Publicado em 19 de março de 2026 às 14:32
Kim Jong-un deve estar tendo pensamentos complexos depois que os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra contra o Irã.>
A Coreia do Norte condenou rapidamente os ataques como uma "guerra de agressão injustificável". Afinal, o Irã e a Coreia do Norte mantêm desde 1979 uma "aliança de sangue antiamericana" e, posteriormente, construíram uma parceria no desenvolvimento de mísseis.>
O Irã também é o principal destino das exportações de armas norte-coreanas, segundo um ex-diplomata da Coreia do Norte ouvido pela BBC sob condição de anonimato.>
No entanto, analistas apontam dois fatores que colocam a Coreia do Norte em uma posição muito mais vantajosa do que o Irã: seu arsenal nuclear e o apoio da China.>
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Em 2003, durante a Guerra do Iraque, o então líder Kim Jong-il desapareceu por 50 dias. Segundo a inteligência sul-coreana, ele passou a maior parte desse período escondido em um bunker no complexo de Samjiyon, a cerca de 600 km da capital, Pyongyang.>
Em contraste, seu filho e sucessor, Kim Jong-un, não evitou a exposição pública, mesmo após o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, ter sido morto nos ataques.>
Essa resposta diferente, de certa forma, reflete a crescente confiança da Coreia do Norte em sua própria força, afirma Jang Yong-seok, ex-diretor da equipe de análise da Coreia do Norte do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul.>
A Coreia do Norte é, na prática, um Estado nuclear — e até o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em 2025 que o país era "uma espécie de potência nuclear", com "muitas armas nucleares".>
Segundo um relatório de 2025 do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), a Coreia do Norte possui cerca de 50 ogivas nucleares e material suficiente para produzir outras 40. Em julho de 2024, a Coreia do Sul alertou que a Coreia do Norte estava nos "estágios finais" de desenvolvimento de uma arma nuclear tática, de menor alcance e destinada ao uso em campo de batalha.>
No ano passado, o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, também afirmou que a Coreia do Norte estava próxima de desenvolver um míssil balístico intercontinental capaz de atingir o território continental dos EUA com uma ogiva nuclear — embora ainda haja dúvidas sobre o sistema de orientação do míssil e sua capacidade de proteger a ogiva durante a reentrada na atmosfera.>
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou que o Irã possui "um programa nuclear muito amplo e ambicioso", mas disse não ter visto evidências de um "programa estruturado para fabricar armas nucleares".>
Após o acordo nuclear histórico de 2015, o Irã concordou em impor restrições adicionais ao seu programa de enriquecimento de urânio. As inspeções da AIEA também foram ampliadas, o que ajudou a desacelerar o programa nuclear iraniano, afirma Jang Ji-hyang, especialista em Oriente Médio do Instituto Asan de Estudos Políticos.>
Mas, após a retirada unilateral de Trump do acordo, em 2018, o Irã passou a limitar o acesso da AIEA às suas instalações nucleares. A agência afirmou, em um relatório confidencial, que o país interrompeu toda a cooperação após a guerra com Israel em junho de 2025, segundo a agência Associated Press.>
No entanto, a Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear em 2006 e, três anos depois, expulsou todos os inspetores da AIEA. Desde então, conduziu mais cinco testes nucleares, sendo o último em 2017.>
Na época, a Coreia do Norte demonstrava interesse em se aproximar dos EUA, o que levou a dois encontros históricos entre os líderes dos dois países, em 2018 e 2019. Kim buscava o fim das sanções internacionais e ofereceu desmontar a usina nuclear de Yongbyon. Mas Trump queria mais, e as negociações acabaram fracassando.>
Hoje, a Coreia do Norte parece mais confiante. A guerra na Ucrânia aproximou o país da Rússia, que fornece cooperação econômica e militar considerada essencial, afirma Jenny Town, que lidera o programa sobre a Coreia no centro de estudos americano Stimson Center.>
Ainda assim, Trump e Kim parecem ter uma boa relação pessoal, com o presidente americano elogiando o líder norte-coreano até recentemente, no ano passado.>
Kim reconhece "oportunidades únicas ao lidar com Trump", mas não pretende "fazer concessões para reativar essa relação", diz Town.>
Mesmo assim, a Coreia do Norte não atacou diretamente Trump ao condenar a guerra no Irã. E, no congresso do partido realizado no mês passado, o país afirmou que manteria uma boa relação com os EUA se seu status fosse respeitado — deixando, na prática, a porta aberta para o diálogo.>
A geografia também joga a favor da Coreia do Norte, pois o país faz fronteira com a China, que o vê como um importante escudo contra os EUA e seu aliado, a Coreia do Sul. Além disso, caso o regime norte-coreano colapse, a China pode enfrentar um grande fluxo de refugiados.>
Por isso, historicamente, a relação entre os dois países comunistas tem sido descrita próxima "como lábios e dentes". Desde 1961, a China se comprometeu a proteger a Coreia do Norte em caso de invasão, por meio de um tratado de defesa mútua — o único desse tipo assinado pela China.>
Isso não significa que a China veja a Coreia do Norte como um aliado perfeito, já que a expansão de seu arsenal nuclear desestabiliza a região. A China pode não ver com bons olhos, também, o fortalecimento dos laços entre Pyongyang e Moscou, especialmente depois que os dois países assinaram um acordo de defesa em 2024, segundo Jang Yong-seok, pesquisador visitante da Universidade Nacional de Seul (Coreia do Sul).>
Ainda assim, ele afirma: "A Coreia do Norte tem importância estratégica para a China… E a China é muito firme em seus interesses estratégicos, e Kim Jong-un sabe disso.">
A Coreia do Norte também mantém a Coreia do Sul e o Japão como "reféns nucleares" devido à proximidade geográfica, afirma Jang, do Instituto Asan.>
As duas Coreias são separadas apenas pela zona desmilitarizada, que tem cerca de 250 km de extensão e 4 km de largura, com suas capitais distando cerca de 200 km entre si.>
Isso significa que a área metropolitana de Seul, que inclui Incheon e a província de Gyeonggi, está ao alcance direto de ataques norte-coreanos, diz Jang, ex-integrante do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul.>
"É questionável se a Coreia do Sul conseguiria interceptar mísseis como Israel, os EUA ou outros países do Oriente Médio", acrescenta.>
O Japão também está dentro do alcance direto de ataque da Coreia do Norte, que frequentemente lança mísseis no Mar do Japão durante seus testes.>
A Coreia do Sul e o Japão juntos abrigam cerca de 80 mil tropas dos EUA, enquanto aproximadamente 50 mil militares americanos estão estacionados no Oriente Médio.>
A guerra no Irã provavelmente reforçou, na visão de Kim, a percepção de que Ali Khamenei estava "desamparado por não possuir armas nucleares" e de que negociações com os EUA não garantiriam a sobrevivência do regime, afirma Ellen Kim, do centro de estudos Korea-US Economic Institute, sediado em Washington D.C. (EUA).>
Town concorda. "A Coreia do Norte pode ter sofrido muito ao longo dos anos para desenvolver sua capacidade de dissuasão nuclear, mas, em momentos como este, Kim Jong-un certamente acredita que tomou a decisão certa, sabendo que os riscos de atacar um país com armas nucleares são altos demais para serem uma opção viável.">
*Reportagem adicional e edição de Grace Tsoi e Mark Shea; foto principal de Andro Saini, da East Asia Visual Journalism; mapa: East Asia Visual Journalism.>
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