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Do terremoto ao vodu, brasileiro se apaixonou pelo Haiti, que enfrenta o Brasil na Copa do Mundo

Werner Garbers Elias Pereira, o Neno, conheceu o país em 2010, em meio a uma tragedia, e depois se mudou para lá.

Publicado em 19 de Junho de 2026 às 10:35

BBC News Brasil

Publicado em 

19 jun 2026 às 10:35
Imagem BBC Brasil
O brasileiro Werner Garbers Elias Pereira, que vive no Haiti Crédito: Arquivo pessoal
Então aluno do curso de estudos literários da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Werner Garbers Elias Pereira, o Neno, estava especialmente animado na virada do ano 2009 para 2010. No comecinho de janeiro, ele e um grupo de estudantes iriam para o Haiti.
Parte de um projeto acadêmico, a ideia era passar três meses no país caribenho de pouco mais de 11 milhões de habitantes. "Considerávamos o Haiti um espaço importante para que alunos de graduação criássemos nossas ferramentas de pesquisa. Meu plano era conhecer mais a literatura haitiana e o [idioma] crioulo haitiano. E depois fazer uma apresentação disso no Brasil", recorda ele.
Só que veio o dia 12 de janeiro. Naquela fatídica terça-feira, dois acontecimentos muito intensos, separados por horas, mudaram completamente o projeto de Pereira. E selariam o futuro dele — com um vínculo indissociável do povo e da história haitianos.
Naquela data ele tinha uma entrevista agendada com um grande intelectual, o escritor, cientista político e sociólogo Jean Anil Louis Juste — pesquisador que havia, três anos antes, defendido seu doutorado na Universidade Federal de Pernambuco.
Quando Pereira estava a caminho da casa de Juste, em Porto Príncipe, capital haitiana, deparou-se com uma grande movimentação popular. Uma tragédia, soube ele. Em um crime até hoje não esclarecido, o intelectual foi morto a tiros por um grupo de homens — que fugiu em motocicletas. "Ele denunciava muitos crimes envolvendo corrupção", lembra o brasileiro.
Horas depois, uma nova ocorrência decretaria o término daquele início de pesquisa acadêmica. Os ponteiros marcavam quase 17h quando um catastrófico terremoto, com epicentro a 25 quilômetros da capital haitiana, devastou parte considerável do país. Calcula-se que tenham sido 300 mil mortos e ao menos 1,5 milhão de flagelados.
Imagem BBC Brasil
No Haiti, Werner aprofundou sua conexão com religiões de matriz africana Crédito: Arquivo pessoal
Imagem BBC Brasil
Werner hoje participa de uma banda no Haiti Crédito: Arquivo pessoal

Impacto

"Conheci o Haiti nesse contexto: tragédia natural e tragédia social", ele define. "Um professor, uma ponte para você falar com o Haiti, assassinado. E o terremoto."
"Aquilo me marcou muito", conta. "Quem vem fazer trabalho humanitário aqui vem para ajudar. Eu digo que fui ajudado pelos haitianos, porque depois do terremoto era difícil até encontrar comida. Sei que sobrevivi por acaso. Foram muitas as vítimas."
Dezesseis anos depois, Pereira conta essa história para a reportagem via chamada de vídeo diretamente da sede do Centro Cultural Brasil-Haiti, em Porto Príncipe. Ele é o diretor da instituição, mantida pela embaixada brasileira no país caribenho. E também dá aula de português a haitianos — alguns deles buscam aprender a língua pensando em imigrar para o Brasil.
Estima-se que, atualmente, vivam no Brasil de 150 mil a 200 mil haitianos. "Isso explodiu ainda mais o ensino da língua", constata Pereira. "Mas sempre houve demanda."
Quando a seleção entrar em campo contra o Haiti, na partida marcada para a noite do dia 19 de junho, é dali que ele vai assistir. Com festa, ganhe quem ganhar.
"Eu sou corintiano roxo. Uma das minhas conexões com o Brasil sempre foi o Corinthians. A seleção também, mas depois do Corinthians", diz Pereira.
A ideia é reunir cerca de mil pessoas no centro cultural para o jogo, com comes e bebes típicos dos dois países. O brasileiro explica que o Brasil é muito amado pelos haitianos — e como faz 52 anos que o time do Haiti não vai a uma Copa do Mundo, em geral a torcida era pelo escrete canarinho.
Ele mesmo disse que vai providenciar uma camisa metade Haiti, metade Brasil, expressando assim o coração dividido de quem foi adotado pelo outro país. "Vou celebrar qualquer gol. Vou torcer pelo empate e que ambos se classifiquem. E tornem a se encontrar na final", vislumbra. "Se for assim, todos ganhariam."
Imagem BBC Brasil
Werner está entre um dos 42 brasileiros que vivem no Haiti, segundo o Ministério das Relações Exteriores Crédito: Arquivo pessoal

Menos de 50

São pouquíssimos os brasileiros que, a exemplo de Pereira, residem no Haiti. Estimativas do relatório mais recente do Ministério das Relações Exteriores, de 2023, calculam serem 42.
A trajetória de Pereira é peculiar o suficiente para que ele tenha sido coincidentemente o mesmo indicado para a reportagem por duas fontes diferentes — sem relação alguma entre elas — com alguma conexão com o país.
Essa sua primeira passagem pelo país acabou abreviada pelo terremoto, evidentemente. "O que era para ser três meses acabou se limitando a 20 dias", recorda. De volta ao Brasil, ele concluiu os estudos na Unicamp. Mas o Haiti não saiu de sua cabeça.
Começou a estudar o idioma crioulo e passou a buscar maneiras de voltar, em definitivo, ao país caribenho. A oportunidade surgiu via concurso público — em 2012, a embaixada brasileira abriu vaga para professor de português no tal centro cultural. Ele foi aprovado e se mudou para Porto Príncipe. Alguns meses depois, passou a acumular o cargo de diretor da mesma instituição.
Pereira não teve problemas em fazer uma verdadeira imersão cultural no país que o acolheu. Logo aprendeu o idioma crioulo a ponto de não precisar mais usar o francês para se comunicar com os locais — o Haiti tem como oficiais as duas línguas, a do colonizador e a criada pelos africanos e afrodescendentes, como línguas oficiais.
E, se em São Paulo ele já era adepto da umbanda, no Haiti acabou mergulhando no voduísmo, mantendo portanto a religiosidade de matriz africana. A música também foi outro ponto de conexão. Se na capital paulista ele frequentava o famoso samba da vela, em Santo Amaro, no Haiti ele tem uma banda, a Motif Mizik, onde toca percussão e canta.
"Apesar de ser branco de pele, sempre fui muito próximo da cultura afrobrasileira", comenta. "A umbanda, o samba e depois a capoeira, cresci sendo influenciado por isso."
O Haiti foi decisivo também por isso. "É uma referência para o mundo afro, principalmente pela sua história", enfatiza. É um capítulo sui generis na história americana, aliás: de 1791 a 1804, a nação teve uma bem-sucedida revolução em que escravizados negros conseguiram não só a liberdade como a independência dos colonizadores franceses. Esse fascinante passado faz com que alguns historiadores considerem o território uma espécie de país-quilombo.
"É a única nação dos últimos séculos que, quando nasceu, fundou também uma língua, o crioulo, e uma religião, o vodu, ao mesmo tempo. Isso é impressionante. Eu queria entender tudo isso", comenta Pereira.
Imagem BBC Brasil
Werner viajou ao Haiti pela primeira vez em 2010 e se apaixonou pelo país Crédito: Arquivo pessoal.

Qualidade de vida

Obviamente não é fácil justificar para amigos e familiares brasileiros essa escolha. No imaginário nacional predomina a ideia de que imigrar só "vale a pena" se for para "um país melhor". Ao mesmo tempo, Pereira lamenta, a visão do Haiti que os brasileiros têm ainda é muito estereotipada, ressaltando a violência e a pobreza e não valorizando a história e a cultura que tanto o encantam.
Há lastro nos dados, vale ressaltar. Considerando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), por exemplo, o Haiti amarga a 156ª posição entre os 191 países considerados. Dados de 2022 mostram que apenas 37% da população haitiana tem acesso à rede sanitária e mais de 30% ainda têm dificuldade para conseguir água potável.
Pereira não ignora os problemas. Pensa que seu trabalho, de certa forma, é um tijolinho a ajudar a construir um Haiti melhor para o futuro. Sente-se parte disso, abraçado pela população.
Quando presenciou o terremoto, diz que se sentiu impotente ao ver tanta tragédia e não conseguir fazer nada. Isso o fez "querer voltar". "E colaborar", ressalta. Ele se lembra de quando caminhava pelas ruas e foi interpelado por um sujeito que perguntava se ele, "por ser branco", não teria como conseguir um trator. "Ele queria ajuda para tirar a família dos escombros", relata. A sensação foi das piores de sua vida.
E ele foi ficando. "As histórias me interessaram. Fiquei também. O Haiti é um país pequeno e, com todos os dilemas, fui me interessando cada vez mais", comenta.
"Hoje me vejo em definitivo aqui. Mas foi um processo", conta. "Eu me imagino no Haiti por uma série de razões. Mas, com certeza, o que mais me prende aqui é o calor humano. Desenvolvi projetos, amizades, relações e afetos que me marcaram muito."
Desde a mudança definitiva, ele costuma ir ao Brasil uma vez por ano. "Passo um mês de férias e já tenho saudades do Haiti. É uma coisa que não sei explicar", comenta. A família custou a entender. "Hoje, eles entendem. No Brasil ainda há um preconceito quanto ao Haiti", resigna-se.
Durante alguns anos, viveu com uma namorada haitiana, dançarina e professora de dança. O relacionamento virou apenas uma amizade. "Somos grandes amigos", diz ele. E, praticamente numa troca de pátrias, ela agora vive em São Paulo.
Pereira não descarta, no futuro, constituir alguma família no Haiti, lugar onde parece caminhar para viver de forma definitiva. Por enquanto, conta ele, tem apenas os dois gatos.
"Morar aqui é uma constante recriação da vida", define.

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