As revelações sobre as trocas de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e um número atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), devem consolidar um ambiente de pessimismo que pode influenciar as eleições marcadas para outubro.
Essa é análise de Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria Eurasia Group, especializada em análise de risco político e geopolítico.
Com esse pessimismo prevalecendo, a tentativa do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, de se beneficiar de uma pauta positiva no Congresso pode ser anulada.
"Quando você é o governante, quer um ambiente em que possa vender o seu peixe, mostrar os programas. Quando um escândalo como esse domina as manchetes, reforça ambiente de pessimismo, da visão do eleitor de que país não está na direção correta", avalia Garman.
O governo tem a expectativa de que o Congresso, em regime de esforço concentrado antes das eleições, vote — e aprove — propostas se grande apelo popular, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala 6x1 e redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas.
Em agosto, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), destravou o andamento da proposta que havia sido aprovada pela Câmara em maio, para seguir à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ser votada nesta semana.
Outra pauta de interesse do governo é a PEC que reorganiza o sistema de segurança pública no país e também foi liberada por Alcolumbre para prosseguir no Senado. Os andamentos ocorreram após uma reaproximação de Lula com o senador.
"Era uma semana que o governo queria alardear votações importantes no Senado e tudo agora está sendo dominado pelo escândalo", diz Garman.
Segundo o analista, a frustração dentro do governo pode ser ainda maior porque, diante da revelação das mensagens entre Moraes e Vorcaro, ficou ofuscada a reportagem da revista Piauí que chegou às bancas na terça (1º/09) e afirma que os repasses do banqueiro para o filme Dark Horse foram ainda maiores do que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) havia admitido.
Mas, apesar de um cenário que pode ser ruim ao governo, Garman avalia que o escândalo não deve ter força para mudar o quadro eleitoral.
"Não é uma denúncia contra Lula. Então, não dá para colocar um peso exagerado nesse escândalo. Sem falar que Flávio Bolsonaro também tem interações com Vorcaro."
"Mas não descarto que Lula pode ser prejudicado e a margem [entre Lula e Flávio] se estreitar. Só que não é isso que vai mudar o jogo. Segue sendo uma eleição muito imprevisível", diz o diretor da Eurasia.
A avaliação da consultoria de risco político é de que Lula segue com um ligeiro favoritismo, baseado nos dois modelos em que a empresa se baseia.
Um deles avalia histórico de eleições no mundo todo nos últimos 40 anos para fazer uma avaliação entre a aprovação do presidente a 6 meses da eleição e a possibilidade de ser reeleito. Com 45% de aprovação (caso de Lula, segundo as pesquisas), o incumbente ganha em 78% das vezes.
Mas o segundo modelo joga contra o presidente ao identificar as principais preocupações do eleitor e avalia a credibilidade do candidato para resolver os problemas.
De acordo com Garman, os dois temas são segurança pública e corrupção, áreas em que Lula não "tem credibilidade" perante a opinião pública.
Um senado à direita
Apesar de o efeito na corrida presidencial não ser tão decisivo, Garman avalia que, para a eleição do Senado, a revelação de que Moraes mantinha uma relação próxima a Vorcaro pode beneficiar a direita.
O Senado é a Casa responsável por processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. São os senadores que podem abrir um processo de impeachment de ministro e, ao final, decidir pela perda do cargo.
A oposição tem colocado o impeachment de Moraes entre suas principais pautas no Senado. Já existem vários pedidos nesse sentido — e novos foram feitos nesta terça-feira por políticos de direita. A reivindicação, aliás, tem sido colocada na plataforma de vários candidatos para eleições de outubro.
Para Garman, o novo escândalo pode reforçar sentimento anti-STF na eleição legislativa.
"Ele pode dar mais gás para candidaturas à direita, e o perfil do Senado se tornar mais anti-Supremo", diz.
Outro que pode ter algum retorno positivo diante do escândalo é Augusto Cury (Avante), candidato à Presidência que tem demonstrado crescimento nas últimas pesquisas e aparece em terceiro no agregador de pesquisas da BBC News Brasil.
"Num mar de lama para todo mundo, um candidato alternativo pode ser beneficiado", avalia.
Segundo Garman, o desafio de Cury é se tornar um nome conhecido.
Nas previsões da Eurasia, a probabilidade de um candidato que não seja Flávio Bolsonaro ir ao segundo turno com Lula é de 30%.