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Marcos Alencar

Mulher desfilou seminua pela Praia do Canto... e ninguém percebeu

Acompanhando à distância o surreal desfile, antevi um problema mais sério se avizinhando: um grupo de quatro rapazes adolescentes se aproximava, mas a apreensão durou pouco

Publicado em 08 de Novembro de 2018 às 19:45

Públicado em 

08 nov 2018 às 19:45

Colunista

Eu vi. Era uma sexta-feira, ali pelas duas da tarde. Eu acabara de estacionar na Aleixo Neto, um pouco depois da esquina com a Chapot Presvot. Fazia muito calor e, antes mesmo de descer, reparei naquele jipe vermelho que acabara de chegar. Dele desceu uma linda mulher, alta, cabelos nos ombros, enormes óculos escuros. Vestia calça comprida e, para meu espanto, exibia os seios nus. Isso mesmo, peitos de fora. Nuinha da cintura para cima em rua movimentada. Tomou a calçada da esquerda de quem segue em direção à Reta da Penha. Limpei meus óculos para me certificar do que via. Afinal, cena igual, assim em público, só no cinema, em Woodstock e nas areias de Ipanema. Mas para a minha surpresa, jovens e idosos cruzavam com ela, indo e vindo sem dar a mínima. A belle de jour seguia no seu caminhar tranquilo, passando em frente da sorveteria, ao lado de três ou quatro butiques e indo adiante sem ser notada. Parece mentira. Diminuiu o ritmo ao passar pelo caminhão onde vendem abacaxis. Mas não parou e nem ganhou a atenção do vendedor. Quando cruzava as ruas transversais, o vento soprado levava seus cabelos a cobrir seu rosto. Ela os retirava com um leve, automático e sensual balançar de cabeça. E seguia linda, leve e solta.
Rua Chapot Presvot, na Praia do Canto Crédito: Leandro Nossa
Acompanhando à distância aquele surreal desfile vespertino, antevi um problema mais sério se avizinhando: um grupo de quatro rapazes adolescentes se aproximava. Mas durou pouco aquela minha apreensão. Eles nem se deram conta. Incrível. Achei até que fingiram não vê-la. Mas não. Eles nem sequer olharam para trás.
Mais alguns metros à frente um apressado operário, carregando um pequeno tamborete, esbarrou na moça, derrubando a pequena bolsa que pendia de seu ombro. O cara nem parou, nem pediu desculpas e – incrível! - nem notou a senhorita.
Ela parou no sinal. Ao seu lado uma mulher grávida e dois garotos uniformizados. Sem sequer desconfiar da seminudez ao lado, esperaram quase um minuto o semáforo abrir e todos atravessaram a rua como se só eles existissem no mundo.
Ela passou rente à loja de artigos domésticos, pelo chaveiro e pelo bar, àquela hora vazio. Aí eu gelei. Aproximava-se da barbearia. Do lado de fora, três cadeiras estão quase sempre ocupadas por cavalheiros que esperam para ser atendidos. Mas qual o quê. Ninguém soube, ninguém viu. Restou-me vê-la seguir o seu fresco caminhar em direção a Santa Lúcia. Dobrei então a Clarindo Fundão e fui fazer uma fezinha na loteria.
Mas não conseguia tirar da cabeça aquele monte de gente – mães empurrando carrinhos de bebês, idosos, estudantes, vendedores - com os olhos absurdamente grudados em seus celulares, incapazes de admirar, por um segundo que fosse, o mundo que pulsava ao seu redor. Impressionante!
P.S. A historinha acima é fictícia, claro. Por enquanto.
 

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