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Vitor Vogas

Luiz Paulo chuta o balde

O PSDB acaba de perder não o seu militante mais antigo, não um de seus cofundadores, mas o quadro mais diretamente associado ao PSDB no Espírito Santo desde 1994

Publicado em 19 de Fevereiro de 2018 às 22:15

Públicado em 

19 fev 2018 às 22:15
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Crédito: Amarildo

A desfiliação de Luiz Paulo Vellozo Lucas do PSDB, após 24 anos de militância no partido, tem elevadíssima carga simbólica. Não é exagero dizer que o partido acaba de perder não o seu militante mais antigo, não um de seus cofundadores, mas o quadro mais diretamente associado ao PSDB no Espírito Santo desde que ali chegou, em 1994.

Por essas bandas, é (ou era) difícil apontar alguém mais identificado com o PSDB e com a ideologia do partido do que o ex-prefeito de Vitória. O tempo de filiação de Luiz Paulo ao partido fundado por FHC e Covas coincide com os anos de polarização política entre PT e PSDB no cenário nacional. No Espírito Santo, com ou sem mandato, Luiz Paulo esteve sempre a postos para travar o debate programático com os petistas e fazer a comparação de modelos. Em tudo o que pensava, formulava e defendia, o agora ex-tucano expressava o objetivo maior de ajudar o PSDB a retornar ao governo central. Tanto que, em 2010, lançou candidatura ao governo do Estado, numa eleição praticamente impossível contra Renato Casagrande (PSB), para dar palanque ao candidato tucano à Presidência, José Serra.

Naquela época, o PSDB no Espírito Santo havia sido esvaziado pelo governador Paulo Hartung. Foi quando Luiz Paulo cunhou a expressão “unanimidade bonapartista”, para criticar Hartung nas entrelinhas. Data dessa época, também, o início da corrosão do relacionamento político de Luiz Paulo com o antigo aliado. Uma corrosão que se intensificou desde 2016 e que agora chega a um ponto aparentemente sem volta.

A filiação de Luiz Paulo ao PPS demarca, obviamente, sua ruptura com o grupo que passou a comandar o PSDB no Estado, desde a vitória de César Colnago na convenção estadual de novembro do ano passado. Mas indica, acima de tudo, a ruptura de Luiz Paulo com Hartung e com o projeto de poder liderado pelo governador. Tudo converge para essa conclusão: as palavras do ex-prefeito de Vitória na nota em que explica sua decisão (afiadas e claramente endereçadas a PH), o destino escolhido por ele e o lado em que ele agora marca posição na geopolítica estadual.

Na nota, Luiz Paulo critica o “alinhamento automático do PSDB capixaba ao projeto de poder que hoje governa o Espírito Santo”. Como nova casa, escolhe justamente o PPS, partido comandado no Estado pelo prefeito de Vitória, Luciano Rezende, ao mesmo tempo um dos maiores adversários de Hartung e um dos maiores aliados de Renato Casagrande (PSB). Com isso, sacramenta: meu lado é este, ao lado dos líderes políticos não alinhados a Paulo Hartung e que estão se unindo para construir "um projeto alternativo ao atual governo". Na verdade, ao migrar para o PPS, o ex-prefeito da Capital dá caráter oficial a algo que ele já vinha sinalizando não é de hoje. Dá assim o último passo de uma aproximação que já vinha se desenrolando desde 2016.

O primeiro e decisivo passo se deu quando ele desistiu de ser candidato a prefeito de Vitória em 2016 e, dias depois, manifestou apoio à reeleição de Luciano, confrontando o grupo de Hartung e indo contra o seu próprio partido (o PSDB fechou aliança com o PMDB de Lelo Coimbra). Luiz Paulo sempre se disse partidário e de fato, mesmo com discordâncias pontuais, sempre acompanhou as decisões dos dirigentes e convencionais. Até aquele momento. Ali ele abriu um precedente, indicando que “tudo tem limite” e que não estava mais disposto a pôr sua lealdade ao partido acima da coerência com o que ele mesmo acredita. Sobretudo levando em conta que o partido havia se tornado praticamente uma extensão do Palácio Anchieta, mais ou menos como Hartung fizera com o DEM em meados da década passada.

Mesmo assim, Luiz Paulo não jogou a toalha e continuou travando a luta interna. A gota d’água foi a derrota de sua chapa, encabeçada por Max Filho – e não à toa batizada de “PSDB Autêntico” – para a chapa de Colnago, com DNA totalmente hartunguista, na convenção de novembro. Desde então, Luiz Paulo deixou de ver sentido em permanecer num partido que já não é o seu partido no Espírito Santo, um partido onde ele já não se reconhece e onde já não tem espaço algum.

Luiz Paulo, enfim, nunca foi um estranho no ninho. O ninho aqui no Estado é que ficou muito estranho para ele. Ideologicamente, ele sempre se sentiu em casa no PSDB. Mas, por não topar mais a influência do grupo de Hartung no partido, concluiu que era chegada a hora de bater asas e ir fazer sua cama em outro galho.

Bastidores da filiação

O primeiro convite do PPS a Luiz Paulo foi feito em 2016. Após a convenção do PSDB, em nov/2017, Luciano reforçou o convite. Mas até aliados do prefeito duvidavam da filiação, dada a ligação profundamente ideológica de Luiz Paulo com o PSDB. As conversas foram travadas diretamente entre Luiz Paulo e Luciano.

Em outras palavras

Em 2009, Luiz Paulo lançou a expressão “unanimidade bonapartista” para criticar Hartung, nas entrelinhas, por algo que ele volta a mencionar agora em sua nota divulgada no último domingo: o “clientelismo” e a “cooptação” de aliados para se manter no poder “a qualquer custo”.

De volta à antiga casa

O agressivo 2º turno entre Luiz Paulo e Luciano Rezende pela Prefeitura de Vitória em 2012 deixou a sensação de que havia uma distância enorme entre eles e, também, entre Luiz Paulo e o PPS. Nada mais equivocado. O PPS está nas raízes políticas de Luiz Paulo. Sua militância começou nas fileiras clandestinas do Partido Comunista Brasileiro, contra a ditadura, em 1974. Em 1992, o PPS surgiu precisamente como ramificação do PCB.

Social-democracia

No plano ideológico e programático, as duas siglas estão próximas. O mesmo na correlação de forças da política nacional. Durante o período do PT na Presidência, os dois partidos se aliaram na oposição. Em 2018, podem voltar a convergir em uma candidatura de centro ao Planalto.

Luiz Paulo e Luciano

Em 2004, Luiz Paulo cogitou lançar Luciano em sua sucessão em Vitória. Optou por César Colnago (ironias da política). Em 2008, Luiz Paulo apoiou Luciano contra Coser. Após a sangria de 2012, repetiu o apoio em 2016. Braço direito de Luciano, Fabrício Gandini (PPS) já foi do PSDB. Colnago (PSDB) já foi do PPS.

Lenise Loureiro

Luiz Paulo entra no PPS para ser candidato a deputado federal. A princípio, fica mantida a candidatura de Lenise Loureiro ao mesmo cargo. O PPS ainda espera Josias da Vitória para reforçar a chapa.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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