Publicado em 8 de março de 2026 às 16:10
As cerejeiras continuam florescendo perto do monte Fuji, no Japão. E os turistas continuam chegando para observá-las.>
Mas, neste ano, não haverá o festival anual.>
Autoridades da cidade de Fujiyoshida, no Japão, cancelaram a celebração anual da sakura (as flores de cerejeira). O motivo foram as reclamações dos moradores locais.>
Eles denunciaram que os visitantes jogavam lixo, invadiam jardins e chegavam a entrar em residências particulares.>
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O festival costumava atrair 200 mil visitantes para a cidade, que tem população estimada em 44 mil moradores.>
O cancelamento é o mais recente sinal de que, enquanto o turismo global atinge recordes de alta, a paciência dos moradores dos destinos mais populares está acabando.>
Em 2025, o Japão recebeu cerca de 43 milhões de visitantes, o maior número da sua história.>
Paralelamente, a Europa recebeu mais da metade dos voos internacionais, estimados em 1,5 bilhão. As projeções indicam que este número deve atingir 1,8 bilhão em 2030 e os governos lutam para gerenciar as pressões.>
Alguns países vêm tomando medidas que teriam parecido extremas poucos anos atrás.>
Elas incluem o controle das multidões por inteligência artificial, construção de barreiras físicas e a cobrança de ingressos pelo triplo do valor para estrangeiros, além do cancelamento de festivais famosos, como o de Fujiyoshida.>
Muitos desses países desejam continuar recebendo visitantes. Eles simplesmente querem que os turistas fiquem mais espalhados, se comportem melhor ou façam suas visitas em outras épocas do ano.>
A BBC conversou com conselhos de turismo e líderes do setor em diversos países, para saber quais medidas assertivas estão sendo tomadas para tentar reduzir os problemas gerados pelo turismo excessivo.>
O cancelamento do festival das flores de cerejeira não foi a primeira medida tomada pelo Japão para gerenciar o excesso de turistas.>
Em 2024, a cidade de Fujikawaguchiko construiu uma barreira física para bloquear um ponto popular para fotos do monte Fuji. A medida foi uma tentativa de evitar que os visitantes continuassem subindo nos telhados, ignorando os guardas e as normas de segurança.>
Kyoto também luta há muito tempo contra as aglomerações.>
A cidade proibiu que as pessoas fotografassem as gueixas e restringiu o acesso a certas alamedas do distrito histórico de Gion, um dos pontos mais populares entre os visitantes.>
Recentemente, Kyoto também recorreu à tecnologia, lançando ferramentas digitais de gerenciamento de multidões. O objetivo é tentar trabalhar em conjunto com os turistas, de forma mais sustentável.>
Intitulada Previsão de Congestionamentos, a nova ferramenta prevê os melhores dias e horários para visitar os locais mais importantes.>
Paralelamente, o aplicativo Smart Navi fornece atualizações em tempo real sobre os níveis de aglomeração; a iniciativa Hidden Gems ("Joias escondidas") promove seis distritos mais calmos, longe dos templos famosos; e Hands Free Kyoto ("Mãos livres") oferece aos visitantes serviços de transporte e armazenamento de bagagem, para reduzir as aglomerações no transporte público.>
"Não existe uma bala de prata para o turismo excessivo, mas pretendemos continuar implementando medidas para proteger o dia a dia dos cidadãos, garantindo, ao mesmo tempo, que os visitantes possam ter uma estadia confortável", afirma o gerente da Divisão de Promoção do Turismo Sustentável de Kyoto, Kousaku Ono.>
As operadoras de turismo também estão se ajustando à situação atual.>
A operadora Inside Travel Group, voltada para o desenvolvimento socioambiental, alterou deliberadamente o seu foco em relação ao Japão para cinco regiões pouco visitadas: Toyama, Nagoya, Nagasaki, Aomori e Yamaguchi.>
"O turismo excessivo é uma das maiores ameaças enfrentadas pelo futuro do setor de viagens, que precisa enfrentá-lo de cabeça erguida", afirma o diretor-gerente da companhia, Tim Oakes.>
"Estes são lugares que realmente querem receber visitantes, desde que sem aglomerações.">
Já os Estados Unidos assumiram uma postura declaradamente voltada para o lado financeiro.>
Seu vasto sistema de parques nacionais compreende 433 unidades, com área total de 34 milhões de hectares, e oferece incontáveis atrações para os visitantes.>
Mas a metade das visitas se concentra nos 25 parques mais conhecidos, gerando superlotação, longas filas e excesso de lixo.>
Para tentar reduzir o problema, os Estados Unidos criaram em 2026 uma sobretaxa de US$ 100 (cerca de R$ 520) por pessoa para visitantes internacionais, em 11 parques nacionais populares do país. Eles incluem Yellowstone, Yosemite e o Grand Canyon.>
O passaporte anual "America the Beautiful" cobre todos os locais federais de recreação. Agora, ele custa US$ 250 (cerca de R$ 1,3 mil) para não moradores do país — três vezes mais que os US$ 80 (cerca de R$ 416) cobrados dos cidadãos americanos.>
Esta política segue uma ordem executiva que orientou o Departamento do Interior dos Estados Unidos a aumentar os ingressos para estrangeiros.>
Relatos indicam que a medida está gerando filas ainda mais longas na entrada nos parques, já que os funcionários, agora, precisam conferir a cidadania e os documentos de identificação dos visitantes.>
Trabalhadores dos parques e do seu entorno não acreditam que esta estratégia seja suficiente para combater as aglomerações.>
"É improvável que o aumento dos ingressos, sozinho, reduza significativamente o turismo excessivo na alta estação", afirma Kevin Jackson, um dos fundadores da EXP Journeys. Sua empresa oferece experiências de viagens particulares perto dos parques de Yellowstone, Grand Canyon, Zion, Moab e Yosemite.>
"A demanda pelos parques emblemáticos permanece alta e, para o tipo de viagens que oferecemos, o ingresso mais caro representa um percentual relativamente pequeno do custo total da viagem", explica ele.>
Mas ele observou que alguns viajantes internacionais podem optar por parques menos conhecidos, onde a sobretaxa não é aplicada. É o caso do Canyonlands, no Estado de Utah.>
Dulani Porter é a vice-presidente-executiva da empresa de marketing de destinos turísticos SPARK. Ela destaca questões estruturais mais profundas.>
"Definir preços não é um plano de gestão de visitantes", afirma ela.>
Porter relembra que o excesso de pessoas em parques como Zion e Yosemite é determinado, em grande parte, pelos padrões domésticos de viagens de verão, calendários escolares e pela capacidade limitada de rodovias e estacionamento.>
Ela também questiona o impacto sobre as comunidades vizinhas.>
Os visitantes internacionais contribuem de forma desproporcional com a economia do turismo local. E até mesmo uma pequena redução pode prejudicar hotéis, restaurantes e operadoras de turismo.>
"O turismo excessivo é fundamentalmente uma questão sistêmica", afirma ela. "Não apenas um problema de preços.">
A Jamaica, por outro lado, vem usando incentivos, não restrições.>
Ansiosa para atrair turistas após a destruição causada pelo furacão Melissa, em 2025, a ilha do Caribe vem adotando medidas criativas para trazer visitantes fora da alta temporada.>
As empresas Jamaica Tourism, JetBlue e WeatherPromise se associaram para oferecer, a partir de março, seguro contra chuva para todos os pacotes com destino à Jamaica até o final de novembro, incluindo a estação dos furacões.>
Se as condições do tempo atingirem o limite para serem consideradas "excesso de chuva", os viajantes que optarem pelo seguro serão automaticamente reembolsados.>
E ainda poderão aproveitar a viagem para conhecer algumas das atrações em ambiente fechado do país, como o Museu Bob Marley na capital, Kingston, ou para provar rum no vale de Nassau.>
"Esta parceria ajuda a oferecer aos nossos clientes a confiança de reservar viagens para a Jamaica o ano inteiro", afirma Jamie Perry, presidente da Paisly, a companhia responsável pela JetBlue Vacations.>
"Ao reduzir a percepção de risco de viagem durante os períodos tradicionalmente mais calmos, estamos ajudando a criar melhores experiências para os clientes e as comunidades locais.">
A ilha espanhola de Maiorca foi palco de um dos mais emblemáticos protestos contra o turismo já realizados. Agora, ela aposta na inteligência artificial para resolver parte dos seus problemas com aglomerações.>
Ainda este ano, Maiorca irá integrar ao seu novo website uma plataforma alimentada por IA.>
Usando dados dos visitantes em tempo real, a ferramenta orientará os turistas sobre os melhores horários para visitar locais populares, sugerindo alternativas menos congestionadas, como oficinas de artesanato com vidro e a tradicional llatra (folhas de palmeira), ou ainda visitas a vinhedos e produtores de azeite de oliva.>
O objetivo é expandir a visitação para locais fora do roteiro de "sol e praia" da ilha.>
"Com a PID [Plataforma Inteligente de Destinos] de Maiorca, integramos mobilidade, acomodações e recursos em uma única plataforma, o que nos permite antecipar os fluxos, melhorar a experiência dos visitantes e fortalecer a tomada de decisões", explica o recém-nomeado ministro do Turismo local Guillem Ginard, presidente da Fundação para o Turismo Responsável de Maiorca.>
Além da tecnologia, a fundação lançou a campanha Ca Nostra ("Nossa Casa"), para incentivar visitantes e moradores a tratar Maiorca como sua casa temporária, protegendo seus cenários, tradições e comunidades.>
A capital dinamarquesa, Copenhague, é um dos destinos turísticos em maior crescimento da Europa. Projeções indicam que ela o número de visitantes deve aumentar em 24% até 2030.>
Para combater alguns dos primeiros problemas sendo causados pelo turismo excessivo, a cidade realiza experiências com incentivos ao bom comportamento.>
Lançado em 2024, o programa CopenPay permite que os visitantes "paguem" por experiências com ações sustentáveis, como passear de caiaque coletando o lixo dos canais ou ir aos museus de bicicleta.>
Mais de 30 mil visitantes já participaram da iniciativa, que fez com que os aluguéis de bicicletas aumentassem em 59%.>
"Cerca de metade dos participantes afirmam que são motivados a participar porque procuram experiências diferentes e exclusivas", conta Rikke Holm Petersen, diretora de marketing, comunicação e comportamento da organização Wonderful Copenhagen.>
Ela observou que sete a cada dez participantes também declararam terem levado novos hábitos para casa, como andar mais de bicicleta e separar o lixo corretamente.>
Este modelo atraiu o interesse de mais de 100 destinos de todo o mundo. Berlim, na Alemanha, e a região francesa da Normandia estão adotando esquemas similares.>
"Muitos participantes nos disseram que todas as cidades deveriam ter este programa", declarou Petersen.>
"Estamos observando uma mudança importante no comportamento dos turistas. Eles querem deixar o destino melhor do que encontraram.">
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.>
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