra o Brasil pela fase de grupos da Copa de 1986.
Jennings fez 10 defesas naquele jogo, mas seu desempenho não impediu a seleção brasileira de vencer a partida por 3x0, com dois gols de Careca e um, coincidentemente, de Josimar.
Os torcedores presentes em Atlanta comemoraram cada defesa de Vozinha como se fosse um gol de Cabo Verde.
O goleiro também se tornou uma sensação viral fora do estádio. Vozinha passou de 50 mil seguidores no Instagram para mais de 14 milhões, depois que a CazéTV incentivou seus espectadores brasileiros a seguirem o goleiro.
"Isso é louco", comentou ele quando tomou conhecimento, em entrevista depois da partida.
O ex-atacante escocês Pat Nevin, comentarista do Mundial para a BBC, declarou que o goleiro "iluminou a partida".
"Ele foi absolutamente brilhante", segundo Nevin. "E fez isso com 40 anos. Todas as câmeras estão sobre ele, todos os seus companheiros apontam para ele. É um belo momento."
O comentarista Lee Dixon, da rede britânica ITV, foi além:
"É absolutamente fantástico. Uma atuação brilhante. Eles merecem este ponto acima de tudo e a Espanha quase não merece nenhum. Saíram de campo decepcionados, mas a noite é de Cabo Verde."
"Que atuação de cada um deles: os centrais, os laterais, esse homem aí [Vozinha], chorando... eu também estou quase chorando."
Foi um resultado de imensa importância para o terceiro menor país a se classificar para o Mundial, com pouco mais de meio milhão de habitantes — o equivalente à população de Florianópolis (SC).
No estádio, seus torcedores estiveram à altura do acontecimento. Vestidos de azul e portando suas bandeiras azuis, vermelhas e brancas, eles cantaram e dançaram durante toda a partida, empurrando sua equipe a cada momento difícil e conquistando os espectadores de outros países.
A história de Cabo Verde se transformou na história de todos. Uma pequena nação insular conquistou a imaginação do mundo do futebol.
* Com informações de Paul Njie e Michel Mvondo, repórteres da BBC em São Vicente (Cabo Verde), e de Tom Grundy, da BBC Sport.
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