Confesso que não sou da folia e entre uma festa carnavalesca e outra, enquanto o povo que gosta de carnaval se esbalda na avenida, procuro um recanto bem tranquilo para descansar e ler. O brasileiro é um povo dionisíaco, que faz do limão uma limonada e consegue se divertir, apesar de tudo: violência, febre amarela, recessão, desemprego, crises política, econômica e social.
Certa vez, por causa de um voo cancelado, um grupo de brasileiros na Europa se alegrava por ter de ficar uma noite mais em Paris. Um casal de espanhóis, ou argentinos, dizia à nossa frente: “Não entendo como os brasileiros conseguem ser felizes mesmo em meio à desgraça”, disse a mulher. E o marido: “Pois eu os admiro por isso”. Assim somos vistos pelos outros: um povo inconsequente ou resiliente. Cada qual tenha a sua opinião.
Como nada sei de folias, nem da que houve em Vitória, uma semana antes da que ocorreu pelo resto do país, vou falar, mais uma vez, do que sei um pouco e, me perdoem meus poucos leitores se sou repetitivo: livros. Sei que faço parte de uma confraria que ainda lê livros, neste planeta analógico e moribundo, que ainda vivo, e é a eles que me dirijo para falar do penúltimo livro que acabei de ler, a biografia de Leonardo da Vinci escrita por Walter Isaacson, jornalista e biógrafo norte-americano.
O livro é sensacional, pois retrata o lado humano e genial do celebérrimo Leonardo, um dos homens mais fascinantes de sua época. O autor, que já se consagrara por ter escrito as biografias de Einstein e Steve Jobs, fez essa reconstituição da vida de Leonardo da Vinci, baseando-se nos milhares de páginas dos impressionantes cadernos que da Vinci manteve ao longo da vida e nas mais recentes descobertas sobre sua obra e sua vida.
Sua biografia conecta estudos de arte e de ciência, as duas facetas que caracterizam Leonardo, personagem marcado pela curiosidade, uma enorme capacidade de observação e imaginação tão fértil, que beirava à fantasia. Leonardo da Vinci se imortalizou pelas pinturas da Mona Lisa e Santa Ceia, conhecidas mundialmente, e as poucas obras que realizou, em 69 anos, e conseguiu concluir, não passam de algumas dezenas.
Era um perfeccionista e um visionário, em tudo que fazia, não somente na pintura. Alguns indivíduos são geniais em uma área específica, mas o brilhantismo de Leonardo se estendia por várias disciplinas.
E, para não dizer que não falei de folia e carnaval, pode-se dizer que Leonardo da Vinci foi um precursor de Joãozinho Trinta e de todos os outros carnavalescos, coreógrafos, aderecistas, que tanto fazem para sua escola sair arrasando na avenida. Leonardo criava espetáculos para a corte dos duques e reis a quem serviu. Para a visita do rei Luís XII da França a Milão, em 1509, criou um leão em cima de uma ponte, que se levantava, à chegada do rei, abria o peito com a pata e tirava de dentro bolas azuis cheias de lírios dourados, que jogava, espalhando-as pelo chão. Não parece performance de comissão de frente?
*O autor é professor e escritor