Um escândalo de corrupção que está sacudindo a eleição no Brasil. É assim que o influente jornal americano New York Times (NYT) definiu as suspeitas contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, em reportagem publicada nesta quinta-feira (24/9).
"Um escândalo explosivo que liga o ministro Moraes a um banqueiro desmoralizado no centro de um esquema de fraude bilionário mergulhou a mais alta corte do Brasil em uma crise, remodelando uma disputa presidencial acirrada a apenas algumas semanas da eleição", define a reportagem assinada por Ana Ionova, correspondente do jornal no Brasil.
Moraes é descrito pelo jornal como "figura polarizadora", enxergada por parte da população como um "herói que protegeu a democracia brasileira" ou como "vilão que empregou métodos autoritários para atingir a extrema-direita".
O jornal diz que o ministro e o Judiciário desempenharam "papel fundamental na defesa da integridade do voto e na garantia de uma transferência pacífica de poder", referindo-se à atuação no julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.
Também é ressaltado o papel do ministro "no complexo debate global sobre os limites e a fiscalização do que pode ser dito online, e atraíram a ira, bem como sanções, do presidente Trump".
"Ainda assim, em sua busca por proteger a democracia, Moraes também prendeu pessoas sem julgamento e censurou discursos online, com pouca transparência e escassas possibilidades de recurso", ponderou o jornal.
As revelações de que Moraes é possivelmente o autor de mensagens trocadas com Daniel Vorcaro, inclusive tratando sobre a prisão do banqueiro, "energizaram a direita brasileira", mobilizando apoio a Flávio Bolsonaro, segundo o jornal.
"Da noite para o dia, a revelação se tornou uma importante questão eleitoral, provocando indignação entre os brasileiros."
O escândalo, avalia o cientista político Luciano da Ros, entrevistado pela reportagem, "deu à campanha de Flávio um slogan simples": "Votar em Lula é votar em Alexandre de Moraes", mesmo que o presidente tenha tentado se distanciar do ministro e não foi o responsável por sua indicação ao STF.
O texto menciona ainda a investigação contra Flávio Bolsonaro sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Flávio pediu e recebeu dinheiro de Vorcaro. Mas, segundo a reportagem, o caso acabou "eclipsado" pela crise em que o STF se colocou.
Além das suspeitas sobre Moraes, o Corte também terá que se debruçar sobre acusações de que o ministro André Mendonça agiu com parcialidade no caso Master.
Toda a situação colocou o Supremo "no centro de uma tempestade política", diz o jornal.
O NYT repercutiu a sessão de 15 de setembro, a chamando de "dramática" e com debate "acalorado".
"Desde então, novas revelações ligaram Vorcaro a outros ministros do Supremo, incluindo o ministro que hoje supervisiona a autoridade eleitoral do país, aprofundando a crise", publicou o jornal sem mencionar o nome do ministro Kassio Nunes Marques.
Mensagens de Vorcaro reveladas pelo site Metrópoles mostraram que o banqueiro tinha um contrato que previa honorários de até R$ 427 milhões com o escritório de uma advogada apontada como integrante da chamada "Turma do KN", o que seria uma referência às iniciais do ministro.
"Com confiança pública em ruínas, especialistas temem que a corte tenha dificuldades para repelir novos ataques às instituições brasileiras, como interferência eleitoral dos Estados Unidos, desinformação alimentada por inteligência artificial ou uma contestação do resultado eleitoral caso [Flávio] Bolsonaro perca", diz o jornal.
O NYT ainda coloca a eleição brasileira em contexto na América Latina, afirmando que o pleito "poderá medir se a esquerda conseguirá conter o avanço da direita na conquista de presidências em vários países" das região.