Tarcísio Faustini*
Dona – assim chamamos as senhoras, com respeito, e certamente foi por isso que a compositora, cantora e instrumentista passou a ser chamada, como se fosse parte do nome: Dona Ivone Lara, que faleceu na noite de segunda-feira (16). São muitas as causas desse merecido respeito, a começar pelas vitórias sobre o preconceito inicial quanto a ser compositora em escola de samba, a carioca Império Serrano. Lá ela teve de mostrar seus primeiros sambas por intermédio do primo, Mestre Fuleiro, diretor de harmonia da escola. Demorou, até ser aceita na ala de compositores da escola.
Mas sua arte teve origem, mesmo, nos terreiros de candomblé e nas noitadas de jongo e caxambu dos subúrbios do Rio. Dançava o miudinho, estilo que também a caracterizou. Muito depois, foi além, quando suas composições passaram a fazer sucesso nas vozes de Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Beth Carvalho, Clara Nunes, Roberto Ribeiro e muitos outros grandes nomes da nossa música popular. Então, embora seja honroso chamá-la de “a grande dama do samba”, esse título parece-me um tanto restritivo. Assim como não concordo quando ouço chamarem Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes de cantoras “de samba” ou “ABC do samba”. Cantoras, grandes cantoras, isso sim. Donas também, senhoras da sua arte. Assim como Dona Ivone.
Um grande compositor, a quem também não concordo em acrescentar “de samba”, Nei Lopes, apresentou no ano 2000 uma bela homenagem à Dona Ivone em seu CD “De letra e música”, feita em parceria com o também grande Claudio Jorge, intitulada “Senhora da canção”. Da gravação participaram também Alcione e a homenageada com seus característicos “lara la la”, cantando com os autores versos como estes: Ivone Lara ra ra ra ra ra ra / Pérola rara no compor e no cantar / Senhora da canção, doce instrumento / Pastora da emoção, do sentimento / Ivone Lara ra ra ra ra ra ra / Tudo se aclara sob a luz do teu olhar / Lavando a nossa alma / Com a mais fina inspiração / Meu samba te pega na palma / E beija tua mão.
Dona Ivone, a senhora da canção, tem sua emoção e sentimento registrados nessa e em outras gravações, dela e de seus grandes intérpretes. Sua história está contada no livro “Nasci para sonhar e cantar: Dona Ivone Lara – a mulher no samba”, de Mila Burns (editora Record, 2009) e “Dona Ivone Lara – a primeira dona do samba”, de Lucas Nobile (Sonora Editora, 2015). Esse último é da coleção Sambabook, que inclui dois CDs e um DVD. Da dona do samba, sim, e mais que isso, senhora da canção.
* O autor é apresentador do programa “Domingo Brasil”, da Rádio Universitária FM, e pesquisador de música popular brasileira