Publicado em 26 de março de 2026 às 06:34
O Airbnb, maior empresa de locação temporária de residências do mundo, disse que removerá de sua plataforma todos os anúncios de imóveis considerados moradias populares na cidade de São Paulo.>
A companhia afirmou que fará a remoção dos anúncios assim que a Prefeitura de São Paulo lhe enviar uma lista com os endereços destes imóveis, classificados como Habitações de Interesse Social (HIS) e Habitações de Mercado Popular (HMP). >
A Prefeitura disse que divulgará a lista até esta quinta-feira (26/3).>
O anúncio do Airbnb ocorreu após uma reportagem da BBC News Brasil revelar que muitos apartamentos em São Paulo classificados como HIS e HMP não estão servindo como habitação e sim como hospedagem para turistas e visitantes, em desacordo com decretos municipais que proíbem esses usos.>
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Esses imóveis ficam em edifícios construídos com incentivos fiscais e urbanísticos que a Prefeitura concede a construtoras desde 2014 com o objetivo declarado de reduzir a falta de moradias para pessoas pobres em São Paulo. >
Parte destes imóveis pode ser financiada pelo programa Minha Casa Minha Vida, a maior política de habitação do governo federal. Desta forma, compradores podem adquirir esses imóveis com juros subsidiados pelo governo federal.>
Por outro lado, no caso das moradias sociais, a Prefeitura abre mão de centenas de milhões de reais em arrecadação sem conseguir garantir que os imóveis atendam o público-alvo desses programas, segundo especialistas. >
A locação temporária de apartamentos classificados como HIS e HMP foi proibida em São Paulo por um decreto municipal de maio de 2025, após reportagens, pesquisadores e o Ministério Público apontarem que muitos estavam sendo adquiridos por pessoas de alta renda como um investimento. >
Parte do grupo comprava os imóveis com o objetivo de alugá-los por curtas temporadas, lucrando com isso.>
O anúncio do Airbnb foi feito pela diretora de Relações Institucionais da empresa, Carla Bueno Comarella, em depoimento na Câmara Municipal de São Paulo em 10 de março.>
Na ocasião, Comarella foi interrogada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga desvios em programas de habitação em São Paulo.>
Questionada por que o Airbnb não remove anúncios de moradias populares, a representante da empresa disse que a companhia não sabe quais unidades anunciadas na plataforma são HIS ou HMP.>
"Para realizar essa fiscalização e a remoção das unidades, é preciso ter uma listagem desses imóveis", disse a diretora do Airbnb.>
"Se a lista for feita e a Prefeitura comunicar a empresa sobre unidades que potencialmente estejam irregulares na plataforma, o aplicativo fará a remoção desses anúncios.">
Segundo Comarella, "se o imóvel estiver sendo anunciado de forma irregular, não é do interesse da empresa que ele permaneça no Airbnb".>
Até então, o Airbnb vinha adotando uma postura diferente quanto à remoção de anúncios. >
Em nota enviada à BBC News Brasil em dezembro de 2025, a empresa disse que a "exclusão ou bloqueio de anúncios relativos a certos imóveis em sua plataforma, por se tratar de conteúdo de terceiro, devem ser precedidos de ordem judicial ou de ordem executiva amparada em lei".>
A manifestação da representante da empresa na CPI foi encarada por vereadores como uma flexibilização dessa postura.>
A CPI tem cobrado a Prefeitura a elaborar a lista de unidades HIS e HMP no município há vários meses.>
Inicialmente, a Prefeitura dizia que a responsabilidade de conferir se as unidades anunciadas no Airbnb eram moradias populares era da própria plataforma. >
Em 10/3, a Prefeitura enviou um ofício à empresa solicitando a criação de mecanismos para impedir a divulgação de anúncios de moradias sociais na cidade.>
Nas últimas semanas, no entanto, a Prefeitura se comprometeu a elaborar uma lista desses imóveis e repassá-la ao Airbnb.>
Em 17 de março, a procuradora-geral de São Paulo, Luciana Nardi, disse à CPI que a lista já está pronta e, agora, passa por uma revisão.>
Em paralelo, a vereadora Silvia Ferraro (PSOL), que participa da comissão, elaborou outra lista com 165 mil unidades HIS e HMP a partir de documentos enviados por construtoras que atuam na cidade. >
Juliana Leal, assessora parlamentar da vereadora, diz à BBC News Brasil que a lista ainda é parcial, porque nem todas as empresas enviaram os dados e algumas mandaram informações incompletas.>
Ela afirma que a lista foi enviada em 18 de março ao Airbnb e à Booking, as maiores empresas de locações temporárias que atuam em São Paulo, com um pedido para que elas informem à CPI quantas dessas unidades estão anunciadas nas plataformas.>
A BBC News Brasil questionou as empresas sobre quais providências pretendem tomar a partir do recebimento dessa lista da CPI e se vão remover os anúncios de imóveis que estejam na relação.>
A Booking afirmou que a lista "envolve um volume significativo de dados e que demanda um processo de análise e cruzamento de informações, realizado de forma criteriosa". >
"A empresa já iniciou esse trabalho internamente e está empenhada em atender à solicitação da comissão", disse a empresa.>
O Airbnb afirmou, por sua vez, "que recebeu um ofício com pedido de informações encaminhado pela Câmara Municipal de São Paulo e irá analisar o seu conteúdo de forma técnica, à luz das normas aplicáveis".>
A vereadora Silvia Ferraro afirma ainda à reportagem que, quando encerrar os trabalhos, em junho, a CPI deve apresentar à Câmara um projeto de lei com novas regras para o setor. >
Entre os pontos em discussão, segundo Ferraro, está a proibição da compra de unidades HIS e HMP por pessoas jurídicas, a proibição de aquisição de mais de uma unidade por pessoa e também a proibição de compras por investidores.>
São considerados investidores os compradores que tenham renda acima das faixas enquadradas nos programas de HIS (até três salários mínimos) e HMP (entre três e seis salários mínimos).>
Hoje a aquisição por investidores é permitida desde que eles não morem nas residências e se comprometam a alugá-las em contratos de longa duração para pessoas enquadradas nas faixas de HIS e HMP.>
Especialistas afirmam, porém, que a fiscalização não tem conseguido assegurar que esse público seja, de fato, o beneficiário dessas moradias.>
O debate sobre a destinação das HIS e HMP ocorre num momento em que urbanistas questionam se essas políticas têm ajudado a reduzir o déficit de habitação no município.>
Segundo a Fundação João Pinheiro, que realiza estudos sobre o tema, o número de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo sem moradia adequada passou de 570 mil, em 2016, para 605 mil em 2023, o último ano com dados disponíveis.>
A Prefeitura passou a conceder incentivos fiscais e urbanísticos para unidades HIS e HMP em 2014.>
A reportagem da BBC News Brasil publicada em fevereiro também revelou possíveis caminhos para burlar o Minha Casa, Minha Vida.>
Identificando-se como um investidor, um repórter perguntou a uma corretora se seria possível conseguir um financiamento pelo programa registrando-o no nome da esposa, transferindo o título do imóvel para o nome dele após a quitação. A corretora indicou que sim.>
No entanto, essa prática, segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo, pode configurar falsidade ideológica e estelionato.>
Em outra ocasião, um corretor disse que seria possível financiar um imóvel pelo Minha Casa, Minha Vida mesmo que o comprador tivesse uma renda superior às definidas pelo programa. O corretor não detalhou como.>
Citando a reportagem, o líder da Minoria na Câmara dos Deputados, deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), disse ter acionado o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério das Cidades "solicitando apuração sobre eventual desvio de finalidade na utilização dos imóveis subsidiados".>
"A denúncia levanta questionamentos sobre a efetividade dos mecanismos de controle e fiscalização do programa habitacional", afirmou o deputado em nota à imprensa.>
Um deputado da base governista, Alfredinho (PT-SP), também anunciou em suas redes sociais que acionou o Ministério das Cidades "para exigir fiscalização máxima em São Paulo" com base nos fatos descritos pela reportagem.>
"Não podemos aceitar que o maior projeto social do Brasil vire esquema de lucro rápido para investidor imobiliário", afirmou o deputado.>
Outro ponto abordado pela reportagem da BBC News Brasil foram brechas legais que permitem a imóveis financiados pelo Minha Casa, Minha Vida serem anunciados em plataformas de aluguel de curta temporada, como o Airbnb.>
Hoje, só beneficiários da faixa 1 do programa, que abarca famílias com renda de até R$ 2.850 mensais, têm a obrigação legal de morar nas casas financiadas e são impedidos de colocá-las para alugar por curta ou longa temporada, pelo período de cinco anos.>
Mas essas restrições não se aplicam às demais faixas do programa, que contemplam famílias com renda mensal de até R$ 12 mil. >
Pelas regras federais, essas famílias são livres para anunciar imóveis adquiridos pelo Minha Casa, Minha Vida em plataformas de aluguel por curta temporada e não precisam morar neles.>
Na cidade de São Paulo, no entanto, as restrições municipais que se aplicam a unidades HIS e HMP acabam proibindo indiretamente a locação temporária de unidades financiadas pelo Minha Casa, Minha Vida, já que a grande maioria dos imóveis financiados pelo programa federal no município se enquadra nessas duas categorias.>
Mesmo assim, especialistas em habitação entrevistados pela BBC News Brasil criticaram o regulamento do Minha Casa, Minha Vida acima da faixa 1, afirmando que ele abre margem para que o programa seja desviado da finalidade de prover moradia.>
Para Bianca Tavolari, professora da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o regulamento deveria ser modificado para proibir a locação de curta temporada em todas as faixas. >
"Poderíamos achar que, quando o Minha Casa, Minha Vida se sobrepõe às restrições municipais às HIS, haveria mais controle, mas isso é só parcialmente verdade", afirma Tavolari. >
O tema também entrou no radar dos vereadores da CPI na Câmara Municipal de São Paulo.>
Vice-presidente da CPI, o vereador Nabil Bonduki (PT) diz à reportagem ter pedido à Caixa e ao Ministério das Cidades mudanças no regulamento do programa que impeçam a locação por meio de plataformas como Airbnb e Booking de imóveis acima da faixa 1.>
"Não deveria ser permitido o aluguel de curta temporada de nenhuma moradia subsidiada pelo governo federal", afirma Bonduki.>
A vereadora Silvia Ferraro, segundo informou sua assessoria, também se reuniu com os dois órgãos para debater possibilidades de mudanças no regulamento que proíbam a locação de curta temporada.>
Outro pedido da vereadora foi pelo estabelecimento de uma metragem mínima para imóveis financiados pelo programa.>
Muitos apartamentos financiados pelo Minha Casa Minha Vida em São Paulo nos últimos anos têm entre 24 e 30 metros quadrados. Ela afirma que as dimensões desses apartamentos os tornam pouco adequados para moradia e favorecem usos alternativos, como o aluguel de curta temporada.>
O Ministério das Cidades é responsável pela formulação do Minha Casa, Minha Vida, enquanto a Caixa trata de sua execução.>
A BBC News Brasil questionou os dois órgãos se há planos de mudar o regulamento do programa para proibir a locação temporária acima da faixa 1 e estabelecer uma metragem mínima para os imóveis.>
A Caixa disse em nota que, nas categorias acima da faixa 1, "atua exclusivamente na condição de agente financeiro, realizando a análise e o enquadramento do beneficiário no momento da concessão do crédito, não cabendo à instituição a fiscalização posterior da utilização do imóvel".>
A pergunta também foi enviada ao Ministério das Cidades repetidas vezes, mas o órgão não a respondeu. Em vez disso, o órgão citou algumas regras para a participação no Minha Casa Minha Vida e disse que o perfil das pessoas beneficiadas pelo programa é "distante do perfil de investidor".>
Para a pesquisadora Bianca Tavolari, a remoção de anúncios de imóveis HIS e HMP de plataformas de locação de curta temporada é positiva, mas não resolve os problemas desses programas.>
Tavolari coordenou a pesquisa "Panorama da Habitação de Interesse Social no Brasil", produzida pelo Cebrap e pela Fundação Tide Setubal em 2025. O estudo calculou que a Prefeitura de São Paulo deixou de arrecadar cerca de R$ 1 bilhão desde que passou a conceder incentivos às construtoras para a construção de moradias populares, em 2014.>
O valor cobriria a operação de dois grandes hospitais públicos, como o Hospital do Servidor Público Municipal, ao longo de um ano. Segundo lei aprovada pela Câmara de São Paulo, em 2024, o hospital tem orçamento de cerca de R$ 500 milhões por ano. >
Entre as vantagens oferecidas às construtoras em troca da construção de moradias populares, estão isenções fiscais e a possibilidade de construir acima do limite legal de área construída em relação ao tamanho do terreno sem pagar uma taxa adicional, chamada de outorga onerosa.>
Para Tavolari, a Prefeitura deveria "retomar" imóveis HIS e HMP que descumpriram as regras dos programas. Segundo ela, não basta multar as construtoras que venderam esses imóveis para públicos não enquadrados. >
"Esses imóveis devem ser destinados a pessoas que precisam de moradia em São Paulo", afirma a pesquisadora.>
Tavolari diz ainda que um dos principais problemas dessa política é a falta de dados, como o número, a localização e as características dos imóveis construídos com incentivos da prefeitura.>
Hoje, segundo ela, a Prefeitura deixa nas mãos das construtoras várias decisões sobre os empreendimentos com moradias populares, inclusive o registro público das informações sobre essas construções.>
Como resultado, diz Tavolari, muitos dados não são informados de forma adequada. É por isso que a Prefeitura tem levado tanto tempo para elaborar a lista com os endereços das HIS e HMP, segundo a pesquisadora.>
"Do jeito que está, essa política é imonitorável e deveria ser suspensa", afirma a pesquisadora.>
Em nota à BBC News Brasil, a Secretaria Municipal de Habitação disse que tem intensificado a fiscalização para coibir práticas irregulares envolvendo unidades HIS e HMP e que divulgará a lista das unidades no prazo acordado com a Câmara Municipal. >
"A utilização dessas moradias em desacordo com a legislação pode gerar responsabilização legal, inclusive para os agentes envolvidos na intermediação ou divulgação dessas ofertas", disse o órgão. >
Outros urbanistas e atores políticos defendem, no entanto, que a política das HIS deve ser ajustada, mas não interrompida.>
O vereador Nabil Bonduki, que também é professor de Planejamento Urbano da Universidade de São Paulo, diz que, mesmo com problemas, a política tem conseguido produzir unidades HIS em regiões centrais da cidade. >
O que falta, segundo ele, é garantir que elas realmente cheguem ao público-alvo: "Seria muito ruim para a cidade simplesmente desmontar a política".>
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