• Maria Sanz

    É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

Crônica: Suprema desvantagem

Publicado em 01/10/2023 às 07h00
mulher pensativa

É que nós, humanos, temos o que pesquisadores chamam de sistema imunológico psicológico. Crédito: Shutterstock

“A comparação é a ladra da satisfação”. Theodore Roosevelt

Diz que o ser humano é a única espécie cujo cérebro detém uma estrutura chamada córtex pré-frontal – um software que equivale a um simulador de experiências. Ele age exatamente como um simulador de voo, possibilitando à mente experimentar sensações, muito antes de executá-las na vida real. O que explica o fato de ninguém, acima dos três anos de idade, ter a curiosidade de lamber a sola do sapato.

Graças a este tal córtex, desenvolvemos habilidade para idealização e adquirimos o hábito de sonhar com a plena satisfação... Aquela que fatalmente será alcançada quando nosso bilhete da loteria for sorteado; quando nos casarmos; quando nossos abdomens ficarem sarados; quando formos reconhecidos pelo nosso trabalho; quando isso, quando aquilo assim, quando aquilo assado.

Por associação, deduzimos que a felicidade é algo a ser conquistado.

(Nota: nas linhas a seguir, com a mais pueril das humildades, tentarei provar o contrário).

Devida a alta capacidade de antecipação e idealização, o cérebro nos faz acreditar que resultados diferentes do que esperávamos (como o súbito fim de um relacionamento, a reprovação no vestibular ou a perda de um cargo) terá maior impacto, maior duração e causará mais dor do que realmente causam.

Descobri isso no final do ano passado, assistindo a palestra de Dan Gilbert – um psicólogo de Harvard, conhecido como o cientista da felicidade. Fiquei passada com a precisão dos dados que me confirmam: a felicidade é uma substância sintética. Produzida inloco, na mente.

Logo no início de sua fala, Gilbert pergunta à plateia quem é mais feliz: o sujeito que acertou na loto? Ou o que sofreu um acidente e ficou paraplégico? (A pergunta é seguida por uma gargalhada generalizada). Então ele abre um gráfico com o resultado de um estudo que comprova: passado um ano do ocorrido, loteria ou paraplegia, é exatamente igual o grau de satisfação de ambos com a própria vida.

É que nós, humanos, temos o que pesquisadores chamam de sistema imunológico psicológico. Um mecanismo que possibilita a produção de bem estar mesmo quando não conseguimos exatamente o que queríamos – ou o que achávamos que queríamos.

Ainda segundo os estudos, algumas pessoas teriam mais habilidade para sintetizar felicidade que outras. Inclusive fatores genéticos estariam envolvidos. Mas há uma regra curiosa que se aplica a todos: a dificuldade em sintetizá-la é diretamente proporcional ao grau de liberdade.

Ou seja, quanto maior a liberdade de escolha entre as inúmeras opções oferecidas pelo mercado e pela vida, mais difícil se torna produzi-la.

Já por outro lado, o tal sistema imunológico psicológico flui que é uma beleza quando estamos presos à uma determinada realidade, ou quando não há outra saída. Pois é. A felicidade é daquelas coisas que está aonde falta.

Mesmo sabendo disso, a natureza humana faz questão da variedade de opções. Ninguém gosta de abrir mão do poder de escolha. Engraçado, de modo geral, perseguimos a dúvida e cultivamos a arte da comparação.

E mais, no escuro do quarto, passamos noites em claro conferindo nossas vidas com o metro da idealização (E se? E se não...?)

A capacidade de simulação do cérebro é uma vantagem que proporcionou à nossa espécie nada menos que a evolução. Mas de certa forma ela é também uma desvantagem que nos faz esquecer o valor da realidade; que nos transforma em seres invariavelmente insatisfeitos; e que é causa do famigerado mal estar da civilização.

Enfim, tão melhor seria se a gente enxergasse de uma vez por todas que é exatamente por causa da nossa capacidade de produzir a mais almejada de todas as substâncias, através da mente, que nossos desejos e nossas preocupações são sempre supervalorizadas…

Ora, se podemos experimentar a felicidade em pensamento, a qualquer momento, porque não fazê-lo agora, só que sem pensar!

Ou seja, de forma inocente, livremente, sem julgamento, na prática?

Experimenta!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de HZ.

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