Em 2017, as tripulações de vários navios-tanque viveram uma experiência desconcertante. Ao se aproximarem de seu destino, descobriram que estavam em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.
Seus olhos lhes diziam que estavam chegando ao porto russo de Novorossiysk, na costa norte do Mar Negro.
Mas o sistema de posicionamento global mostrava que, em vez de navegarem sobre a água, parecia que estavam voando pelos ares.
Quando atracaram, o GPS continuava insistindo que seus navios estavam em terra firme, em um aeroporto próximo.
Essa história foi a faísca que levou a jornalista econômica Katherine Dunn a explorar o GPS, essa tecnologia que nos situa em um mapa e cria uma representação do mundo completamente centrada em nós.
Ele também nos deu uma nova forma de nos identificar: um pequeno ponto azul que, sem instruções ou manuais, aprendemos a reconhecer como um eu.
Logo, tornou-se parte do cotidiano, não apenas como uma ferramenta para saber onde fica um lugar e como chegar até lá, mas também quanto tempo isso levará.
Se pararmos para pensar, rapidamente percebemos que ele também serve para que o táxi venha nos buscar ou para fazer compras on-line e, quando ampliamos o foco, visualizamos seu papel na logística global, particularmente no transporte de pessoas e mercadorias.
Mas talvez deixemos passar seu papel em sistemas como a sincronização de vastas redes — torres de telefonia móvel, sistemas bancários e redes elétricas —, nos quais ele ajuda a criar o tipo de comunicação fluida que hoje consideramos algo natural.
Sua onipresença se estende a áreas que talvez não associemos ao GPS, desde aplicações de alto risco relacionadas a redes financeiras e mísseis até a agricultura de precisão e mesmo à coordenação dos semáforos.
Tudo isso graças à constelação de satélites que orbitam a Terra e à resolução simultânea e ultrarrápida de quatro incógnitas.
Foi isso que Dunn contou à BBC Mundo. A curiosidade despertada pelo episódio dos navios a levou a pesquisar e escrever Little Blue Dot: How GPS Shaped the Modern World ("O Pequeno Ponto Azul: Como o GPS Deu Forma ao Mundo Moderno", em tradução literal), sem tradução para o português.
BBC Mundo — Como o GPS funciona?
Katherine Dunn — A ideia é que, esteja onde estiver, você precisa receber o sinal de quatro satélites, porque, em conjunto, eles estão resolvendo quatro equações: sua longitude, sua latitude, sua altitude — algo que costumamos esquecer, mas que importa se você estiver, por exemplo, no sexto andar de um prédio — e uma quarta variável, que é o tempo, medido com uma precisão de bilionésimos de segundo.
Todo o sistema depende de uma precisão perfeita na medição do tempo. E, como subproduto de usar o tempo para calcular sua localização, o GPS acaba lhe dando um relógio atômico de bolso: ele pega a hora dos relógios atômicos que viajam nos satélites e a entrega, sem que você perceba, no celular ou no carro.
No fundo, é um computador no espaço falando com um computador no receptor, que, por sua vez, fala com um computador em uma estação terrestre.
A física por trás é extremamente complexa, mas a ideia geral é tão elegante que provavelmente é por isso que o sistema resistiu ao passar do tempo e se tornou tão bem-sucedido.
BBC Mundo — Por que o GPS precisa saber algo tão específico quanto em que andar de um prédio você está?
Dunn — Porque ele foi projetado para aviões, como uma ferramenta para bombardear com precisão.
Ele tem antecedentes — muitos deles também ligados a campanhas de bombardeio —, mas nasce diretamente da Guerra do Vietnã, quando a Força Aérea dos Estados Unidos fracassou repetidas vezes em atacar com precisão a Trilha Ho Chi Minh e as pontes usadas para transportar tropas e suprimentos.
Ali estava a poderosa aviação dos Estados Unidos, incapaz de acertar uma ponte no Vietnã do Norte. Eles precisavam de uma precisão extrema, e em três dimensões, além de uma velocidade de cálculo altíssima, porque um avião se move muito rápido e precisa saber sua localização quase em tempo real enquanto atravessa o céu.
BBC Mundo — Daí o tempo ser um fator tão crítico. E essa é a parte mais difícil de entender para quem não é físico.
Dunn — As pessoas costumam dizer que "o GPS funciona por triangulação", mas não: triangulação envolve ângulos; aqui, é pura velocidade.
O sistema calcula quanto tempo um sinal de rádio leva para sair do satélite e chegar ao receptor e precisa medir esse intervalo com uma precisão de bilionésimos de segundo, porque as diferenças que precisam ser detectadas são minúsculas.
BBC Mundo — Desenvolver o GPS exigiu a tecnologia mais avançada, desde aqueles relógios atômicos até foguetes, baterias e computadores. Para mantê-lo, são necessários milhões de dólares por ano e, ainda assim, ele é gratuito: uma raridade, sobretudo se pensarmos que nasceu nos Estados Unidos, o bastião do capitalismo.
Dunn — É curioso que, durante anos, o próprio Pentágono não deu muito valor a ele. Só quando outros países começaram a adotá-lo é que perceberam que tinham em mãos não apenas uma ferramenta militar poderosíssima, mas também uma ferramenta industrial, comercial e de poder.
No fim dos anos 1990, após um incidente casual que ameaçou o espaço de frequências usado pelo GPS, o governo americano entendeu duas coisas: que, se todo mundo dependesse desse sistema, ele estaria mais protegido, e que indústrias inteiras estavam sendo construídas em torno dele, com os Estados Unidos fabricando os receptores.
Em parte, recuperaram esse investimento de outras formas: o sistema impulsionou indústrias gigantescas, muitas delas lideradas por empresas americanas. As grandes empresas de tecnologia, por exemplo, dependem enormemente dos dados de localização e foram construídas sobre um produto do governo, pago com os impostos dos contribuintes.
BBC Mundo — Promoveram ativamente a adoção do sistema por outros governos, e muitos fizeram isso de bom grado, mas alguns não ficaram tão satisfeitos, certo?
Dunn — Os europeus começaram a se incomodar com a ideia de que tanta infraestrutura dependesse de um único produto americano, e daí surgiu, em grande parte, o Galileo, o sistema europeu de autonomia estratégica.
Hoje, ele é mais diversificado, embora o GPS continue sendo o sistema dominante em muitas indústrias, mesmo não sendo mais o melhor dos cinco que existem — o chinês, dizem, é de longe o mais avançado —, simplesmente porque é o mais antigo e muitos receptores são fabricados pensando apenas nele.
A aviação, por exemplo, tende a usar apenas o GPS, enquanto o chip de um telefone costuma aproveitar todas as constelações disponíveis ao mesmo tempo.
BBC Mundo — Quem foram os primeiros a usar o GPS fora do âmbito militar?
Dunn — Os primeiros usuários fora do meio militar foram nerds: agrimensores e pesquisadores universitários. Depois vieram especialistas muito específicos e, mais tarde, um punhado de nerds endinheirados que procuravam fósseis de dinossauros ou eram aficionados por navegação à vela — um certo tipo de aventureiro de elite capaz de pagar por receptores que, no início, custavam cerca de US$ 100 mil, hoje equivalentes a R$ 514 mil.
Só nos anos 1980 surgiu o primeiro carro com GPS, e foram os japoneses que perceberam o potencial para a indústria automobilística, em parte porque o Japão havia sido, no pós-guerra, uma espécie de oficina dos Estados Unidos e acabou aperfeiçoando essa tecnologia até mais do que seu criador.
Para o resto do mundo, se você não era fã de tecnologia, de motores, de montanhismo ou de navegação, o primeiro salto foi ter um TomTom ou um Garmin no carro.
Mas o grande salto veio com o iPhone 3G, o primeiro a incorporar GPS, e o Google Maps como aplicativo de mapas: já não era algo que ficava no carro, mas algo que você carregava consigo o tempo todo.
BBC Mundo — O GPS começou a ser muito usado e a substituir os mapas que costumavam nos dizer onde as coisas estavam, mas descobriu-se que algumas delas não ficavam exatamente onde imaginávamos.
Dunn — É uma ideia maluca, não? Hoje estamos acostumados a que a informação corresponda à realidade: se está no mapa, tem que estar lá.
Mas nem sempre era assim. O GPS colocou essas discrepâncias em evidência e obrigou a corrigi-las.
A Estátua da Liberdade é um exemplo famoso, mas descobriu-se que havia muitas outras coisas assim, inclusive pistas de pouso deslocadas vários metros em relação às suas coordenadas oficiais.
O que entendi é que a precisão absoluta não existe: trata-se sempre de chegar o mais perto possível e continuar fazendo ajustes.
BBC Mundo — Mas, se nesses casos o GPS ajudou a reconciliar os mapas com a realidade, em outros acontece exatamente o contrário, como ocorreu com as tripulações daqueles navios no porto russo de Novorossiysk: seus GPS mostravam que elas estavam sobre a pista de um aeroporto localizado a dezenas de quilômetros de distância.
Dunn — É o primeiro grande episódio desse tipo que se conhece publicamente.
Pesquisadores começaram a perceber que essas interferências ocorriam onde quer que Vladimir Putin estivesse — na verdade, ele estava por perto durante o incidente de Novorossiysk — e também ao redor de prédios do governo russo, como o Kremlin ou o chamado Palácio de Putin, no Mar Negro.
E, depois, em um documentário sobre o opositor russo Alexei Navalny, que investiga justamente esse palácio, viram uma cena em que tentam sobrevoá-lo com drones, mas não conseguem se aproximar.
Foi assim que perceberam a conexão: a manobra tinha como objetivo impedir que drones se aproximassem, seja para espionar, seja para atacar figuras do poder.
BBC Mundo — Como isso é feito, tecnicamente?
Dunn — Aí entra a diferença entre interferência e falsificação de sinal.
Interferir é simplesmente abafar o sinal: é como se, enquanto você está dizendo alguma coisa, eu começasse a gritar. Você continua falando, mas ninguém consegue ouvi-lo.
Falsificar é mais ardiloso: é sequestrar o sinal, como se, de repente, eu assumisse sua voz e dissesse coisas que você nunca disse ou diria.
Nesses casos, houve um pouco de interferência pura, mas o que fazia os navios "aparecerem" em aeroportos era a falsificação.
E o motivo de escolherem justamente coordenadas de aeroportos é que, naquela época, a maioria dos drones comerciais vinha configurada de fábrica para mudar de direção ou cair se detectasse que estava perto de um aeroporto, por razões de segurança.
Se conseguissem fazer o drone acreditar que a localização de Putin era a de um aeroporto, o drone não poderia se aproximar.
Hoje, para qualquer profissional, é muito fácil contornar essa restrição; na Ucrânia, com o uso atual de drones, essa limitação foi completamente superada.
BBC Mundo — É possível simplesmente 'desligar' o GPS?
Dunn — Seria possível, sim. Seria extremamente disruptivo, mas a boa notícia é que hoje existem outros sistemas alternativos, então provavelmente o telefone nem sequer seria afetado.
O que mais causa temor não é tanto o desaparecimento do GPS, mas que ele seja manipulado sem que ninguém perceba. Isso, sim, assusta, porque temos muito menos ideia de como os sistemas reagiriam nesse cenário. É parecido com um ataque cibernético, mas analógico.
BBC Mundo — Há regiões do mundo onde isso já está acontecendo de forma séria?
Dunn — Desde a guerra dos drones e as linhas de frente na Ucrânia até o que aconteceu no Estreito de Ormuz, talvez você tenha visto alguns desses efeitos: navios que traçam rotas estranhas, dando voltas sem sentido, ou até mísseis americanos de alta precisão que chegam à Ucrânia e, de repente, não funcionam como deveriam.
A manipulação do GPS se tornou uma característica cada vez mais comum dos conflitos desde que essa tecnologia existe.
BBC Mundo — Para terminar: adoro essa imagem evocada pelo título do seu livro, a de nos transformarmos em um pequeno ponto azul na tela.
Dunn — Esse título se conecta a algo em que pensei muito enquanto escrevia: existia essa ideia da exploração espacial, de olhar para o céu, para o cosmos. No entanto, boa parte do que fizemos foi sair apenas um pouco para o espaço e virar as câmeras de volta para nós mesmos.
Há algo contraditório no fato de que boa parte dessa ciência e dessa física acabou colocada a serviço da guerra — e também, no cotidiano, de nos vender coisas e nos fazer gastar dinheiro.
Embora haja também o lado positivo: boa parte da ciência climática, por exemplo, surgiu dessas mesmas descobertas. A tecnologia não é boa nem ruim em si mesma; pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.