Publicado em 6 de março de 2026 às 07:08
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça se tornou o novo pesadelo do mundo político, após acumular as relatorias de duas investigações com potencial para atingir altas autoridades da República — os inquéritos que apuram fraudes no Banco Master e no INSS.>
Se o ministro Alexandre de Moraes se tornou temido após conduzir inquéritos controversos que atingiram principalmente o campo bolsonarista, Mendonça tem em suas mãos investigações que podem alcançar lideranças de diferentes espectros políticos — e até mesmo alguns de seus pares no STF, como o próprio Moraes e Dias Toffoli, devido à supostas ligações desses ministros com o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro.>
"Ele tem todas as armas na mão, resta saber se vai querer usá-las", disse o deputado Kim Kataguiri, ao ser questionado pela BBC News Brasil se Mendonça já pode ser considerado mais poderoso que seu colega.>
Daniel Vorcaro, dono do Master, foi preso preventivamente na quarta-feira (4/2), por ordem de Mendonça, três semanas após o ministro ser sorteado para assumir o inquérito, após Toffoli se afastar do caso.>
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Em Brasília, especula-se que uma prisão prolongada poderia levar o banqueiro a fechar um acordo de delação premiada.>
Segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil com interlocução com o presidente do STF, Edson Fachin, há expectativa de que a atuação de Mendonça possa melhorar o forte desgaste causado na imagem do Supremo devido às supostas conexões de Toffoli e Moraes. Por outro lado, há temores do abalo que a Corte pode sofrer com novas revelações envolvendo ministros.>
Toffoli, primeiro relator do inquérito do Banco Master, foi constrangido a deixar o caso em reunião conduzida por Fachin com todos os ministros do STF, após ser revelado que um fundo ligado ao Master comprou parte de um resort no Paraná que pertencia a uma empresa de Toffoli e dois irmãos do ministro.>
Já Moraes virou alvo de críticas após sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moares, ter mantido um contrato de R$ 129 milhões com Master. Agora, novas informações vazadas da investigação ampliaram os indícios de conexão entre Moraes e Vorcaro.>
Amostras do potencial danoso de uma eventual delação premiada do banqueiro foram reveladas a partir da noite de quarta-feira (4/2), após parte do conteúdo aprendido no celular de Vorcaro ser divulgado a jornalistas.>
Segundo o jornal O Globo, Vorcaro falou com Moraes no dia de sua primeira prisão, no ano passado. Ele teria enviado mensagem ao ministro às 7h19m do dia 17 de novembro dizendo: "Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?".>
De acordo com o jornal, não é possível saber a resposta de Moraes porque ele enviou mensagens de visualização única, que depois se apagam. Procurado pelo O Globo, o ministro negou ter se comunicado com o banqueiro.>
Além disso, jornalistas tiveram acesso à parte do material apreendido na investigação do Banco Master que Mendonça autorizou que fosse compartilhado com a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que investiga no Congresso as fraudes no pagamento de aposentados e pensionistas.>
A decisão autorizava apenas o envio de conteúdo relacionado ao INSS, mas chegaram à CPMI conversas mais amplas, que acabaram vazadas. A BBC News Brasil também obteve acesso ao material.>
Esse material mostra o banqueiro relatando encontros com Moraes em trocas de mensagens com sua namorada, Martha Graeff.>
Essas conversas também mostram a proximidade de Vorcaro com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022).>
Nas mensagens à namorada, Nogueira é descrito por Vorcaro como "um dos meus grandes amigos de vida" e é celebrado por apresentar no Congresso uma proposta legislativa que beneficiaria o Master, mas que acabou não sendo aprovada.>
Por outro lado, decisões de Mendonça também estão dando dor de cabeça para o Palácio do Planalto, desde que um dos filhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva virou alvo do inquérito que apura as fraudes do INSS.>
Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, é suspeito de ligação com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o "careca do INSS", investigado como um dos principais operadores do esquema de fraude que desviou recursos de aposentados e pensionistas.>
Segundo o portal G1, a quebra de sigilo fiscal e bancário do filho de Lula já foi autorizada por Mendonça. O caso está em sigilo e o Supremo não divulgou essa decisão.>
Além disso, a CPMI do INSS também aprovou essa quebra de sigilo no dia 26 de fevereiro. Uma semana depois, a defesa de Lulinha conseguiu anular esse ato no STF, com uma decisão do ministro Flávio Dino nesta quinta-feira (5/2), após o precedente aberto pela empresária Roberta Luchsinger. Ela conseguiu, no dia anterior, uma decisão de Dino suspendendo a abertura do seu sigilo fiscal e bancário.>
Dino considerou que a decisão não teve "fundamentação concreta", já que a comissão aprovou em bloco 87 requerimentos com medidas para a investigação. No dia seguinte, ele anulou todas as quebras decretadas na votação em bloco, a pedido da defesa da Lulinha. >
"Por óbvio, esclareço que a decisão de ontem e a presente decisão não têm qualquer relação e não invalidam quebras de sigilo efetuadas na investigação da Polícia Federal, sob a supervisão do STF, em procedimentos próprios", ressaltou Dino ao aceitar o recurso de Lulinha, em referência às decisões de Mendonça.>
Luchsinger é amiga do filho de Lula e também é investigada por suposta ligação com o "careca do INSS". Segundo informações reveladas pela imprensa brasileira e que a BBC News Brasil não confirmou oficialmente, ela também teria intermediado pagamentos para Lulinha. Ele nega qualquer ilegalidade.>
Antes de sua defesa conseguir anular a quebra da CPMI no STF, informações vazaram na quinta-feira (5/2).>
Segundo dados da CPMI revelados pelo portal Metrópoles e confirmados pela BBC News Brasil, o filho de Lula movimentou, em transações bancárias, R$ 19,5 milhões em quatro anos — de janeiro de 2022 a janeiro deste ano, foram 9,774 milhões em crédito (que entraram na conta) e 9,758 milhões em débito (que saíram).>
Ou pode ser tb - Sugiro assim - Segundo dados da CPMI revelados pelo portal Metrópoles e confirmados pela BBC News Brasil, o filho de Lula movimentou R$ 19,5 milhões em quatro anos em transacoes bancárias>
A defesa de Lulinha reagiu ao vazamento por meio de uma nota, em que diz que as fontes de renda são "legítimas" e que é "gritante a ausência de menção a qualquer elemento ligado às fraudes do INSS, o alegado objeto investigativo da quebra de sigilo".>
Questionado sobre o assunto em dezembro, Lula declarou que "todas as pessoas envolvidas" no esquema de desconto ilegal de benefícios do INSS seriam investigadas.>
Para o cientista político Lucas de Aragão, da consultoria Arko Advice, os reflexos das duas investigações no Congresso e no Poder Executivo dão muitos poderes ao ministro.>
"André Mendonça hoje talvez seja a figura mais relevante no processo político", afirma>
"Institucionalmente, ele fica muito fortalecido porque é relator de dois casos muito importantes. Ou seja, dá um poder formal a ele, um poder institucional", reforça.>
Aragão, porém, não subestima a força de Moraes, após sua atuação à frente de inquéritos que culminaram na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. >
"O Alexandre [de Moraes] ainda tem um poder por conta da relação dele com alguns outros ministros, do papel dele dos últimos anos, e da defesa que a Corte fez dele ao longo desses últimos anos", ressaltou.>
Assim como o inquérito do Banco Master, a investigação das fraudes no INSS também chegou às mãos de Mendonça após passar pelo gabinete de Toffoli.>
O caso foi enviado a ele inicialmente, porque o ministro já era relator de uma ação sobre o acordo de ressarcimento dos aposentados e pensionistas prejudicados pelos desvios.>
É comum que casos similares sejam distribuídos ao mesmo gabinete. No entanto, a Procuradoria-Geral da República (PGR) questionou o envio do inquérito criminal para Toffoli, já que o processo que estava com ele era uma ação civil.>
O então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, atendeu ao pedido da PGR e determinou a redistribuição do caso, que acabou sorteado para Mendonça.>
Em entrevista à BBC News Brasil em fevereiro, o jurista Oscar Vilhena Vieira, professor da FGV Direito SP, disse não ser correto considerar Mendonça como um ministro mais independente do mundo político que Toffoli.>
O novo relator do caso Master chegou ao STF em 2021, nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro, após atuar como ministro da Justiça de seu governo.>
Assim como todos os ministros da Corte, teve que fazer campanha no Senado por sua aprovação.>
"É um ministro discreto, mas é um ministro que, evidentemente, tem os seus laços. E agora eu acho que ele tem condição de provar se ele é um ministro imparcial ou não", disse Vieira.>
*Com reportagem de Rute Costa. >
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