Controlar a mente é missão árdua para qualquer ser humano. No caso de Rafaela Silva, já foram inúmeras as vezes em que os pensamentos a levaram para os piores lugares possíveis.
A batalha interna para evitar a derrocada em meio à pressão de um atleta de alto rendimento não se tornou menos intensa com o passar do tempo. Mas a carioca pode afirmar que jamais desistiu de lutar, dentro ou fora dos tatames. Hoje, ela diz que se encontra mais forte.
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Em entrevista exclusiva ao LANCE!, a campeã olímpica na categoria até 57kg nos Jogos Olímpicos Rio-2016 falou sobre os altos e baixos vividos após a suspensão por doping que a tirou de cena por dois anos.
Recuperada e motivada, ela traça metas de recuperar as condições físicas, técnicas e mentais que a fizeram campeã, e destaca a gratidão ao Flamengo pelo acolhimento em seu retorno no final de 2021.
O Rubro-Negro anunciou a contratação de Rafaela no dia 1º de setembro de 2021, uma semana após o fim da suspensão. Antes, a atleta nascida na Cidade de Deus defendia o Instituto Reação. Logo no primeiro dia de "liberdade", lá estava elas nos tatames.
- Havia muitas incertezas se eu voltaria, se conseguiria competir de igual para igual no alto rendimento novamente, com atletas novas aparecendo na categoria e medalhistas novas nas Olimpíadas de Tóquio. Mas eu sabia que o judô era meu lugar e minha paixão - afirmou a brasileira, que, apesar do "flerte" com o MMA no período de suspensão, descarta mudar o foco.Hoje, Rafaela ocupa a 24ª colocação no ranking da categoria e sabe que o caminho para voltar ao topo é longo. As expectativas são altas, uma vez que a judoca conquistou, em janeiro deste ano, a medalha de ouro no Grand Prix de Almada, em Portugal, na abertura da temporada do Circuito Mundial. Em fevereiro, a judoca terminou em quinto lugar após perder a disputa pelo bronze no Grand Slam de Tel Aviv, em Israel. Em abril, acabou eliminada na segunda rodada do Grand Slam de Antalya, na Turquia.
L!: Como tem se sentido fisicamente, tecnicamente e emocionalmente nos tatames desde que voltou da suspensão? Procurou fazer algum trabalho de preparação diferente?Rafaela: Obviamente, não estou no melhor momento possível, após dois anos sem poder treinar nem competir. Mas acredito que eu tenho feito um trabalho específico muito bom para correr atrás do tempo perdido e me recuperar da melhor forma. O mais importante é conseguir os pontos para a classificação olímpica. A cada treinamento de campo, como fizemos recentemente, e a cada competição sinto que eu me aproximo mais dos meus 100%.
L!: O judô brasileiro enfrenta dificuldades de renovação na sua categoria, em que você é soberana e segue sendo a grande referência. Como lida com essa responsabilidade?Rafaela: Não vejo como uma cobrança ou responsabilidade. Se hoje me cobram resultados e o melhor desempenho foi porque conquistei esse lugar, como campeã mundial e campeã olímpica. Por esses resultados, as pessoas sempre esperam o melhor da Rafaela Silva. Eu procuro pensar assim e faço o meu melhor treino. Nunca sabemos quando vamos ganhar ou perder. Às vezes, uma competição tem mais de 40 atletas e só quatro vão ao pódio. Mas sempre tentamos chegar entre elas.L!: Qual foi o momento mais difícil para você desde que o caso de doping estourou?Rafaela: O momento mais difícil foi quando recebi o e-mail que dizia que minha suspensão seria de dois anos. Quando treinamos e competimos, o período de dois anos passa muito rápido. Quando nos deparamos com uma punição como essa sem poder fazer nada, temos a noção de que dois anos demoram muito para passar. A expectativa era sempre a melhor possível, e eu ficava contando os dias para voltar logo ao tatame.
L!: Em que você procurou focar? Teve também uma aventura no MMA, né?Nesses dois anos, sempre estive focada na minha carreira no judô, porque isso é minha vida. Eu amo competir. Não podia treinar nem competir, mas podia assistir às lutas pela televisão e pelos sites. Eu estava sempre acompanhando minhas adversárias, pois sabia que eu voltaria e teria de estudá-las, saber como estavam e acompanhar as mudanças de regras. Fiz alguns treinos de MMA. Fui ver como era e fiz novas amizades para tentar distrair um pouco da suspensão, mas minha paixão é mesmo o judô. Não tinha como fugir disso. Por isso, estou de volta.
L!: A detecção de substâncias proibidas pela Wada é cada vez mais sensível e isso demanda do atleta uma preocupação extra. O doping te obrigou a redobrar certos cuidados? Quais, por exemplo?Rafaela: Em relação a medicamentos e suplementação, sempre tive cuidado e preocupação. Não acho que seja algo que vá mudar muito, mas agora está tudo redobrado. Quando vou lutar, colocamos a nossa garrafinha e os pertences em uma cestinha, depois recolhemos, voltamos à área de aquecimento e esperamos a próxima luta. Cada vez que entro, tenho uma garrafa pequenininha, para beber o suficiente que preciso. Quando saio, já jogo fora e pego outra, pois tive contato com cestinha e outros atletas que estão na espera.