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Como a guerra no Irã quebrou a imagem de segurança de locais do Golfo como Dubai e Catar — e o que isso está custando

Como a guerra no Irã quebrou a imagem de segurança de locais do Golfo como Dubai e Catar — e o que isso está custando

Cresce a frustração entre as monarquias do Golfo, arrastadas para uma guerra que elas não desejavam, com consequências altíssimas e sem solução iminente.

Publicado em 19 de março de 2026 às 11:34

Imagem BBC Brasil
null Crédito: FADEL SENNA / AFP via Getty Images

As últimas décadas viram bombas caírem sobre o Líbano e homens-bomba explodirem em mercados repletos de pessoas no Iraque, enquanto o autodenominado Estado Islâmico sequestrava e decapitava trabalhadores estrangeiros em espetáculos macabros na Síria.

Mas Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), vivia uma festa permanente.

Pessoas ricas de todo o mundo compravam mansões em ilhas artificiais em frente ao seu litoral, passeavam no Museu do Louvre da vizinha Abu Dhabi ou faziam safáris pelo deserto do Catar.

Em uma região sacudida por guerras, protestos e instabilidade, os países do Golfo Pérsico cultivaram por anos a imagem de um oásis de segurança e prosperidade.

Seus esforços e suas políticas fiscais vantajosas atraíram bilhões de dólares em investimentos estrangeiros, transformando cidades como Dubai e Abu Dhabi (EAU), além de Doha (no Catar), em destinos privilegiados para os multimilionários e o turismo de luxo, com eventos e congressos internacionais.

Mas esta imagem foi desfeita no último dia 28 de fevereiro, quando os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã trouxeram a guerra para a região.

Teerã respondeu não apenas bombardeando cidades israelenses e bases americanas, mas também os aliados de Washington no Golfo. E estas monarquias, de um momento para o outro, se viram arrastadas para um conflito indesejado.

"Eles tentaram, a todo custo, dissuadir o presidente Trump para que não a empreendesse", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) a analista Anna Jacobs Khalaf, especialista no Golfo do Instituto Europeu da Paz.

Repentinamente, mísseis iranianos começaram a cair ao lado de centros comerciais, arranha-céus de luxo e portos repletos de iates, frente aos olhares horrorizados das pessoas do Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita e Omã, além de dezenas de milhares de turistas e moradores estrangeiros.

A guerra chegou até mesmo a alguns dos hotéis mais luxuosos do mundo. Os restos de um drone iraniano interceptado caíram sobre o Burj al Arab de Dubai. E o Fairmont The Palm, na ilha artificial de Palm Jumeirah, recebeu impacto direto.

Imagem BBC Brasil
null Crédito: BBC

Na quarta-feira (18/3), a companhia petrolífera estatal do Catar afirmou ter sofrido "extensos danos", causados por ataques com mísseis no complexo industrial de Ras Laffan.

O Irão havia incluído o local em uma advertência de que tomaria "medidas decisivas", depois que as instalações da sua jazida de gás South Pars foram atingidas por mísseis israelenses, segundo relatos.

As consequências são devastadoras e o mal-estar nas capitais do Golfo é imenso.

Um tsunami de cancelamentos atingiu as ricas monarquias da região, incluindo voos, reservas de hotéis, congressos e eventos internacionais, como os Grandes Prêmios do Bahrein e da Arábia Saudita de Fórmula 1.

Some-se a isso o fechamento do Estreito de Ormuz, que bloqueou suas exportações de combustíveis.

Uma miragem que se desfez?

"Os países do Golfo trabalharam para formar uma imagem de refúgios seguros no Oriente Médio, mas as ações e acontecimentos da última semana abalaram esta imagem", reconhece o professor Badr al Saif, da Universidade do Kuwait. Ele foi subchefe de gabinete do primeiro-ministro do país.

A região investiu em luxo e segurança. E as monarquias da região (todas elas, autocratas) realizaram grandes investimentos em vigilância.

Estas medidas as mantiveram a salvo do terrorismo, mas também geraram perseguição a dissidentes e a tudo o que pudesse afetar a sua imagem.

Nessas três semanas de guerra, por exemplo, dezenas de pessoas foram presas , inclusive estrangeiros, por publicarem vídeos de ataques iranianos.

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Restos de um míssil interceptado atingiram o porto de Jebel Ali, perto de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos Crédito: Planet Labs PBC via REUTERS

Na sua tentativa de atrair expatriados, turistas e investidores internacionais, as conservadoras nações muçulmanas criaram bolhas de permissividade, embora com limites. O álcool é permitido em certos lugares, mas demonstrações públicas de homossexualidade são proibidas.

Tudo isso, somado aos impostos baixos ou inexistentes, fez com que elas passassem a ser imensamente populares nas últimas décadas e se transformassem em um importante destino turístico.

Mas a guerra está colocando à prova todo este trabalho.

Apenas o setor turístico da região vem perdendo cerca de US$ 600 milhões (cerca de R$ 3,15 bilhões) por dia, segundo dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, mencionados pelo jornal Financial Times.

O consórcio havia previsto que o turismo traria US$ 207 bilhões (cerca de R$ 1,1 trilhão) para os Estados do Golfo em 2026.

Na semana de 6 de março, ocorreram mais de 80 mil cancelamentos de aluguéis de curta duração em Dubai, segundo dados coletados pelo grupo AirDNA, com base nas reservas realizadas em plataformas como Airbnb e Vrbo.

Os cancelamentos de voos também deixaram milhões de passageiros em terra.

Nas últimas décadas, a região se tornou um verdadeiro centro internacional de conexões aeroportuárias, por onde passam mais de 500 mil passageiros por dia.

Desde 28 de fevereiro, pelo menos três aeroportos (Dubai, Kuwait e Abu Dhabi) sofreram impactos de mísseis ou drones iranianos, provocando o cancelamento de milhares de voos.

A imagem de segurança "era parcialmente artificial, mas também, em parte, era real, pois os Estados do Golfo conseguiram realmente se isolar do pior da violência regional por décadas", explica à BBC News Mundo a pesquisadora Elham Fakhro, do Centro Belfar da Faculdade Kennedy da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Recuperar a confiança dos investidores e dos turistas "é possível", opina Fakhro, "mas dependerá de quanto tempo se prolongar o conflito".

Raiva e frustração

A guerra contra o Irã transformou os países do Golfo em alvo. Ela está saindo extremamente cara e vem gerando sensação de raiva e frustração entre seus cidadãos e governantes.

A pessoa pública que talvez tenha criticado mais explicitamente a decisão de Donald Trump de arrastá-los para a guerra foi o empresário multimilionário Khalaf Ahmad al Habtoor, dos Emirados Árabes Unidos.

"Quem deu a ele o poder de arrastar nossa região para uma guerra contra o Irã? E no que se baseou para tomar esta perigosa decisão?", questionou al Habtoor, em recente e dura carta aberta dirigida ao presidente americano.

O empresário perguntou a Trump se ele teria "calculado os danos colaterais antes de apertar o gatilho".

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Os estrangeiros representam 90% da população de Dubai, que, ao lado de outras cidades da região, parecia viver alheia à instabilidade que sacode o Oriente Médio Crédito: Christopher Pike via Getty Images

"Há uma sensação de traição pairando no ar das capitais do Golfo, mas é pouco provável que ela seja manifestada publicamente por algum tempo", explica Elham Fakhro.

Os países do Golfo investiram muito nas suas relações com Washington. Entre outras medidas, acolheram suas bases militares, facilitaram a logística, se comprometeram a realizar enormes investimentos e assumiram os custos políticos internos do alinhamento com a política regional americana, que é profundamente impopular.

"Em troca, eles esperavam, pelo menos, terem sido consultados antes de uma guerra que, inevitavelmente, os transformaria em alvos. Não foi o que aconteceu."

"Os mísseis iranianos atingiram suas capitais, aeroportos, infraestruturas petrolíferas e bairros financeiros, não por algo que tivessem feito, mas por decisões tomadas em Washington e Tel Aviv", destaca Fakhro.

O pesquisador Neil Quilliam, do centro de estudos Chatham House, com sede em Londres, concorda que, atualmente, "existe uma enorme raiva" nas capitais do Golfo.

Mas, por enquanto, "não se pode fazer muita coisa e é muito pouco provável que eles a expressem em algum foro público".

Esta não é a primeira vez que os EUA deixam os países do Golfo de lado. Em 2015, quando foi assinado o acordo nuclear com o Irã, "os países do Golfo, que sempre haviam exigido fazer parte de qualquer pacto com Teerã, foram excluídos".

Por isso, esta nova marginalização "toca em um ponto sensível para eles".

Estratégia de segurança

As monarquias do Golfo Pérsico mantêm relações tensas com seu vizinho persa, desde a revolução que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlevi (1919-1980) e proclamou a República Islâmica do Irã, em 1979.

O Irã não é um país árabe. Ele tem uma imensa maioria xiita, enquanto os países do Golfo são majoritariamente sunitas.

E, desde a revolução, a República Islâmica se posicionou como o grande inimigo dos Estados Unidos na região, de quem as monarquias árabes são aliadas.

Por isso, os países do Golfo estabeleceram sua segurança em torno desse vínculo com Washington, especialmente a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar.

"Todos eles buscaram, de alguma forma, algo mais ou menos equivalente ao artigo 5 da Otan [segundo o qual, se um membro for atacado, os demais sairão em sua defesa], com os Estados Unidos se comprometendo a defendê-los", explica Quilliam.

O antecedente do Kuwait em 1990, invadido pelo Iraque de Saddam Hussein (1937-2006) e libertado por uma coalizão liderada por Washington, servia de ponto de referência.

Mas, quando Teerã bombardeou a infraestrutura petrolífera da Arábia Saudita, em 2019, ou Israel matou líderes do Hamas na capital do Catar, Doha, em um bombardeio em 2025, os Estados Unidos ficaram de braços cruzados.

A sensação de que Washington não viria ao seu resgate se ampliou e alguns destes países começaram a construir sua própria indústria de defesa, diversificando seus vínculos defensivos.

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O Irã também atacou as bases militares dos Estados Unidos no Golfo, como a que abriga a Quinta Frota dos Estados Unidos em Manama, a capital do Bahrein Crédito: Anadolu via Getty Images

Os países do Golfo estabeleceram sua segurança em torno de três premissas relacionadas entre si, explica Elham Fakhro.

Segundo uma delas, os Estados Unidos atuariam como sua principal garantia frente às ameaças externas. Além disso, a distensão com o Irã reduziria o risco de um confronto direto; e, para alguns, o estabelecimento de vínculos seletivos com Israel traria benefícios estratégicos.

Esta política "tinha como objetivo permitir aos governos do Golfo manter o equilíbrio entre Washington, Teerã e Tel Aviv, sem precisar escolher entre eles", segundo a pesquisadora.

Mas a guerra do Irã expôs os limites desta aliança.

Alguns países talvez decidam diversificar suas colaborações militares com outros países, como a Turquia ou o Paquistão.

Mas, segundo Quilliam, "levará muito tempo para que eles se afastem dos Estados Unidos", pois muitos desses contratos de formação, de sistemas de armamentos ou de aviação são válidos por pelo menos 20 anos.

Espada de Dâmocles

Qual saída têm hoje os países do Golfo para uma guerra que eles não escolheram?

Os especialistas acreditam que não existe uma solução fácil. Mas os danos serão menores quanto mais cedo acabar o conflito.

Um cessar-fogo a curto prazo permitiria o início da recuperação, segundo Elkam Fakhro. Mas uma guerra prolongada agravaria os danos mês a mês, acelerando a saída dos trabalhadores expatriados e a fuga de capitais dos quais dependem economias como a de Dubai.

E os danos não param por aí. Neil Quilliam é da opinião de que a sangria econômica causada pelo fechamento do Estreito de Ormuz para os países do Golfo só pode ser estancada de forma sustentável com um cessar-fogo, nunca pela força, como pretende Donald Trump.

De qualquer forma, os prejuízos serão enormes. Alguns países já foram obrigados a interromper a produção de petróleo e retomá-la aos níveis anteriores à guerra pode levar pelo menos cinco ou seis meses.

E, mesmo se a guerra terminasse hoje, a ameaça do regime iraniano, cuja derrocada aparentemente não irá ocorrer neste momento, seguiria pairando sobre o Golfo, como uma espada de Dâmocles.

"Daqui a dois meses, Israel poderá dizer que detectou alguma movimentação no programa nuclear ou de mísseis balísticos e voltar a atacar", calcula o pesquisador do Chatham House. "E, então, os iranianos contra-atacarão."

Como destaca Anna Jacobs Khalaf, do Instituto Europeu da Paz, os países do Golfo "não podem mudar a geografia".

Eles são vizinhos de um vasto país de 90 milhões de pessoas "e precisarão encontrar uma forma de conviver com os novos dirigentes do Irã, para evitar que eles sigam ameaçando seus países e os mercados globais de energia".

O retorno das negociações poderia ser uma saída, como vinha acontecendo nos últimos anos, quando a Arábia Saudita e o Irã restabeleceram relações diplomáticas, com mediação da China.

"A única solução duradoura é que os Estados do Golfo construam suas próprias relações com o Irã, nos seus próprios termos", conclui Khalaf.

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