Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 22:12
Emma não conseguia entender por que havia desenvolvido subitamente um problema com jogos de azar — até ler uma reportagem recente da BBC News.>
Ao longo do último ano, ela perdeu dezenas de milhares de libras, mas nunca imaginou que seu medicamento pudesse ser o responsável.>
Emma é uma das mais de 250 pessoas do Reino Unido que entraram em contato com a BBC relatando vícios, de jogos de azar a sexo e compras, causados por uma família de medicamentos prescritos para distúrbios do movimento.>
Entre os que procuraram a reportagem estão pessoas com cargos de responsabilidade — um policial, enfermeiros, médicos e até um diretor de risco de um banco.>
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Quase um ano após a BBC ter noticiado pela primeira vez as consequências devastadoras desses comportamentos impulsivos, muitos pacientes dizem que médicos ainda deixam de alertá-los adequadamente sobre os efeitos colaterais dos agonistas da dopamina.>
Apesar de esses medicamentos terem sido recentemente rebaixados como tratamento de primeira linha para a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), não houve impacto nos níveis de prescrição por clínicos gerais na Inglaterra.>
Na semana passada, o presidente do Comitê de Saúde da Câmara dos Comuns pediu à agência reguladora de medicamentos do Reino Unido que revisasse os alertas sobre esses efeitos colaterais, e o governo classificou nossas descobertas mais recentes como "extremamente preocupantes".>
Como muitas mulheres, Emma desenvolveu pela primeira vez a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), que se acredita estar relacionada aos níveis de ferro, durante a gravidez.>
Depois que seus sintomas pioraram nos anos seguintes, ela recebeu prescrição de Ropinirole, um medicamento fabricado pela empresa farmacêutica britânica GSK.>
Emma afirma que passou a jogar compulsivamente e a comprar coisas supérfluas, sentindo como se houvesse algo a controlando.>
Ela diz que só descobriu a relação com seu medicamento quando o marido pesquisou sobre os remédios que ela tomava e encontrou uma de nossas reportagens. "Eu li e pensei: 'Meu Deus, sou eu'", conta.>
Ao marcar uma consulta em sua clínica de atenção primária, Emma conta que precisou preencher um formulário on-line listando todos os medicamentos que tomava.>
Mas, apesar de informar que havia desenvolvido um vício em jogos de azar — e que estava tomando Ropinirole — Emma diz que seu médico nunca associou seu comportamento aos efeitos colaterais conhecidos do medicamento.>
Ela continuou jogando e, mais tarde, após ler nossas reportagens, solicitou a troca do remédio. Afirma ter perdido pelo menos £ 30 mil.>
"Arruinou minha vida — vamos ficar endividados por Deus sabe quanto tempo para pagar isso", diz.>
O medicamento atua aumentando a atividade da dopamina. Ele faz parte de uma família de drogas que, além da GSK, também foi desenvolvida por outros dois fabricantes no Reino Unido.>
A dopamina é uma substância química que ajuda a regular o movimento, mas também desempenha papel central na motivação e no sistema de recompensa — que pode ser superestimulado por esses medicamentos.>
Pessoas em todo o Reino Unido relataram à BBC como efeitos colaterais relacionados a comportamentos impulsivos levaram a dívidas enormes, casamentos desfeitos, envolvimento em crimes e suicídio.>
Também há relatos de pacientes que passaram a comer compulsivamente, praticar cross-dressing e fazer investimentos imprudentes — e de outros que buscaram relações homossexuais pela primeira vez.>
Outro tema recorrente é o de mulheres mais velhas que relatam que seus maridos, após décadas de casamento, tornaram-se sexualmente coercitivos.>
Em geral, os usuários não tinham histórico desse tipo de comportamento e nem eles nem suas famílias perceberam que isso poderia ser causado pelo medicamento.>
Como cerca de um em cada seis pacientes com Parkinson que usam esses medicamentos é afetado por algum tipo de comportamento impulsivo, os efeitos colaterais seriam classificados como "muito comuns".>
No entanto, essa prevalência não é informada nas bulas, que também vêm sendo criticadas repetidamente por descreverem os comportamentos impulsivos de forma genérica — sem detalhar ações específicas a que podem levar, como vício em pornografia.>
Na semana passada, a BBC publicou a história de uma família em que pai e filho tiraram a própria vida após o comportamento impulsivo do pai levá-lo a roubar mais de R$ 4 milhões de seus clientes para pagar por sexo e antiguidades.>
Desde então, mais homens entraram em contato dizendo reconhecer o comportamento descrito como o seu próprio e afirmando que estão atualmente vivenciando esse tipo de hipersexualidade.>
Michael, cujo nome foi alterado, passou recentemente a procurar profissionais do sexo após receber prescrição desses medicamentos para a Síndrome das Pernas Inquietas.>
"Acho que estou obcecado por sexo", diz ele, acrescentando que já se relacionou com cerca de 20 homens e mulheres, apesar de ser casado. Antes, afirma, nunca traiu a esposa nem teve encontros homossexuais.>
Como outros com quem a reportagem conversou, ele diz que inicialmente sentiu prazer com a compulsão, mas agora se sente preso — incapaz de contar ao médico, ou mesmo à esposa, que também participa das consultas.>
"Eu sei que preciso de ajuda, mas as pessoas que podem me ajudar, eu não consigo procurar", afirma. "Não tenho para onde ir.">
Organizações como a Parkinson's UK e a RLS-UK podem oferecer apoio. A orientação do NHS também é clara: se você toma esses medicamentos e tem qualquer preocupação, deve procurar um médico.>
A BBC descobriu agora que a GSK soube, em 2000, de um caso de pedofilia associado ao seu medicamento — sete anos antes de qualquer alerta sobre impulsos sexuais aparecer.>
Um homem de 63 anos que tomava Ropinirole havia abusado sexualmente de uma menina de sete anos e foi preso.>
O caso foi posteriormente incluído em um relatório de 2003 sobre preocupações de segurança, que descrevia uma ligação entre o Ropinirole e o que a GSK chamou de comportamento sexual "desviante".>
A farmacêutica GSK afirma que compartilhou o relatório com o regulador britânico de medicamentos no ano seguinte — e que havia informado o órgão sobre o caso de pedofilia em questão de dias.>
Mas essa linguagem específica sobre "desvios" nunca apareceu nos alertas. Em vez disso, eles mencionam a possibilidade de "aumento da libido", "comportamento prejudicial" e "interesse sexual alterado".>
A BBC também apurou que, no mesmo período em que a GSK compilava suas conclusões, solicitava autorização para usar o Ropinirole em outra condição, a Síndrome das Pernas Inquietas. >
Posteriormente, a empresa também colaborou com um hospital privado nos Estados Unidos para verificar se o medicamento era eficaz no tratamento de disfunção sexual, em 2005.>
A GSK disse à BBC que o medicamento foi amplamente testado, continua aprovado por reguladores em todo o mundo e que os efeitos colaterais estão claramente descritos. A empresa afirmou que não patrocinou nem desenhou o estudo de 2005.>
Em nota, a MHRA, agência reguladora de medicamentos e produtos de saúde do Reino Unido, afirmou que os alertas só apareceram em 2007 porque tal decisão exige a análise de todas as evidências disponíveis — e que as bulas não podem incluir uma lista "exaustiva" de comportamentos, já que muitos são "individualizados".>
Muitas das pessoas que contataram a BBC também disseram sentir que não têm acesso à Justiça por efeitos colaterais sobre os quais afirmam não ter sido devidamente alertadas.>
Fora do Reino Unido, no entanto, vários processos foram apresentados — desde pedidos de indenização até casos criminais em que réus foram absolvidos.>
Há um ano, um tribunal belga absolveu um homem que havia abusado sexualmente de sua neta de quatro anos, sob o argumento de que o Ropinirole causou seu comportamento pedofílico.>
No próximo mês, é aguardada uma decisão importante em um tribunal francês após um homem na casa dos 50 anos processar a GSK por não ter alertado adequadamente os pacientes sobre esses efeitos colaterais.>
Ele afirma que o medicamento destruiu seu relacionamento com a companheira — e que perdeu 90 mil euros (cerca de R$ 552 mil) em jogos e gastos compulsivos. Ele pede indenização e que a empresa reconheça responsabilidade.>
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