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'A cada bombardeio a excitação aumenta': viver em uma zona de guerra pode provocar dependência de adrenalina?

'A cada bombardeio a excitação aumenta': viver em uma zona de guerra pode provocar dependência de adrenalina?

Alguns ucranianos agora sentem medo e excitação durante explosões, algo que os psicólogos estão chamando de vício em adrenalina

Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 07:09

Imagem BBC Brasil
Quatro anos de guerra deixaram muitos ucranianos vivendo emoções complexas Crédito: Getty Images

"Na minha cabeça, eu entendo que as explosões são perigosas e assustadoras… mas, no meu corpo, eu só quero sentir isso de novo", diz Margarita.

Quatro anos após a invasão em larga escala da Rússia, muitos ucranianos relatam emoções complexas.

Os bombardeios se tornaram tão familiares que alguns afirmam sentir, ao mesmo tempo, medo e excitação durante as explosões, algo que os psicólogos passaram a chamar de "vício em adrenalina".

Centenas de pessoas reagiram quando o psiquiatra Yevhen Skrypnyk, do Centro de Saúde Pública do Ministério da Saúde da Ucrânia, publicou sobre o tema nas redes sociais, descrevendo como o "novo problema psicológico dos ucranianos". Muitos disseram se identificar com o relato, mas afirmaram sentir vergonha e medo dessas emoções.

Outros responderam dizendo que esse é um conceito absurdo e questionaram como alguém poderia sentir prazer diante de um evento aterrorizante que causa sofrimento.

O que desencadeia essas emoções e o que elas revelam sobre a saúde mental de pessoas que vivem em zonas de guerra?

'Em constante expectativa'

Margarita, 27, que vive em Kiev, capital da Ucrânia, acredita que pode ter experimentado o chamado "vício em adrenalina". Desde que voltou para casa com o marido, em junho de 2022, ela ouve bombardeios com frequência em seu apartamento no bairro de Podil.

Em entrevista à BBC Ucrânia, ela diz que reage de forma neutra aos alertas de ataque aéreo, mas que as explosões "despertam interesse". De maneira subconsciente, ela diz, sente vontade de estar no centro de uma emergência, seja como testemunha, seja para ajudar outras pessoas.

"Quase a cada bombardeio em massa, surge a excitação: 'E se as janelas estilhaçarem?'", diz. "Essa é a minha fantasia 'preferida' — relativamente segura, inocente, mas revigorante. Como se eu estivesse em constante expectativa."

Margarita afirma que alguns desses pensamentos a assustavam, mas que diminuíram durante a gravidez e após o nascimento do filho.

Agora, durante os bombardeios, seu "mecanismo de defesa" é acionado com mais intensidade, e ela se preocupa com o que pode acontecer caso o ataque seja grave. "Lá fora é inverno, está congelando. Eu não quero a ação e o brilho de antes."

O que causa o 'vício em adrenalina'?

Imagem BBC Brasil
Quando as pessoas vivem sob estresse constante, os hormônios cortisol e adrenalina são liberados Crédito: Getty Images

O chamado "vício em adrenalina" é um estado psicológico, não uma doença mental, afirma Skrypnyk, do Centro de Saúde Pública do Ministério da Saúde da Ucrânia, em entrevista à BBC.

Quando as pessoas vivem sob estresse constante, explica ele, os hormônios cortisol e adrenalina são liberados. Eles suprimem a liberação de dopamina, o chamado hormônio do prazer, o que faz com que as atividades que antes proporcionavam satisfação deixem de ter o mesmo efeito.

Quando explosões ocorrem em torno de pessoas já nesse estado, provocam um pico de adrenalina, capaz de gerar uma sensação intensa em um momento em que a dopamina está reduzida.

Algumas pessoas podem se tornar dependentes dessa estimulação intensa do sistema nervoso.

"Antes, era preciso algo extremo para provocar isso, como um acidente de trânsito, um salto de paraquedas ou ao escalar uma montanha", diz Skrypnyk. Segundo ele, hoje a forma mais simples é esperar por um ataque de drone.

Ainda assim, o vício em adrenalina não deve ser confundido com "masoquismo", afirma Valeria Paliy, vice-presidente da Associação Nacional de Psicologia da Ucrânia. Trata-se, segundo ela, do desejo de alívio após períodos de ansiedade.

Isso é o mesmo que TEPT?

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é precedido por um evento traumático específico e envolve revivescências, lembranças intrusivas, crises de choro, ansiedade e estado constante de alerta diante de possíveis ameaças.

O "vício em adrenalina", segundo Skrypnyk, se aproxima mais de um transtorno de adaptação que pode ocorrer em qualquer pessoa.

Mas pessoas com transtornos de ansiedade, explica ele, chegam a se sentir mais calmos durante explosões, pois seus níveis de adrenalina já estão elevados.

"No início da guerra, homens e mulheres que não eram ansiosos entravam em pânico e corriam, enquanto pacientes com transtornos de ansiedade arrumavam as malas com tranquilidade, acalmavam seus cônjuges e agiam de forma mais consistente e concentrada", afirma Skrypnyk.

Iryna, de Kiev, relatou ter vivenciado algo semelhante. "Há essa reação interna estranha do sistema nervoso, quando você deveria estar no seu pior momento e se sente na melhor versão de si mesma", diz.

Durante os bombardeios, explica, as ansiedades e os pensamentos que antes a atrapalhavam desaparecem, dando lugar a uma sensação de concentração.

O psicoterapeuta Volodymyr Stanchyshyn, de Lviv, autor de Emotional Swings of War (Oscilações Emocionais da Guerra, em tradução livre), afirma compreender por que as pessoas vivenciam emoções tão complexas.

Em meio às explosões, diz ele, as pessoas passam a ter uma única tarefa: sobreviver. "Nesse momento, a pessoa sente alívio, porque todo o resto é colocado em pausa."

O "vício em adrenalina" não deve ser considerado um grande problema, acrescenta Stanchyshyn, mas "uma característica da nossa psique que vale a pena observar".

'Você se acostuma rapidamente às coisas boas'

Imagem BBC Brasil
Um homem afirmou que 'sentiu falta' de batalhas e combates aéreos quando tropas russas deixaram seu vilarejo — mas que rapidamente se acostumou à nova situação Crédito: Getty Images

Alguns dos entrevistados pela BBC News Ucrânia afirmam que essa sensação passou com o tempo.

Mykola, morador da vila de Chayki, no distrito de Bucha, relata que sentiu isso de forma intensa nas primeiras semanas da invasão em larga escala, quando as forças russas se aproximaram de Kiev.

Naquele período, diz ele, quase todos os moradores de seu condomínio haviam deixado o local, incluindo a sua família. No entanto, ele permaneceu no apartamento, observando as explosões do 12º andar.

"Havia batalhas de artilharia, combates aéreos com bayraktars [drones], havia também aviões de caça que eram abatidos à noite. Quando tudo estava em chamas ao redor, eu fazia café e assistia a esses acontecimentos da varanda por mais de um mês", conta Mykola.

Quando os russos deixaram a região, ele se lembra de ter pensado: "Sinto falta disso". Mas, acrescenta, "você se acostuma rapidamente às coisas boas", e em duas semanas a sensação desapareceu.

A experiência da guerra terá consequências de longo prazo? Ainda não há dados suficientes para responder.

De modo geral, a anedonia — a incapacidade de sentir prazer em atividades que antes traziam satisfação — está na base do surgimento de transtornos de ansiedade e depressivos, explica Skrypnyk.

Quando a guerra terminar, as pessoas poderão buscar estímulos de adrenalina no cotidiano.

"Pode haver mais conflitos familiares, divórcios, consumo de álcool. As pessoas vão precisar de algum tipo de estímulo acima do limiar habitual", afirma.

Mas ele acredita que a adaptação à vida normal pode ocorrer sem grandes dificuldades.

"Deixe a guerra acabar. Depois nós, psiquiatras e psicólogos, veremos."

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