Publicado em 15 de março de 2026 às 10:36
Juan e Elisa* (nomes fictícios) são um casal de aposentados cubanos, com mais de 80 anos.>
Juntas, suas aposentadorias não ultrapassam 5,8 mil pesos cubanos mensais (US$ 11,60 pelo câmbio informal, cerca de R$ 60). >
Uma garrafa de azeite e uma caixa de 30 ovos custam no país cerca de US$ 7 (R$ 36).>
Eles se levantam todos os dias, compram um pão no mercado estatal, o partem ao meio e comem com chá no café da manhã.>
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Às vezes, eles cuidam dos filhos e pessoas com deficiências dos vizinhos. Isso permite que eles recebam um pouco de comida ou dinheiro, para poderem comprar um pouco de arroz, feijão e ovos.>
À noite, eles terminam a outra metade do pão, com mais chá. Assim, eles passam o dia, em uma rotina que só permite viver um dia de cada vez.>
Juan e Elisa são um dos casos de vulnerabilidade extrema em Cuba, estudados pela socióloga Mayra Paula Espina, da Universidade de Havana.>
A acadêmica observa cada vez mais disparidades no país, que conta com dados limitados sobre pobreza e desigualdade.>
Não muito longe da casa dos aposentados, um supermercado privado oferece queijo de cabra, iogurte, embutidos, peixes e presunto espanhol. Ele se destina a uma minoria que consegue pagar seus preços. Mas, mesmo assim, os negócios estão prosperando.>
Desde o final de 2021, quando o governo socialista de Cuba aprovou a abertura de micro, pequenas e médias empresas (Mipymes, na sigla em espanhol), o antigo monopólio estatal da venda de alimentos cedeu seu protagonismo à iniciativa privada.>
Para muitos cubanos, esta mudança de modelo trouxe à disposição um leque mais amplo de produtos alimentícios e de primeira necessidade, que, antes, eram encontrados a conta-gotas.>
Mas, segundo Espina e o pesquisador cubano-americano Michel Bustamante, da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, o novo modelo acabou revelando a desigualdade na ilha que, nos anos 1980, havia atingido uma equidade assombrosa.>
"Nos anos dourados da revolução, já havia desigualdade. Mas, no final dos anos 1990, ela começou a ser mais visível", conta Bustamante à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.>
"Hoje, os preços do setor privado são inacessíveis para a maioria dos cubanos e se vive uma desigualdade galopante, que antes não se via.">
Cuba vive atualmente a pior crise energética e econômica desde 1991, quando caiu a União Soviética, a principal aliada política e comercial do país. Na ocasião, as finanças da ilha entraram em colapso.>
Atualmente, o país sofre os estragos causados pela sua deficiência de produção, pela queda do turismo, pelo embargo econômico americano e pelas tensões com o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ameaça com tarifas de importação qualquer país que envie petróleo para a ilha.>
A Venezuela foi o maior fornecedor de combustível para Cuba durante décadas. Mas o envio desse combustível foi cortado com a captura do então presidente Nicolás Maduro no começo de janeiro, em uma operação militar americana na capital da Venezuela, Caracas.>
Cuba nunca se recuperou totalmente do baque dos anos 1990.>
Muitos cubanos se recordam atualmente daquele chamado "Período Especial". Como ocorreu naquela época, eles convivem hoje com racionamento extremo, longos apagões, restrições de transporte e dificuldades de acesso a alimentos.>
Mas a crise atual não afeta a todos da mesma forma.>
Cuba atingiu um nível de igualdade invejável nos anos 1980, duas décadas após o triunfo da revolução socialista de Fidel Castro (1926-2016).>
"Grupos desfavorecidos ascenderam em um projeto igualitário que atingiu um coeficiente de Gini baixíssimo, de cerca de 0,24", descreve Espina.>
O índice de Gini é usado pelo Banco Mundial para avaliar a desigualdade. Nele, 0 é a igualdade perfeita e 1, a máxima desigualdade.>
Comparativamente, os Estados Unidos atingiram 0,40 em 1989.>
O Uruguai, frequentemente destacado como um dos países menos desiguais da América Latina, oscilou entre 0,39 e 0,40 nos últimos quatro anos. E o índice de Gini no Brasil atingiu 0,516 em 2023.>
"Mas a crise dos anos 1990 interrompeu os avanços em Cuba", prossegue Espina. "Grupos atrasados que haviam melhorado, como a população não branca, mulheres e moradores do campo, foram os primeiros a serem afetados.">
Após o colapso soviético, a economia cubana se reduziu em um terço do seu Produto Interno Bruto (PIB). E uma das medidas criadas pelo governo da ilha foi legalizar o uso do dólar.>
"Circulavam dólares americanos e pesos cubanos", conta Bustamante. "E o país também se abriu mais para o turismo." Com isso, a igualdade se agravou.>
"As pessoas que trabalhavam no turismo ou recebiam remessas do exterior tinha acesso a dólares, ou ao extinto peso cubano conversível [CUC], e viviam muito melhor", segundo o pesquisador.>
Com a dolarização, conviveram dois tipos de lojas de distribuição de alimentos. Algumas eram dolarizadas e mais sortidas, enquanto outras, em moeda nacional e muitas vezes subsidiadas, tinham oferta limitada.>
No início dos anos 2000, o salário médio no setor estatal em Cuba era de cerca de 200 pesos cubanos, equivalentes a cerca de US$ 10 (R$ 52).>
Quem não tinha familiares no exterior, nem trabalhava em algum setor vinculado ao turismo ou ao comércio exterior, precisava buscar receita adicional, fosse vendendo bens ou serviços ou recorrendo a múltiplos empregos informais.>
Há décadas, é comum na ilha que profissionais com títulos universitários trabalhem em setores diferentes da sua área de estudo para completar a receita. Esta situação persiste até hoje.>
Espina evita falar em ganhadores ou perdedores do colapso dos anos 1990. Mas ela alerta que houve quem ascendesse, aproveitando a gestão da crise, e quem caiu estrepitosamente.>
Ainda assim, existe um fator que continua maquiando as desigualdades que afloraram entre os cubanos.>
"O Estado continuava sendo o gestor da desigualdade", explica Bustamante.>
"As lojas sortidas e dolarizadas, conhecidas como TRD, ficavam nas mãos dos militares. Agora, o setor privado é quem ocupa mais este espaço. Eles não são a causa, mas sim o bode expiatório do problema.">
A liberalização das empresas privadas foi uma medida adotada pelo governo cubano após os golpes exercidos pela pandemia de covid-19 e pelo desmantelamento, por parte de Trump, da aproximação econômica entre Cuba e os Estados Unidos ocorrida durante o segundo mandato do ex-presidente americano Barack Obama (2013-2017).>
No final de 2024, havia cerca de 10 mil Mipymes privadas ativas em Cuba, segundo os números oficiais. Delas, 60% eram registradas na capital da ilha, Havana.>
A maioria dessas empresas se dedica à agricultura, indústrias (exceto de açúcar), hotéis e restaurantes, além do setor de construção, comércio e conserto de objetos pessoais.>
"O setor privado demonstrou uma capacidade de importar produtos que o Estado não tinha e está sendo de enorme ajuda para muitos neste momento delicado", explica Bustamante.>
Meses antes da liberalização das Mipymes, Cuba reunificou suas moedas, deixando o peso cubano como moeda oficial. Para o pesquisador, esta decisão foi um erro.>
"O peso foi desvalorizado e o setor privado, que precisa de dólares para importar produtos, recorreu ao mercado informal interno", segundo ele. >
"Isso disparou o custo das transações e os preços se tornaram inacessíveis para a maioria das pessoas.">
O acadêmico defende que a economia cubana está segmentada. >
E Espina destaca que a redução do acesso a alimentos e medicamentos subsidiados não ajuda a diminuir a precarização e a desigualdade.>
Seu estudo indica que cerca de 45% da população cubana vive em situação de pobreza econômica, enquanto, na outra ponta, existem 11 a 13% que vivem em condições acima da média.>
"São cálculos aproximados, pois não são feitos a partir de estatísticas oficiais, mas sim de dados como o preço da cesta básica, a receita do setor privado, salários, aposentadorias e experiências pessoais", esclarece a pesquisadora.>
Em termos de comparação, o Banco Mundial destaca frequentemente o Brasil como um dos países mais desiguais da América Latina, com um índice de pobreza de 23%.>
Espina descreve que a segmentação da sociedade cubana se reflete nos diferentes tipos de supermercados.>
"Existem alguns bodegones [armazéns] muito bem sortidos, com produtos nacionais orgânicos e importados de alta qualidade a preços maiores, onde só compram frequentemente pessoas da classe média alta — gente que trabalha em embaixadas, estrangeiros e cubanos que atingiram esse nível.">
Mais disseminadas pelos bairros, existem outras lojas com oferta mais limitada, menos qualidade e preços mais baixos, mas igualmente caras para a média da população.>
"Você as encontra nos municípios mais humildes, no andar térreo dos edifícios, com apenas um balcão", explica a professora. "Eles recebem um grupo mais variado, com remuneração modesta.">
Por fim, a população de renda muito baixa procura as ofertas de preços menores ou recebe assistência social do Estado, ou de alguma igreja.>
Outra alternativa para comprar produtos são alguns supermercados estatais dolarizados e mercados agropecuários, com preços igualmente restritivos.>
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Existem também lojas online. Nelas, familiares no exterior compram produtos para seus parentes em Cuba, que são distribuídos nos lares em uma espécie de "Amazon cubana", descreve Bustamante.>
"A questão dos alimentos é um grande indicador da pobreza", segundo Espina.>
"Em outros tempos, a distribuição subvencionada garantia um mínimo. Você podia ser pobre, mas tinha o essencial para comer. Hoje, isso desapareceu.">
"Todos aqueles que estão nesses 11% que calculo com melhores condições devem recorrer a múltiplos empregos formais e informais e controlar a qualidade e a diversidade do que comem. Outros, na pobreza extrema, mendigam ou comem do lixo.">
Em julho de 2025, a ex-ministra cubana do Trabalho, Marta Elena Feitó Cabrera, se demitiu após declarações polêmicas questionando a mendicidade.>
"Existem pessoas que se fazem passar por mendigos para ganhar dinheiro fácil", declarou ela à Assembleia Nacional do país.>
O caso gerou fortes críticas nas redes sociais. O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, censurou publicamente os comentários de Feitó, por considerá-los "desconectados da realidade que vivemos".>
"Não se defende a Revolução ocultando os problemas que enfrentamos", declarou o presidente, reconhecendo a existência de mendigos na ilha.>
O PIB de Cuba caiu cerca de 11% nos últimos anos.>
"Desde a pandemia, Cuba vive encurralada, desgastada, sem conseguir se recuperar", afirma Espina.>
Este panorama influenciou a migração. Mais de um milhão de cubanos abandonaram a ilha entre 2021 e 2023, no maior êxodo da história do país.>
Medidas de abertura, como a liberalização do setor privado, não colocam o país de volta aos trilhos, embora representem uma via de escape para muitas pessoas.>
Agora, com a escassez crítica de combustível, Espina receia que os 11% a 13% da população que vivem em boas condições sejam reduzidos, porque nesse grupo existem muitos que dependem do transporte para subsistir.>
Em um discurso no início de fevereiro, Díaz-Canel garantiu estar disposto a "um diálogo com os Estados Unidos sobre qualquer assunto", mas "sem pressões".>
Trump vem repetindo que existem negociações em andamento entre o Poder Executivo dos dois países, o que seu homólogo cubano nega.>
O destino da ilha parece depender da relação entre Washington e Havana, que deu poucos sinais de se normalizar nos últimos 60 anos.>
* Juan e Elisa são nomes fictícios para respeitar a confidencialidade das pesquisas da socióloga Mayra Paula Espina.>
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