A ideia de que a compra do primeiro imóvel faz parte de um projeto para uma fase mais avançada da vida está mudando. No Espírito Santo, consumidores de 18 a 30 anos vêm ganhando espaço no mercado imobiliário e antecipando a decisão de conquistar a casa própria. Esse tem sido um movimento observado, principalmente, no segmento econômico, impulsionado pelas condições de financiamento habitacional e pela busca de maior independência financeira.
Segundo dados da construtora MRV, atualmente, o público de 18 a 30 anos é um dos principais compradores de imóveis enquadrados no Minha Casa, Minha Vida no Estado capixaba, respondendo por 52% das vendas feitas no ES de janeiro a setembro deste ano. Esse número fica muito próximo do observado nacionalmente, já que, durante o mesmo período, segundo a empresa, 54% dos compradores da construtora tinham de 18 a 30 anos.
Para esse consumidor, a compra do imóvel representa uma forma de conquistar independência, organizar a vida financeira e transformar o gasto mensal com aluguel em patrimônio próprio.
"A conquista também foi viabilizada pelas condições oferecidas pelos programas habitacionais, como o prazo de pagamento de 35 anos, o financiamento com juros que não variam conforme a Selic e a maior previsibilidade das parcelas, fatores que tornam a compra do primeiro imóvel mais acessível para os jovens", explica Thiago Ely, vice-presidente de Marketing da MRV.
Esse não é um comportamento isolado. Outras construtoras do Espírito Santo têm percebido esse movimento em relação a mudança do perfil de compradores do primeiro imóvel.
Na Morar Construtora, por exemplo, o comportamento é semelhante: os jovens de 18 a 30 anos representaram cerca de 40% dos compradores pelo Minha Casa, Minha Vida no Espírito Santo no último ano. Segundo Filippe Vieira, diretor comercial da construtora, o programa passou a ser visto pelos jovens não apenas como um projeto distante, mas como uma decisão de organização financeira e independência.
"Quando o jovem percebe que pode utilizar o FGTS, compor renda, parcelar a entrada e acessar subsídios, a compra deixa de parecer um objetivo distante e passa a ser uma possibilidade concreta", afirma.
Na Recanto Construtora, que também trabalha com imóveis do Minha Casa, Minha Vida, o percentual é ainda maior entre quem usa o subsídio habitacional. De acordo com dados fornecidos pela empresa, das vendas concluídas de setembro de 2025 a setembro de 2026, 46,5% dos compradores têm idade cadastrada de 18 a 30 anos, número que sobe para cerca de 61% entre os que utilizaram subsídio.
"O aumento do custo do aluguel nos últimos anos, somado a um cenário de instabilidade econômica, tem reforçado a busca por segurança patrimonial. O sonho da casa própria continua muito presente entre os jovens, e comprar passa a ser visto como uma forma de se proteger dessa instabilidade", explica Pedro Bolsanello, diretor de Incorporações da Recanto.
Para Bolsanello, essa fase da vida também favorece o financiamento, porque o jovem geralmente ainda não tem a renda comprometida com despesas que chegam mais tarde, como escola dos filhos ou plano de saúde, abrindo espaço no orçamento para assumir as parcelas do imóvel.
Financiamento facilita entrada dos jovens
Essas facilidades têm sido ampliadas nos últimos meses. Em abril deste ano, a Caixa passou a operar novas condições do Minha Casa, Minha Vida, atualizando os limites de renda e os valores dos imóveis financiáveis. Agora, famílias com renda de até R$ 13 mil passaram a ser atendidas, e o teto dos imóveis subiu para R$ 400 mil na Faixa 3 e R$ 600 mil na modalidade Classe Média (Faixa 4).
Segundo o vice-presidente de Marketing da MRV, para os jovens, o financiamento de longo prazo funciona como estratégia de aquisição patrimonial a partir da renda mensal, e o uso do FGTS (quando o comprador atende aos critérios) pode ajudar na composição da entrada ou na redução do saldo financiado.
No Brasil, o crédito imobiliário segue crescendo. No mês de julho de 2026, a Caixa informou que sua carteira de crédito imobiliário alcançou R$ 1 trilhão, com crescimento superior a 14% em 12 meses. Só no primeiro trimestre de 2026, o banco originou R$ 64,2 bilhões em crédito imobiliário, alta de 30,6% frente ao mesmo período do ano anterior.
Geração Z lidera intenção de compras
Nacionalmente, a alta na procura do crédito imobiliário surge como reflexo do aumento na intenção de compra. Um levantamento da Brain Inteligência Estratégica, divulgado pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), mostra que mais de 50% das famílias brasileiras declararam intenção de comprar um imóvel até o fim do ano, o maior número da série histórica, iniciada em 2019.
Entre a Geração Z, de 21 a 28 anos, o índice chegou a 67% nos próximos 24 meses. A pesquisa ouviu 1.200 pessoas em junho de 2026, em abrangência nacional.
A decisão, no entanto, está ligada a diferentes etapas da vida, sendo não pagar mais aluguel a motivação mais citada (33%), seguida por morar em uma residência maior (21%), sair da casa dos pais em busca de independência (11%), buscar mais benefícios como lazer, segurança e localização (8%), morar em um imóvel mais novo (6%) e comprar para alugar (6%).
*Este conteúdo foi produzido por Guilherme Marques, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação da editora Karine Nobre.