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Haiti: Tudo o que você precisa saber sobre o próximo adversário do Brasil na Copa

Esta é apenas a segunda Copa do Mundo da seleção haitiana, que chega ao torneio em meio à violência e à pobreza em casa.

Publicado em 14 de Junho de 2026 às 08:35

BBC News Brasil

Publicado em 

14 jun 2026 às 08:35
Imagem BBC Brasil
O Haiti se consolidou como uma das nações mais respeitadas do Caribe no futebol Crédito: Getty Images
O próximo jogo do Brasil na Copa do Mundo está marcado para a próxima sexta-feira, 19, às 21h30 (do horário Brasília). O segundo adversário da seleção brasileira na fase grupos é o Haiti.
O time caribenho estreiou no torneio no sábado (13/06), em uma partida contra a Escócia que acabou em 1x0 para o time europeu.
Pouco antes, também no sábado, o Brasil empatou com o Marrocos em seu primeiro jogo da Copa de 2026.
Mas afinal, o que se pode esperar do próximo adversário brasileiro no torneio?

Segunda classificação para uma Copa

O Haiti é considerado a nação mais instável das Américas – e ao chegar a uma Copa do Mundo, seus jogadores trazem consigo uma história de vida notável.
O primeiro mundial para qual o país se classificou foi o de 1974, quando o time desembarcou na Alemanha Ocidental com membros da polícia secreta do então governo autoritário de Jean-Claude, o "Baby Doc", inflitrados entre sua comissão técnica.
Na volta para casa, a seleção haitiana tinha um jogador a menos – o zagueiro Ernst Jean-Joseph falhou em um teste antidoping após o jogo de estreia e, segundo relatos generalizados, foi deportado à força para o Haiti pelo regime.
Meio século depois, na Copa de 2026, o time conquistou sua segunda classificação em meio a uma crise humanitária - o país vive uma situação de miséria generalizada e violência, com gangues armadas dominando diversos territórios.
O Haiti não pode jogar partidas em casa, então a classificação foi uma conquista incrível. O técnico Sebastian Migne nunca pisou em solo haitiano, mas vasculhou as ligas europeias em busca de jogadores com ascendência haitiana.
O sorteio da Copa do Mundo, no entanto, não foi nada favorável para a seleção. Como diz o ditado no Haiti: "Os problemas nunca acabam".

Quais são os pontos fortes do Haiti?

Contratações inteligentes trouxeram qualidade tanto para o ataque quanto para o meio-campo.
O time de Migne contra-ataca com eficiência e velocidade, com os novos jogadores brilhando na vitória por 4 a 0 sobre a Nova Zelândia em um amistoso em 2 de junho.

E as fraquezas?

O Haiti tem jogado com uma formação aventureira no esquema 4-2-3-1, que os deixa vulneráveis ​​na defesa.
Dada a natureza de seus adversários no Grupo C, espera-se ver um 4-4-2 mais cauteloso – recuando, protegendo a linha defensiva e contra-atacando.
O goleiro Johny Placide é uma figura importante, mas retornou recentemente de uma cirurgia no joelho.

Jogadores para ficar de olho

Wilson Isidor marcou em sua primeira partida como titular pela seleção, em março. O atacante francês do time inglês Sunderland mudou de nacionalidade esportiva para o Haiti após ser pressionado por torcedores nas redes sociais.
O ex-goleiro do Oldham, da Inglaterra, Jonny Placide, também nasceu na França, mas no Haiti ele é a figura emblemática da equipe.
Jean-Ricner Bellegarde, que também joga pelo futebol inglês, mas no Wolves, teve um impacto transformador no Haiti desde sua estreia no ano passado, tanto destruindo quanto criando jogadas no meio-campo. Um ídolo instantâneo da torcida.
Imagem BBC Brasil
Wilson Isidor marcou seis gols na Premier League pelo Sunderland na última temporada Crédito: Getty Images

Quem é o técnico do Haiti?

O francês Sébastien Migne comandou as seleções do Congo, Quênia e Guiné Equatorial, e foi auxiliar de Rigobert Song em Camarões, em 2022. A seleção de Camarões não chegou às oitavas de final, mas venceu o Brasil, já classificado, na última rodada da fase de grupos.

Como o Haiti se classificou para a Copa?

A classificação foi definida por um jogo que teve de ser realizado a 800 quilômetros de distância, em Curaçao, para evitar a instabilidade do Haiti.
Na partida, o time venceu sobre a Nicarágua e, em casa, provocou uma onda de alegria nas ruas de bairros normalmente assolados por tiroteios e medo.

Um fato curioso

O Haiti foi obrigado a mudar o design de seu uniforme na véspera da Copa do Mundo, depois que sua camisa foi barrada por não estar em conformidade com as regras da Fifa.
As camisas exibiam uma ilustração da rebelião de 1803 que garantiu a independência do Haiti. No entanto, os regulamentos de equipamentos estabelecidos pelo órgão regulador mundial proíbem o uso de quaisquer "mensagens ou slogans políticos, religiosos ou pessoais" nos uniformes.

História e futebol

O dia 18 de novembro é um grande dia no Haiti. Primeiramente, pela revolta de escravos que derrubou o domínio colonial de Napoleão na Batalha de Vertières, em 1803, e depois pela conquista da classificação para a Copa do Mundo exatamente 222 anos depois.
O período entre esses dois momentos foi marcado por guerras, opressão e terremotos. Os tempos mais sombrios foram de 1957 a 1986, quando o Haiti foi governado pela dupla despótica de pai e filho, François e Jean-Claude Duvalier.
O primeiro haitiano a deixar sua marca na Copa do Mundo foi Joe Gaetjens – representando os EUA, ele marcou o gol da vitória na surpreendente vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra, em 1950.
Gaetjens retornou posteriormente à sua terra natal. Sua família se envolveu na resistência contra o regime e, em uma noite de 1964, ele foi sequestrado. Gaetjens nunca mais foi visto.
Em 1974, o Haiti participou de sua única Copa do Mundo anterior. Em sua estreia no torneio, eles abriram o placar antes de perderem por 3 a 1 da Itália. Mas o jogo fez o orgulho haitiano crescer.
A vergonha veio logo em seguida, quando o zagueiro Ernst Jean-Joseph falhou em um teste antidoping pós-jogo, foi retirado do hotel da equipe e enviado de volta ao Haiti.
Seus companheiros de equipe perderam no jogo seguinte por 7 a 0 para a Polônia e, depois que ele ligou para dizer que estava bem, por 4 a 1 para a Argentina.
Imagem BBC Brasil
A segurança foi reforçada quando o Brasil visitou o Haiti com a taça da Copa do Mundo em 2004 Crédito: Getty Images

Um amor pelo Brasil

Com uma única participação anterior em Copas do Mundo, muitos dos torcedores haitianos escolheram, nas últimas décadas, o Brasil como time do coração.
Essa paixão aumentou ainda mais nas últimas décadas devido ao papel fundamental do governo brasileiro no apoio a missões de paz, ajuda humanitária e imigração.
Em 2004, a seleção brasileira, então campeã mundial, desembarcou no Haiti para um amistoso. Em meio aos conflitos que assolavam o país, a partida paralisou a capital, Porto Príncipe.
Por dois dias, a violência cessou.
"Tem certeza de que os brasileiros estão jogando no Haiti? Parece que eles estão em casa", recorda o jornalista haitiano Pierre Richard Midy de ouvir de seus amigos estrangeiros .
E parecia mesmo que a seleção estava no Brasil. Agitando bandeiras brasileiras, vestindo camisetas amarelas e verdes e com o rosto pintado, milhares de haitianos lotaram as ruas e subiram em árvores para ter uma visão melhor de seus ídolos, incluindo Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos.
Este ano, os haitianos se preparam para a rara oportunidade não só de apoiar sua própria seleção na Copa do Mundo, mas também de jogar novamente contra o Brasil.
No país caribenho, as ruas foram limpas e bandeiras haitianas hasteadas com orgulho, enquanto os torcedores encontram maneiras criativas de assistir aos jogos em um país que sofre com a escassez crônica de energia elétrica.
Mais uma vez, para eles, o futebol representa esperança, não placares.
*Com informações de Mani Djazmi, da BBC Sport

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