O movimento #MeToo foi criado por Tarana Burke nos anos 90, após ouvir o relato de uma garota de 13 anos que havia sido estuprada pelo padrasto, e ganhou visibilidade através da atriz Alyssa Milano, que após as denúncias de estupro contra o produtor Harvey Weinstein incentivou as mulheres a compartilharem suas histórias com a hashtag. #metoo.
A campanha foi a celebração das mulheres, que se uniram para denunciar os assédios na indústria do cinema na cerimônia da 75ª edição do Globo de Ouro. Em um momento em que as estatísticas mostram que 89% das mulheres negras já sofreram assédio, é urgente o discurso da Oprah Winfrey e o resgate da história de Recy Taylor, mulher negra que foi violentada por seis homens brancos, que ao serem levados à delegacia foram liberados quando disseram que Recy era uma prostituta.
Pela primeira vez em 66 edições, o Prêmio Cecil B. DeMille foi entregue a uma mulher negra. O que enfatiza uma indústria cinematográfica não só machista como racista, e o quanto os debates sobre raça e gênero ainda precisam ser provocados nesses espaços.
O assédio está estritamente ligado às relações de poder, a maior parte das vítimas são silenciadas ou sofrem retaliações, como Recy, que viveu cercada de medo e ameaças no Sul segregacionista dos Estados Unidos na década de 40, enquanto seus abusadores viviam em liberdade.
O manifesto escrito por Catherine Deneuve e as demais artistas francesas que reconhecem o movimento #MeToo como puritano e movido por ódio aos homens representa sim um retrocesso na luta das mulheres, uma cultura patriarcal cristalizada, que em meio aos relatos e denúncias de abuso não visibiliza os agressores, mas sim as mulheres que reproduzem os discursos machistas naturalizados, é ainda mais devastadora.
Infelizmente, não é como Catherine diz, os homens não estão sendo punidos e obrigados a saírem de seus empregos, as vítimas ainda são as mais afetadas, a maior parte das histórias mostradas ainda são contadas por eles, como disse a atriz Natalie Portman: Todos os indicados são homens!
Queremos nossos corpos livres, sem nos sentirmos ameaçadas por toques não consentidos, e isso não é puritanismo, é liberdade.
*A autora é atriz e produtora cultural graduanda em Artes Visuais